100 anos de República, usurpação do Estado, moral e bons costumes

O Brasil de 2017 está muito parecido com o Brasil de 100 anos atrás, no início da República.

Passaram-se mais de 100 anos, mas as mesmas ideias continuam sendo defendidas pelos mesmos grupos de pessoas. Olhando o passado, parece que nada mudou.

Se em 2017 estamos cortando as conquistas geradas pelo Estado (leis trabalhistas, aposentadoria, assistência à saúde e melhor educação) para a população mais pobre e beneficiando os mais ricos,  isso se parece muito com a concepção de Brasil de 1904, por exemplo.

15 anos após a Proclamação da República, a aristocracia paulista queria se apossar da novíssima e linda Praça da República, construída com recursos públicos em 1904.  O prefeito de São Paulo, Antônio Prado, contrariou a aristocracia paulista quando a inaugurou. Prado decidiu que o jardim não teria cercas como no período imperial, quando os melhores jardins (bens públicos) eram cercados para permitir apenas o acesso da elite. Nesse episódio, há 113 anos, a elite paulistana atacou o prefeito paulista. Vai pra União Soviética! Ainda não existia Cuba comunista.

100 anos de República e quase nada mudou. Em 1906, após a expansão sem planejamento do cultivo de café, os grandes fazendeiros de São Paulo, Minas e Rio de Janeiro, colheram 12 milhões de sacas, sendo que já havia 4 milhões de sacas em estoques. Os preços caíram e eles resolveram o problema arrancando dinheiro do Estado.

Reuniram-se no Convênio de Taubaté e decidiram que os governos estaduais usariam os recursos públicos para comprar o excedente. O absurdo era tanto que o presidente da República e fazendeiro, Rodrigues Alves, foi inicialmente contra, mas, claro, acabou cedendo. Em 2017, enquanto se tenta acabar com a aposentadoria da população mais pobre, o Itaú deixa de pagar R$ 25 bilhões de impostos e grandes empresas devem para a Previdência Social.

Enquanto em 2017 se perde direitos trabalhistas, aposentadoria, e se proíbe investir mais em saúde e educação, em 1907  homens, mulheres e crianças trabalhavam 16 horas por dias em situações degradantes dentro de galpões. Em notícia da época, crianças eram 50% dos operários, e muitas sofriam ataques sexuais dos seus chefes.

Enquanto a pedofilia e prostituição infantil rolava solta nas fábricas e paróquias, a classe média devota estava enlouquecida com o nu do museu e com os vestidos curtos, assim como em 2017.

Em 1911, uma novidade de Paris, a jupe-culotte, uma saia-calção que realçava as formas femininas, foi um escândalo no Rio de Janeiro.

Uma mulher valente saiu com a novidade. “No início eram apenas risos e gracejos. À medida que caminhava, uma multidão se formou e se seguiu atrás dela, dirigindo-lhe apupos e palavras de baixo calão. Num determinado momento, era uma turba selvagem que a agarrou brutalmente e quase a despiu em público. A misteriosa dama foi obrigada a se refugiar na Camisaria Americana para não ser linchada pela multidão”, relata texto da época. A mesma história, a mesma cena, foi filmada em 2009 com a estudante Geisy Arruda, que foi expulsa da Faculdade.

100 anos de República e pouca coisa mudou. A consciência monarquista de direitos vitalícios das classes mais ricas continua definindo a política de Estado, embalada com o irresistível circo dos bons costumes. Enquanto isso, a desigualdade econômica alimenta a pedofilia e a prostituição infantil pelo Brasil afora. (Glauco Cortez – Carta Campinas)

Veja o vídeo do Jupe-culotte – conexão 1911-2009

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