Os líderes de trabalhadores no Brasil (e no mundo todo) conhecem a longa história da economia política.

Sim, os grandes pensadores do século 19 uniram economia e política e todo esse debate tem mais de 150 anos.

Por contingências históricas, os trabalhistas restringiram suas ações ao campo político. Ou seja, as conquistas dos trabalhos se dariam pela via política e daí a importância de se constituir partidos políticos.

Essa exclusividade do campo político foi promissora, mas parece ter dado sinais de esgotamento e explicar também o retrocesso atual dos direitos trabalhistas no Brasil e em outros países, inclusive na Europa.

É certo que as maiores conquistas da massa trabalhadora (direitos trabalhistas, aposentadoria, redução das horas de trabalho, fim da exploração de crianças nas fábricas, direitos das mulheres etc) foram erguidas com muita luta política e pela via política. Não há como negar essas vitórias.

Mas é inegável também que essas conquistas foram possibilitadas pelas transformações históricas dos modos de produção.  A economia política ensinou aos trabalhadores que os modos de produção influenciam de forma muito consistente a consciência. E hoje sabemos que o movimento político que em um momento avança, em outro momento retrocede.

A economia política também ensinou que as transformações nos modos de produção mudam as sociedades e a própria história. Basta estudar um pouco a Revolução Francesa.

Apesar de toda essa história consolidada (relatada por centenas de pensadores, historiadores e líderes políticos por gerações) até hoje os trabalhadores não foram capazes de participar dos modos de produção para melhorar as condições de vida da população em geral. Tentaram via política na Rússia, bem sucedida no início, com todos os benefícios gerados por um tempo no resto do mundo, mas a experiência de 1917 falhou como um projeto com capacidade democrática e consistente. Há também outras experiências, mas são raras.

Os líderes dos trabalhadores sempre apostaram na política. E alguns conceitos foram importantes para isso. Por exemplo, ‘consciência de classe’ ou ‘luta de classes’. Mas como também ensinou a longa história da filosofia dialética, nada é definitivo e até conceitos que foram importantes e fundamentais para conquistas históricas podem conter, em si, a sua própria negação. Um líder de trabalhadores, por exemplo, quando se transforma em político, não deixa de carregar em si a essência sindical, mas também há nele uma negação do sindicalismo. Ele passa a mediar o conflito e temos inúmeros exemplos no Brasil dessa complexidade dialética.

Mas voltando aos conceitos ‘consciência de classe’ e ‘luta de classes’, eles ajudaram a classe trabalhadora a se entender como classe, a gerar conquistas importantes, mas também podem ter impossibilitado outros avanços.

Se o trabalhador toma esses e outros conceitos como monolíticos e imutáveis, e não dialéticos, só lhe resta preservar o modo de produção existente e sempre ter a identidade que cede a mão de obra para produção e, por isso, não ter a possibilidade da emancipação como classe.

Conceitos são importantes para a luta política, mas precisam sempre ser questionados, discutidos e analisados com as contingências históricas. Talvez para transformar os modos de produção seja necessário (parece difícil dizer isso) abalar conceitos como ‘consciência de classe’  (abalar não é destruir, é ressignificar).

Como é possível ter a consciência de classe trabalhadora quando se é controlador dos modos de produção? Isso parece ser um paradoxo, mas é justamente diante de paradoxos que se tem os grandes avanços.

Entregando todas as suas forças à política, os sindicatos perderam tempo sem construir uma verdadeira estrutura de produção capaz de dar solidez às melhores condições de vida para sua própria classe. Existem muitas alternativas para essa transformação: economia solidária, fundações, associações etc. Mas seria possível?

É certo que é difícil competir com um sistema que busca o tempo inteiro burlar as regras e extrair o máximo dos insumos e da massa trabalhadora. Mas nas sociedades complexas, como as contemporâneas, não seria possível construir pequenas estruturas de produção que sejam eficientes nas quais o trabalhador receba mais renda e trabalhe menos?

Isso pode ser tentado nas áreas de tecnologia, comunicação, educação, saúde e muitas outras. Por exemplo, veja o que acontece com o cooperativismo da produção agrícola e ecológica do MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra). O MST é justamente essa semente que transforma, pois controla um novo modo de produção com consciência ambiental e de classe, ainda que em escala pequena na economia. Por que os trabalhadores da cidade não se inspiram no MST?

Seria possível transformar a ordem de dentro da própria ordem? Seria possível estabelecer melhores condições de trabalho competindo com o sistema capitalista? Seria possível criar mecanismos para evitar uma classe trabalhadora elitista e empresarial nos moldes exploradores do capitalismo neoliberal? Os desafios são enormes, sem dúvida.

Mas tudo isso não significa negar a política nem negar a consciência de classe. Pelo contrário, a economia e a política se complementam e mais: a política sairá profundamente fortalecida. Se os líderes dos trabalhadores não superarem esse paradoxo, dificilmente as populações terão condições de vida digna de forma constante ao longo de décadas. Ficarão ao sabor do movimento político, demográfico e econômico externo, que ora beneficia o trabalhador, ora prejudica. Talvez seja um tempo de enfrentar os desafios que parecem impossíveis. (Susiana Drapeau)