O que acontece quando a infância deixa de ser apenas personagem e passa a ser uma forma de olhar para o mundo? Essa perspectiva ganha as telas na 9ª Ciranda de Filmes, mostra dedicada às infâncias, juventudes e educação que chega pela primeira vez a Campinas neste fim de semana. Nos dias 19 e 20 de setembro, sábado e domingo, o Centro Cultural Casarão, em Barão Geraldo, recebe uma seleção gratuita de 11 produções nacionais e internacionais, além de uma oficina de animação para crianças.
A passagem por Campinas tem um significado especial: é a primeira vez que a Ciranda, criada em 2014, realiza uma programação fora da cidade de São Paulo. Nesta edição, o eixo é “Infância: força regeneradora da vida”, uma proposta que passa por temas como natureza, pertencimento, memória, vínculos familiares, território, imaginação e as maneiras pelas quais crianças e jovens percebem o mundo.
Além das sessões de cinema, haverá uma atividade que amplia a experiência da mostra para além da tela e coloca as próprias crianças no lugar de quem cria imagens e histórias. Adriana Meirelles conduz uma oficina de animação em stop motion para participantes de 6 a 14 anos, usando elementos orgânicos.
Entre os filmes selecionados está “Papaya”, animação de Priscilla Kellen que transforma uma semente de mamão em protagonista de uma história sobre raízes, desejo de liberdade e pertencimento. Sem diálogos, a produção brasileira passou pela mostra Generation Kplus do Festival de Berlim.
Há histórias em que a infância aparece profundamente ligada ao território e à ancestralidade, como em “Mbya Mirim”, que acompanha duas crianças Guarani, e “A Mensagem de Jequi”, protagonizado por uma criança quilombola que encontra na sabedoria ancestral uma maneira de alertar outras crianças sobre as ameaças ao seu território.
“Masaka Kids” e “Cem Crianças Esperando um Trem” mostram como a arte pode abrir caminhos de expressão, pertencimento e descoberta: na Uganda, órfãos encontram na dança uma forma de elaborar suas experiências e, no Chile, crianças de uma comunidade periférica descobrem o cinema em uma oficina que transforma sua relação com o mundo.
As relações e os vínculos que ajudam a formar uma criança também se destacam na seleção, com diferentes formas de pensar quem cuida, quem educa e quem se torna referência ao longo da infância. “Meu Verão com Glória” parte da relação entre Cleo, de 6 anos, e Glória, a babá que a criou desde o nascimento, para falar de afeto, separação e pertencimento.
Já “A Sombra do Meu Pai” acompanha um pai afastado dos dois filhos pequenos que tenta voltar para casa em meio à turbulência política. Em “Forevergreen”, a relação de cuidado ganha uma dimensão de fábula: um filhote de urso órfão encontra abrigo em uma árvore que assume uma espécie de papel paterno.
“A Criança Silenciosa” e “O Eco Silencioso” aproximam a infância e a juventude pela ideia de comunicação e escuta. No primeiro, uma menina surda aprende a se comunicar por meio da língua de sinais e, no segundo, quatro adolescentes transformam um ônibus abandonado em espaço de ensaio e encontram na música uma experiência de liberdade, amizade e descoberta.
As brincadeiras não podiam ficar se fora. “Sombra da Mangueira”, uma ficção baseada em personagens reais, reúne oito crianças que brincam em seus quintais. (Com informações de divulgação)
Serviço
Data: 19 e 20 de setembro de 2026 (sábado e domingo)
Horário: sessões das 15h às 21h
Local: Centro Cultural Casarão
Endereço: Rua Aracy de Almeida Câmara, 291, Barão Geraldo, Campinas-SP
Oficina de animação: sábado das 10h às 12h ou domingo das 10h às 12h, com inscrições pelo link
Mais informações: pelo perfil do Casarão no Instagram
OS FILMES
Papaya
Priscilla Kellen, Brasil, 2025, animação, 74 min, livre
Uma pequena semente de mamão sonha em voar e tenta escapar do lugar onde está enraizada. Ao longo da jornada, porém, descobre a força de suas próprias raízes, capazes de conectar vidas e transformar o ambiente ao redor. Sem diálogos, a animação constrói uma história sobre liberdade, pertencimento e descoberta.
Mbya Mirim
Patrícia Ferreira Pará Yxapy e Ariel Ortega Kuaray Poty, Brasil, 2013, documentário, 22 min, livre
Palermo e Neneco, duas crianças Mbya Guarani do Rio Grande do Sul, revelam por meio de suas brincadeiras aspectos do drama vivido por seu povo. A infância se torna, assim, uma forma de olhar para a identidade, o território e as experiências de uma comunidade.
A Mensagem de Jequi
Igor Amin, Brasil, 2025, documentário, 73 min, livre
Jequi é uma criança quilombola do Vale do Jequitinhonha que percebe as ameaças trazidas pela exploração dos recursos naturais de sua região, especialmente das águas do rio onde brinca. Com base em sua sabedoria ancestral, ela cria uma maneira de levar esse alerta a outras crianças: uma mensagem dentro de uma garrafa.
Masaka Kids
Moses Bwayo e David Vieira Lopez, Uganda, 2025, documentário, 39 min, livre
Em um pequeno orfanato na região de Masaka, Uganda, crianças órfãs transformam dificuldades em alegria por meio da dança. O filme acompanha os bastidores dos vídeos do grupo Masaka Kids e revela como a expressão artística pode criar vínculos, aliviar angústias e produzir um sentimento de pertencimento.
Cem Crianças Esperando um Trem
Ignacio Agüero, Chile, 1988, documentário, 55 min, livre
Em uma comunidade periférica de Santiago, a professora Alicia Vega realiza uma oficina de cinema durante 20 sábados. Crianças que nunca haviam ido ao cinema descobrem os princípios da linguagem cinematográfica e constroem dispositivos como o zootrópio e o taumatrópio, em uma experiência coletiva de descoberta e imaginação.
Meu Verão com Glória
Marie Amachoukeli-Barsacq, França, 2023, ficção, 83 min, 12 anos
Cleo, de seis anos, é profundamente ligada a Glória, a babá que a cria desde o nascimento. Depois de uma perda familiar, Glória precisa retornar a Cabo Verde, onde está sua família. A menina então viaja para passar um último verão com ela, em uma história sobre vínculos afetivos, separação e as diferentes formas de família e cuidado.
A Sombra do Meu Pai
Akinola Davies Jr., Reino Unido e Nigéria, 2025, ficção, 94 min, 12 anos
Ambientado em Lagos durante a crise eleitoral de 1993, o filme acompanha, ao longo de um único dia, um pai afastado dos dois filhos pequenos. Enquanto atravessa a metrópole nigeriana em meio à instabilidade política, ele tenta encontrar um caminho de volta para casa e para os filhos.
Forevergreen
Nathan Engelhardt e Jeremy Spears, Estados Unidos, 2025, animação, 13 min, livre
Um filhote de urso órfão encontra abrigo em uma árvore que assume uma presença paternal e o acompanha durante seu crescimento. Quando o filhote se deixa seduzir pela facilidade de encontrar comida entre os resíduos deixados por humanos, a relação entre os dois é colocada à prova. A animação combina uma fábula sobre cuidado e vínculo com uma reflexão sobre a relação entre natureza e ação humana.
A Criança Silenciosa
Chris Overton, Reino Unido, 2017, ficção, 20 min, livre
Libby é uma menina surda que vive em um mundo de silêncio até conhecer uma assistente social que lhe ensina a língua de sinais. A partir dessa relação, a menina encontra uma nova possibilidade de comunicação, em uma história sobre escuta, inclusão e o direito de encontrar sua própria forma de se expressar.
O Eco Silencioso
Suman Sen, Índia, Bangladesh, Nepal e França, 2021, ficção, 16 min
Em uma região remota de Mustang, quatro adolescentes transformam um ônibus abandonado em uma sala secreta de ensaios para se preparar para uma competição de bandas. Entre música, amizade e o desejo de liberdade, a experiência se transforma também em um primeiro encontro com a perda e com as mudanças que acompanham o crescimento.
Sombra da Mangueira
Cristina Maure, Brasil, 2022, animação, 15 min, livre
Série de animação que apresenta brincadeiras entre oito crianças em quintais. Baseada em uma pesquisa sobre construção de brinquedos no Brasil.
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