.Por Susiana Drapeau.

Como produzir bens e serviços em uma sociedade complexa como a contemporânea sem a relação patrão-empregado? Se você pensar que não há solução para essa questão, ou seja, sempre teremos (patrão – dono dos modos de produção) e o trabalhador (dono da força de trabalho), então o capitalismo perdurará até a destruição completa e irremediável do planeta. É o conhecido “fim da história” e, de quebra, da Terra.

(imagem dave lavy – ccl)

A experiência internacional também mostrou que trocar o capitalista pelo burocrata do partido único não deu muito certo, principalmente diante dos bloqueios econômicos, militares e políticos. Além disso, pode ser mais opressivo viver sob a batuta de um burocrata selvagem do que de uma capitalista selvagem. Isso nos remete à importância das conquistas das Democracias, dos Direitos Humanos e do processo civilizatório. Essas devem ser as bases inegociáveis das relações de trabalho.

No entanto, para romper essa relação patrão-empregado, tão bem estudada e reestudada, debatida e pensada durante mais de 200 anos de sociologia e marxismo, muitas lideranças de trabalhadores pensam na “autogestão”. Autogestão é uma espécie de utopia para romper as relações de produção.

O problema é que a autogestão é mais eficiente como projeto do que como realidade. Nas sociedades complexas, a gestão depende de conhecimentos que muitas vezes os trabalhadores não detêm. Inúmeras tentativas de trabalhadores de autogestão naufragaram devido à complexidade das atividades, mas também pela própria dificuldade de lidar, não só com a gestão, mas com a gestão de quem faz a gestão. Ou seja, é preciso de uma organização e pessoas extremamente competentes de inteligência racional e emocional para conduzir um processo de produção coletivo e autogestionário. E, mesmo nesses casos, a autogestão acaba sendo apenas uma gestão delegada totalmente à liderança.

Seria muito mais fácil para os trabalhadores se abandonassem a ideia de autogestão e a trocassem por uma ideia de autocontrole. Qual a diferença? A diferença é que o trabalhador deixa de se preocupar com a gestão e todos os detalhes e conflitos inerentes a ela e que desgastam muito as relações de trabalho e cooperação. Para controlar os modos de produção, os trabalhadores precisam apenas fazer o controle da gestão, não a operacionalização da gestão.

É como se os trabalhadores, em vez de serem terceirizados pela empresa, eles próprios terceirizassem o patrão (a gestão). Eles contratam um gestor para cuidar e apenas definem metas, transparência e controles de forma colegiada. Com isso, desestruturam um fator de desigualdade entre os trabalhadores, que é o grupo de gestão (poder) com o restante dos trabalhadores, quando o trabalhador que detém a gestão e o poder de gestão abandona sua função original e hierarquiza as relações dentro da produção. Com o autocontrole, a hierarquia se dá apenas na representatividade política e de controle, por meio do voto.

É mais ou menos o que aconteceu com o Bibi Mob, em Araraquara. Os trabalhadores, com o apoio da Prefeitura, construíram o próprio aplicativo de transporte privado urbano. O aplicativo é gerido por quem conhece informática, não pelos trabalhadores. Mas a política, a transparência, as finanças, as metas e regras estabelecidas pelo aplicativo são definidas pelos próprios trabalhadores.

Importante salientar que para o controle dos modos de produção no interior do capitalismo não há fórmulas prontas. É preciso inventar, criar e construir uma multiplicidade de formas de organização. Erram as lideranças que idealizam um único modelo utópico de controle dos modos de produção.