O inaceitável silêncio sobre a fraude do pré-câncer em Pelostas (RS)

.Por Sandro Ari Andrade de Miranda.

O que você faria se descobrisse que contraiu uma doença porque o órgão responsável pelo controle fraudou o exame? Mais do que isto, o que você faria se soubesse que o tratamento seria facilitado se o exame fosse realizado corretamente? Esta é a realidade de milhares de mulheres na cidade de Pelotas/RS que foram vítimas de uma gigantesca fraude nos exames preventivos contra o câncer de colo do útero dentro da rede municipal de saúde.

De acordo com informações colhidas na CPI instalada na Câmara dos Vereadores, o esquema funciona há 6 anos, passando pelos governos de Eduardo Leite e de Paula Mascarenhas, ambos do PSDB, e reside na realização de exames por mera amostragem, deixando diversas pacientes sem atendimento. Embora a primeira medida da administração tenha sido a rescisão do contrato com laboratório responsável, documentos internos indicam que o problema já era do conhecimento da Secretaria de Saúde e, na melhor das hipóteses, o governo tucano local pecou por desídia.

Estudos indicam que o exame conhecido como “papanicolau” é eficiente se realizado corretamente e com a regularidade necessária, sendo de fácil acesso e disponível pelo Sistema Único de Saúde. Todavia, segundo a bióloga e professora do Departamento de Radiologia e Oncologia da Escola de Medicina da USP, Dra. Luisa Lina Villa, existe a possibilidade de 50% destes exames apresentarem problemas, como falsos-negativos, exatamente pelo descumprimento dos procedimentos, o que inclui a ausência de regularidade nos exames.

Pesa muito o preconceito, a desinformação e o machismo, motivo pelo qual muitas mulheres temem realizar os exames. Tais fatos transformam a fraude do sistema de Pelotas numa situação ainda mais grave, pois além de colocar em risco a vida de milhares de mulheres, desconsidera a situação de vulnerabilidade que as mesmas se encontram. São vítimas duas vezes, pois sofrem com a fraude e com o preconceito. É uma violência sem precedentes e que ameaça a saúde e à vida das mesmas.

Se os procedimentos fossem observados corretamente, o câncer de colo do útero poderia ser erradicado. Ainda em 2014, durante o governo Dilma (PT), o Brasil passou a oferecer gratuitamente a vacina conta o HPV pelo Sistema Único de Saúde. Conforme informa a OMS, se 80% dos meninos e meninas forem vacinados, em 70 anos este tipo de câncer, que é terceiro tipo que mais mata mulheres em todo o planeta, poderia ser erradicado.

Com relação à Pelotas, o ex-Prefeito Eduardo Leite (PSDB), que é candidato ao governo do Estado, conta com a complacência e o silêncio dos meios de comunicação e o abafamento da CPI, tanto que uma manobra interna vem impedindo que o mesmo seja ouvido pelos Vereadores. Enquanto isto, a população da cidade segue prejudicada, inclusive porque os principais hospitais locais também sofrem com o corte de verbas na saúde pela Prefeitura (administrada pelo PSDB) e pelo governo do Estado.

Sandro Ari Andrade de Miranda é advogado e mestre em Ciências Sociais e mantém o blog Sustentabilidade e Democracia.