Vini Oliveira entra para a história como o primeiro vereador cassado pela Câmara de Campinas

(foto Câmara de Campinas)

Vini Oliveira (Cidadania) entrou para a história política de Campinas nesta quarta-feira (9) como o primeiro vereador a ter o mandato cassado pelo voto do plenário da Câmara Municipal. Foram 23 votos pela cassação, cinco contrários, uma abstenção e quatro ausências. Eram necessários 22 votos para confirmar a perda do cargo. A sessão começou às 9h e durou cerca de cinco horas e meia, em um julgamento marcado por tensão, confrontos, discursos duros e manifestações dentro e fora do plenário.

A sessão começou às 9h, com leitura do relatório, manifestações dos vereadores, defesa de Vini e, finalmente, a votação nominal. Votaram contra a cassação Arnaldo Salvetti (MDB), Edison Ribeiro (União Brasil), Marrom Cunha (MDB), Hebert Ganem (Podemos) e o próprio Vini Oliveira. Rubens Gás (PSB) se absteve. Quatro parlamentares não participaram da votação (veja abaixo o placar).

O caso que levou à cassação começou com imagens que mostraram Vini Oliveira em reuniões na sede da Smile Transportes, empresa ligada a um dos consórcios vencedores da licitação do transporte público de Campinas. A denúncia apresentada pela vereadora Mariana Conti (PSOL) sustentou que o vereador teria ultrapassado os limites ao se reunir com uma empresa diretamente interessada no processo licitatório.

“O relatório da Comissão Processante preservou a instituição e apontou claramente a irresponsabilidade e a quebra de decoro do denunciado”, afirmou Paulo Bufalo (PSOL) na tribuna. Bufalo é suplente de Mariana Conti e substituiu a parlamentar, que estava impedida de participar da sessão de julgamento por ser a autora de denúncia.

Em vídeo publicado em suas redes sociais, Mariana comemorou o resultado logo após a votação: “O vereador que fala ato com as mulheres, que ataca os servidores públicos, é um frangote pra lidar com a máfia do transporte . Foi pego com a boca na botija, fazendo negociações espúrias com os empresários”.

Quebra de decoro

A Comissão Processante foi aberta em 1º de junho por 29 votos a zero e formada por Paulo Haddad (PSD) na presidência, Otto Alejandro (PL) na relatoria e Dr. Yanko (PP). O relatório final, também aprovado por unanimidade, concluiu pela quebra de decoro parlamentar e pelo uso indevido da prerrogativa de fiscalização. A defesa de Vini negou as acusações e sustentou que ele atuava justamente no exercício da fiscalização do processo de licitação do transporte.

“Com fortes suspeita de escândalo de corrupção na licitação, o mandato do vereador Vini Oliveira foi cassado. Ele se intitula como antissistema e anticorrupção, mas é o que há de mais podre no sistema. Um vereador não pode atender a interesses privados. Não pode tramar contra o coletivo para beneficiar indivíduos”, afirmou o vereador Gustavo Petta (PCdoB) ao comentar o resultado do julgamento.

Uma das imagens de Vini em reuniões na empresa mostram o parlamentar deixando o prédio com uma caixa preta com envelopes dentro. A votação desta quarta-feira não julgou se Vini recebeu propina ou cometeu crime. O que estava formalmente em julgamento era a denúncia por infração político-administrativa e quebra de decoro.

Paralelamente, porém, o caso está inserido em um contexto mais amplo: em junho, o vereador foi alvo de uma operação da Polícia Civil e do Ministério Público, com mandados de busca e apreensão no gabinete, em sua residência e na sede da Smile. A investigação apura possível pagamento e recebimento de vantagens indevidas.

“Com fortes suspeita de escândalo de corrupção na licitação do transporte, o mandato de Vini Oliveira foi cassado. Ele se intitula como antissistema e anticorrupção, mas é o que há de mais podre no sistema. Um vereador não pode atender a interesses privados. Não pode tramar contra o coletivo para beneficiar individuos”, afirmou Gustavo Petta (PCdoB).

Para o vereador Wagner Romão (PT), o caso vai além do processo encerrado nesta quarta. “Esperamos que as investigações do Ministério Público e da Polícia revelem se outros agentes públicos agiram de maneira suspeita ao manter relações com as empresas de ônibus que disputam a licitação”, cobrou.

Reincidente

A vereadora Paolla Miguel (PT) lembrou que a cassação não acontece isoladamente, mas depois de uma sequência de controvérsias envolvendo o parlamentar. “Vini Oliveira é um reincidente. Essa não é a primeira vez que Câmara precisa parar suas atividades para julgar suas ações irresponsáveis e inadmissíveis”, afirmou.

“Não é admissível que um parlamentar acesse o escritório de uma empresa de transporte enquanto essa empresa participa de uma licitação, especialmente nesse momento tão delicado e caótico que vive a cidade no tema do transporte público”, acrescentou.

As críticas à atuação do vereador recuperaram um dos episódios que marcaram o mandato de Vini, lembrado pelas vereadoras Guida Calixto (PT) e Fernanda Souto (PSOL). “Esse é o mesmo vereador que ficou conhecido por invadir unidades de saúde e intimidar servidores, prática típica da extrema direita e pela qual também foi denunciado”, pontuou Fernanda.

Em julho de 2025, o vereador já havia sido alvo de uma Comissão Processante após denúncia de conduta inadequada durante visita ao Hospital Mário Gatti, gravando servidores e pacientes, mas acabou mantido no cargo. Na ocasião, o Cremesp e a Associação Paulista de Medicina criticaram o episódio, questionando os limites de suas chamadas fiscalizações.

“Não podemos aceitar uma política fascista que distorce fatos, ataca servidores e trabalhadores e usa a força da mentira para intimidar quem está na ponta, enquanto faz conluio com os poderosos empresários do transporte. Decoro parlamentar não é detalhe. É obrigação”, criticou Guida Calixto após a sessão desta quarta-feira.

COMO VOTARAM OS VEREADORES


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