(foto txetxu – ccl)

A tradição crítica, hegeliana e marxista, trouxe uma contribuição fundamental para a humanidade que é o pensamento dialético. Essa contribuição é fabulosa porque o ser humano tende a pensar de forma absolutista, calcado principalmente na tradição religiosa. Desnecessário dizer que a certeza sobre uma realidade nos traz segurança. As pessoas entendem um determinado acontecimento ou fenômeno social e montam mentalmente um quadro da realidade, mas um quadro fixo, sólido, que é muito mais fácil de lidar e suportar. Isso pode ser até compreensível porque ninguém consegue caminhar com segurança sobre caminhos instáveis. Mas é essa caminhada sobre o instável que é a maravilhosa contribuição do pensamento hegeliano-marxista.

Para o pensamento crítico, navegar sobre um mar agitado enriquece o pensamento e a reflexão, mas isso pode ser um sofrimento para os grupos de poder, os religiosos ou mesmo para ativistas políticos progressistas ou sindicalistas etc. Antes de sermos qualquer coisa, somos humanos. O religioso, por exemplo, para convencer seu rebanho, precisa da solidez do pensamento, do dogma, de algo que não muda. Essa é a grande sacada dos exploradores evangélicos da fé no Brasil contemporâneo. Eles conseguem arrancar recursos financeiros dos fiéis com uma solidez inabalável do pensamento: a verdade criada de forma absoluta. Com a verdade absoluta, podem ludibriar também de forma absoluta. Não pode haver dúvida ou incerteza quando se precisa extrair recursos dos fiéis.

O sindicalista, o político, o ativista, assim como o religioso, tende – mesmo que tenha uma formação crítica – a se fortalecer na prática dentro do pensamento monolítico e não dialético. Como reivindicar melhor salário ou uma greve com pensamento dialético, onde a contradição é inerente? Como convencer um fiel com um pensamento dialético? Na realidade concreta, a força de uma “verdade” é fundamental para convencer o grupo ou a comunidade dos caminhos a seguir, dos projetos que devem ser realizados. Esse é o campo político e pragmático.

Mas se o pragmatismo da realidade exige uma certa solidez de pensamentos e ações, a estratégia e o pensamento do ativista não podem se submeter ao absolutismo das ideias. E é aqui que se formou a armadilha da ‘consciência de classe’. Conceito fundamental na história da classe trabalhadora, a ‘consciência de classe’ se tornou o conceito importante para as revoluções proletárias. Mas será que essa é a única forma de transformação? Será que o resultado real de alguns países não nos impulsiona a pensar outros modelos e alternativas? Será que a estratégia de combate e bloqueios ideológicos e econômicos de potências capitalistas não suscita pensar alternativas? Não há alternativas novas para reduzir a desigualdade e as injustiças sociais?

A consciência de classe é fundamental para a luta cotidiana da classe trabalhadora por melhores condições de trabalho e foi fundamental para o caminho da revolução via Estado com as experiências que já conhecemos. Mas, vale ressaltar, algumas experiências europeias, fora dos países centrais de tradição colonialista, sem qualquer revolução do proletariado, como na China ou Rússia, criaram melhores condições de vida para a população em geral, obviamente protegidas e beneficiadas por um aceite econômico de grandes potências.

Diante desse quadro, o que se questiona aqui é se é possível o ativista (sindicalista, trabalhador, organizações progressistas etc) ter o processo de consciência de classe eficiente para o trabalho concreto e cotidiano de reivindicação de direitos e melhores condições de vida e, paradoxalmente, também ser capaz de pensar dialeticamente e construir um processo de consciência de classe fora do campo político, ou seja, dentro do campo econômico. Ser capaz de construir um modo de produção e enfrentar a armadilha da consciência de classe absolutista, que o aprisiona num infinito processo de reivindicação proletária.

O que se questiona é se a classe trabalhadora e a sociedade civil são capazes de assumirem a contradição inerente do processo dialético dos modos de produção e germinar uma superação no interior do capitalismo. A nossa premissa é que quase 200 anos de tradição marxista trouxe grandes transformações sociais, mas não foi capaz de estabelecer uma satisfatória redução da desigualdade social, das injustiças, da violência e da fome. No entanto, acreditamos que o legado marxista e hegeliano nos aponta para instrumentos capazes de avançar em uma sociedade mais justa e equilibrada.

É rara e quase impossível uma transformação social ou uma revolução somente utópica, ou melhor, somente fundada na superestrutura. Marx e Engels sabiam bem disso, assim como toda tradição marxista. Esse entendimento construiu o conceito de consciência de classe. Mas os partidos políticos operários e socialistas, dentro de uma democracia capitalista, estão fadados (salvo acontecimentos excepcionais), não só às regras definidas pelos próprios sistemas, mas também ao limite do isolamento superestrutural.

Nesse sentido, é fundamental que certas condições infra estruturais estejam dadas para que a transformação social tenha permanência e solidez. Isso é básico na tradição marxista. Por isso, urge a necessidade de projetos políticos de produção de bens e mercadorias e não apenas projetos políticos partidários. É preciso construir um movimento independente e dialético entre economia e política, entre consciência e modos de produção.

Sambemos que há aqui obstáculos gigantescos e incapacidades dentro da própria classe trabalhadora e da sociedade civil. Mas se os trabalhadores e a sociedade civil organizada são incapazes de administrar uma escola, um hospital, um supermercado, uma indústria etc frente ao capitalismo, a única solução é se resignar e aceitar o destino de subserviência.

Se os trabalhadores e a sociedade civil são incapazes de produzir mercadorias de maneira pluralizada, descentralizada e autônoma, sem a mais-valia do trabalho, não há solução possível para os trabalhadores. Se os trabalhadores e as organizações civis se corrompem ao controlar os modos de produção, não há alternativas para eles. Se os trabalhadores se tornarão inevitavelmente exploradores de outros trabalhadores, isso os coloca em um paradoxo insolúvel, que faz desmoronar o próprio marxismo. Afinal, “trabalhadores do mudo, uni-vos” não pode ser apenas um slogan enganoso.

O falto é que só é possível superar o capitalismo que destruirá completamente o Planeta Terra, além de toda a inerente exploração e violência que engendra, se um novo modo de produção for capaz de superar o modo de produção capitalista em seu próprio interior, em um processo dialético com o processo histórico-político. Esse é o substrato do gérmen da transformação marxista.

Em resumo, a sociedade precisa estabelecer um processo histórico-dialético entre espaços políticos das democracias capitalistas e espaços de controle de modos de produção descentralizados, plurais e autônomos. E isso nos inspira a bradar: Trabalhadores do mundo, produzi-vos!