
Uma pesquisa da Universidade de Brasília (UnB) mostra como as políticas de segurança defendidas e aplicadas pela extrema direita de aumentar os recursos públicos no policiamento ostensivo no combate ao crime são inúteis. É, na verdade, um jogo de cena para enganar a população. Ele comprovou que os estados que gastaram quantias exorbitantes com a polícia praticamente não conseguiram reduzir a criminalidade. Efeito placebo. E, pior, a segurança acabou competindo com os recursos que poderiam ir para Saúde e Educação. Esses gastos aumentaram muito com a ascensão da extrema direita bolsonarista nos últimos, que coloca em pauta essa farsa de combate a criminalidade. Veja artigo do pesquisador João Gabriel de Araujo Oliveira, publicado no The Conversation:
Mais polícia, menos segurança: o paradoxo do gasto público nos estados brasileiros
.Por João Gabriel de Araujo Oliveira.
Os estados brasileiros nunca gastaram tanto com segurança pública. Mas os homicídios não caíram na mesma proporção. O problema não é a falta de dinheiro — é onde ele vai parar.
No Acre, os gastos com segurança cresceram 45% entre 2023 e 2025 — mais do que saúde, educação e qualquer outra área. Hoje, a segurança consome 7,8% de todo o orçamento do estado.
No Amazonas, o orçamento de segurança quase dobrou em oito anos, chegando a R$ 3,4 bilhões em 2026. No Amapá, um estado com menos de 900 mil habitantes, são R$ 1 bilhão por ano. Enquanto isso, no mesmo Amapá, o órgão de ciência e tecnologia cresceu menos de 20% no mesmo período em que a segurança cresceu 131%.
Esses números vêm das Leis Orçamentárias Anuais (LOAs) de cinco estados — Acre, Amapá, Amazonas, Alagoas e Minas Gerais — analisadas entre 2017 e 2026.
Oito para um: a proporção entre policiamento e investigação
A questão não é só quanto se gasta, mas como. E aí o padrão é revelador.
No Amapá, a Polícia Militar recebe 44% do orçamento de segurança. A POLITEC — responsável por toda a perícia forense do estado — recebe 5,4%. A proporção entre policiamento ostensivo e investigação criminal é de aproximadamente oito para um.
Em Minas Gerais, a maior linha do orçamento de segurança em 2020 não foi nenhuma operação policial. Foram os proventos de militares inativos: R$ 6,7 bilhões — quase o dobro do que custou o policiamento ostensivo.
Criminologistas chamam isso de contenção militarizada: privilegiar a presença fardada e visível em vez da investigação eficaz. O problema é que a evidência internacional aponta na direção oposta: o que reduz homicídios não é densidade policial, mas taxa de elucidação, capacidade forense e investimento social.
Gastar mais em segurança pode significar gastar menos em prevenção
Quando o orçamento de segurança cresce, ele compete por espaço com saúde, educação e assistência social.
No Amapá, a relação entre gasto com segurança e com ciência e tecnologia chegou a 91 para 1 em 2025. Isso num estado que tem bioeconomia como prioridade declarada de governo.
No Amazonas, a segurança cresceu mais do que a educação em cinco dos oito anos analisados. Em Alagoas, o orçamento de segurança é mais que o dobro da soma de ciência e tecnologia, meio ambiente e infraestrutura social.
O Banco Interamericano de Desenvolvimento e o UNODC documentaram esse fenômeno em vários países da América Latina: orçamentos subnacionais que se tornam cada vez mais voltados para policiamento, independentemente dos resultados.
Mais gasto, mesma violência
O Amazonas tem uma das maiores taxas de homicídio do Brasil — cerca de 40 por 100 mil habitantes, quase o dobro da média nacional de 23 —, mesmo com o orçamento de segurança dobrando.
O Amapá convive com violência persistente em Macapá e nas regiões de fronteira, apesar de verbas específicas para essas áreas.
Já Alagoas — historicamente um dos estados mais violentos do Brasil — reduziu homicídios nos últimos anos. Mas a literatura acadêmica associa esse progresso a modelos integrados de governança e programas sociais, não ao aumento do orçamento de segurança.
Por que os gastos continuam crescendo, mesmo assim?
A pergunta mais incômoda não é onde o dinheiro vai parar, mas por que ele continua indo para lá ano após ano, mesmo quando os resultados não acompanham. A explicação tem duas partes — uma política e uma estrutural — e as duas se reforçam.
A política da visibilidade. Policiamento ostensivo rende voto; investigação e prevenção, não. Viatura nova, operação na comunidade, mais fardas na rua: tudo isso é visível, fotografável e anunciável antes da próxima eleição. Já um laboratório de perícia que reduz a impunidade, ou um programa social que evita que um adolescente entre no crime, produz resultados difusos, lentos e difíceis de atribuir a um governo específico.
Há aí uma assimetria que distorce o incentivo: o eleitor enxerga o insumo — quantos policiais, quantas viaturas —, mas não o resultado, isto é, se o crime de fato caiu por causa deles. O governante é cobrado pelo que se vê, não pelo que funciona. E não por acaso a força mais visível também é a estruturalmente dominante: o modelo brasileiro, herdado da Constituição de 1988, separa a polícia ostensiva — militar e numerosa — da investigativa — civil e enxuta —, e é a primeira que consome a maior fatia do orçamento em todos os estados analisados.
Como o custo da violência recai sobre as periferias urbanas, populações com menos voz organizada, enquanto a demanda por “mão dura” é eleitoralmente barulhenta, o orçamento acaba refletindo menos uma escolha técnica de segurança e mais o equilíbrio de quem consegue se fazer ouvir na disputa por recursos.
A trava fiscal. A segunda parte raramente aparece no debate. Quando um estado contrata um policial, não assume um gasto de um ano: assume cerca de três décadas de salário e mais décadas de aposentadoria. É uma despesa obrigatória de caráter continuado — entra no orçamento e não sai. E há um agravante próprio do setor: os militares estaduais, policiais e bombeiros, ficaram de fora da reforma da Previdência de 2019 e passaram a ser regidos por uma lei própria e mais branda, que elevou o tempo de serviço de 30 para 35 anos, mas manteve a aposentadoria sem idade mínima. A conta previdenciária cresce, assim, praticamente sozinha.
Minas Gerais mostra isso com clareza desconfortável. A maior linha do orçamento de segurança do estado não é nenhuma operação policial — são os proventos de inativos militares. E não em um ano isolado: em todos os anos analisados. Essa rubrica saltou de R$ 5,7 bilhões em 2019 para R$ 10,1 bilhões em 2025 — alta de 76% — e consome sozinha entre um terço e 40% de toda a função segurança.
Em 2020, pagar aposentados militares custou quase o dobro do policiamento ostensivo e cerca de 25 vezes tudo o que o estado destinou à perícia técnico-científica. Dito de outro modo: uma fatia crescente do “recorde de gastos com segurança” não compra segurança — paga a segurança de ontem.

E é exatamente por isso que esse gasto é quase impossível de enxugar. Não se demite aposentado, não se corta benefício adquirido, não se reduz efetivo da noite para o dia. Diferentemente de quase toda outra política pública, a segurança, depois que cresce, trava — e o ponto de partida de cada novo orçamento é sempre o do ano anterior, acrescido das obrigações já assumidas. A inércia faz o resto.
O que precisaria mudar
Não se trata de cortar gastos com segurança. A violência nos estados periféricos é real, e quem mais sofre são as populações mais pobres e vulneráveis.
O argumento é por reequilíbrio. Destinar mais recursos para investigação criminal e perícia forense. Investir em programas de prevenção com eficácia comprovada nas periferias urbanas. E mudar o critério de sucesso: não o número de policiais em campo, mas o número de casos resolvidos e homicídios prevenidos.
No Amapá, por exemplo, triplicar o orçamento da POLITEC — de 5,4% para 15% do total de segurança — significaria realocar cerca de R$ 100 milhões. Uma mudança possível, se houver vontade política.
O orçamento reflete escolhas. E as escolhas atuais estão comprando cada vez mais do que não funciona.
Nota metodológica: Dados extraídos das dotações da Função 06 (Segurança Pública) nas LOAs do Acre (Lei 4.304/2024), Amapá (Leis 3.003/2024 e 3.176/2025), Amazonas (série 2017–2026), Alagoas (LOAs 2024–2026) e Minas Gerais (LOA 2020, com série 2019–2025). Todos os valores são dotações iniciais. Taxas de homicídio: Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2024.
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[…] A ascensão da extrema direita também direcionou recursos para forças policiais sem pesquisa, sem qualquer eficiência, sem resultado prático, drenando dinheiro público pelo ralo da incompetência. Uma grande farsa eleitoreira para enganar a população, comprovado por levantamentos estatísticos. […]