
Imagina uma fábrica ou empresa hipotética em que, em determinado momento, perto de 100% dos trabalhadores tenham consciência de classe. Essa situação, com certeza, poderia trazer ganhos para os trabalhadores, mas esses trabalhadores nunca deixarão de ser empregados da empresa. E esses ganhos serão diluídos com o tempo porque os trabalhadores nunca deixarão de estar sujeitos à inflação, à desmobilização, à cooptação e à demissão. Além disso, estão sujeitos às transformações da própria vida, por questões pessoais, e à própria transformação da sociedade capitalista
Essa situação hipotética nos serve para entender que o conceito de consciência de classe não é puro ou acabado, ele esbarra em uma realidade dinâmica e inconstante. A ideia de consciência de classe tem limites e amarras aparentemente insuperáveis na relação capital-trabalho, dentro da lógica capitalista. Ou seja, está presa a um modo de produção que teoricamente só poderia ser superado pela política em um processo revolucionário e não pela própria economia, visto que as condições dadas pelo capitalismo inserem a consciência de classe dentro de uma estrutura fixa e específica, que é a condição inexorável de venda da força de trabalho.
Para superar a condição de vendedores da força de trabalho, os trabalhadores só tem uma alternativa dentro da economia (da infraestrutura) que é a construção de uma produção cooperativa. Um produção cooperativa que esbarra no preconceito de que seria uma realização utópica, mas ela já existe concretamente na sociedade brasileira do século 21. E é nessa produção cooperativa que se engendra uma Consciência de Classe Estrutural que, ainda que possível, é resultado de uma árdua batalha cotidiana e permanente. Afinal, a utopia é o caminhar rumo a um horizonte vislumbrado e não um subterfúgio para a covardia.
Para exemplificar algumas dessas dificuldades no engendramento de uma Consciência de Classe Estrutural, vamos dialogar com a pesquisa de Susana Bleil, publicada no livro ‘MST: a construção do comum’ (Ed. Contracorrente, 2024). Susana Bleil fez um estudo intenso e participativo durante o período de formação da Cooperativa de Produção Agropecuária Vitória (COPAVI), que é uma cooperativa agroecológica de produção coletiva ligada ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), fundada em 10 de julho de 1993 no Assentamento Santa Maria, em Paranacity, no noroeste do Paraná. Ou seja, por meio de observação e entrevistas, a autora acompanha os conflitos e dificuldades na estruturação do trabalho cooperativo.
A Cooperativa de Produção Agropecuária Vitória Ltda (Copavi) reúne 96 cooperados e cooperadas e é responsável pela organização da produção e agroindustrialização da cana de açúcar, leite, produtos de panificação e hortifritis. Em 2025, a Copavi fez uma captação do crédito produtivo com objetivo investir na industrialização de leite orgânico, produção de queijos finos e iogurte com polpa de frutas.
A pesquisa de Bleil nos mostra como a Consciência de Classe Estrutural não é algo fácil de se construir. Os desafios são enormes. Entendemos que a própria situação de excluídos socialmente e a falta de alternativa de sobrevivência dos Sem Terra foram condições impulsionadoras para superar as dificuldades e engendrar uma nova situação econômica para esse grupo. Mas mesmo essa situação de extrema pobreza e exclusão não bastam para a construção de uma nova consciência de classe. Um outro fator decisivo foi estarem organizados de forma dialética ao conhecimento de uma organização maior, que é o próprio Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Esse é um processo que vamos tentar entender entrando no cotidiano da formação do trabalho cooperativo, quando os trabalhadores “criam e recriam formas de viver em associação” (BLEIL,22), tentando superar os inúmeros conflitos da convivência na produção cooperativa. Para Susana Bleil, esses trabalhadores criam um “tipo de mundo comum”.
A construção da Consciência de Classe Estrutural começa com uma superação de conflitos entre os próprios trabalhadores. E essa superação se dá na formação de uma identidade fundamental para a constituição de uma nova consciência de classe. Se dentro de uma família nuclear ou em uma empresa capitalistas, as decisões sobre trabalho, comida, sentimentos, dinheiro, comportamento e outros são difíceis, imagina essas decisões em um grupo com várias famílias provenientes de uma sociedade de cultura individualista tentando construir uma proposta cooperativa.
Nesse processo, existe uma tensão constante entre os interesses individuais, as personalidades individuais e o bem comum dos associados. Essas dificuldades fizeram com que algumas famílias abandonassem a cooperativa por não conseguirem se adaptar, principalmente no início quando famílias chegam com um histórico de vida oposto ao associativismo. Após sete anos do início da cooperativa, muitas famílias pioneiras abandonaram a Copavi, preferindo morar em assentamentos com lotes individuais.
O processo de trabalho e convivência das famílias foi um processo de superação de situações adversas múltiplas. A primeira foi logo no início ao perceberem que a terra do assentamento estava improdutiva. Eles perceberam a realidade difícil da terra sonhada. “O sentimento geral foi de decepção, e para alguns, de desespero. Compreenderam com amargura que a terra era ‘pura areia’; o clima também era diferente, muito mais quente (…) no primeiro ano foi impossível cultivar a terra” (BLEIL, 49)
Além da própria sobrevivência da produção inicial, surgiram as questões como a divisão do trabalho para que tudo funcione bem, seja trabalho na roça, no refeitório, na logística, no trato dos animais, no cuidado das crianças etc. Às vezes, os conflitos são criados pelo própria convivência do ser humano. Nesse processo, todos os conflitos precisam ser administrados, dos mais difíceis aos mais simples. Por exemplo, a partilha e consumo dos produtos pelas famílias eram registrados e anotados até entenderem que isso gerava intriga entre os sócios, prejudicando o associativismo. “Tomamos consciência que, para viver juntos e fazer frutificar o projeto coletivo, era necessário abolir essa regra. Exigir que o consumo fosse igual para todos gerava desconfiança. Ou seja, essa regra impedia o coletivo de confiar na capacidade de cada um agir pelo bem comum”(BLEIL, 107).
Após essa simples medida, resultado de discussão e aprendizado, o ambiente de confiança foi se instalando com o tempo, acabando as intrigas e os mexericos. Esse processo demonstra que detalhes aparentemente irrelevantes na luta política dos trabalhadores podem se transformar em detonares de histórias de fracasso e que a superação de pequenos conflitos redefinem o futuro de uma produção associativa. Não são somente as decisões sobre investimento, prioridades econômicas e processos produtivos que podem inviabilizar um trabalho cooperativo.
O processo de produção cooperativa, a convivência, o aprendizado etc exigiu uma transformação psicossocial nos integrantes e foi necessário tempo e maturação para conseguirem desenvolver certas capacidades diante dos conflitos e problemas que emergem do processo.
Um dos aspectos mais interessantes é que um psicólogo voluntário trabalhou, durante anos, ajudando as famílias a superar situações de conflito. O trabalho foi feito por Pertti Simula, psicólogo finlandês e mestre de Ciências pela Universidade de Helsinki, autor de “Transformação das relações humanas e cooperação” (expressão popular, 2017).
A intervenção de Simula foi fundamental na resolução dos conflitos internos e no processo de maturidade dos sócios da cooperativa. E também nos conflitos no interior das próprias famílias, entre os casais de assentados. “Na cooperativa, muitos conflitos surgiam quando um dos membros sentia que seu esposo (ou esposa) dava mais tempo à luta do movimento do que à sua família, fenômeno mais visível entre as mulheres”. (BLEIL, 105)
É provável que inúmeros fracassos de experiências de produção cooperativa nos últimos 100 anos têm tido algum tipo de relação com a questão psicossocial. Esse ponto é crucial no aprendizado da produção cooperativa e não pode ser negligenciado pela economia ou sociologia. Diferente da produção capitalista, em que o conflito é resolvido por uma decisão hierárquica estabelecida pelo poder da detenção dos meios de produção, na produção cooperativa os conflitos de inter-relação eclodem devido a horizontalidade do processo. A infraestrutura sozinha, entendidas aqui como questões administrativas, gerenciais, de produção e econômicas, não é capaz de determinar a consolidação do cooperativismo. É crucial entender o processo dialéticos com as questões superestruturais, como a cultura e a histórica de cada indivíduo, suas crenças e perfil psicológico.
A base desse aprendizado da produção cooperativa é por meio das reuniões. Como não há processo hierárquico de tomada de decisão como numa empresa capitalista, a demanda de tomada de decisões para os cooperados é grande, principalmente nos anos iniciais de construção da cooperativa. É nesse processo que se dá a formação da identidade do cooperado que se constitui como o substrato de uma Consciência de Classe Estrutural. Um dos primeiros aprendizados é a capacidade de “entender o outro”, mas não só. É preciso também “construir o outro” em um processo dialético de aprendizado que se dá nas reuniões da cooperativa. “Aqueles que não haviam falado [na reunião] foram convidados a dar sua opinião sobre os temas abordados. Pude sentir que o fato de poder falar não é apenas um direito, mas também um dever” (BLEIL, 79). E é nesse aprendizado que vai se construindo uma identidade.
“Aqueles que não têm a experiência do político não conseguiriam compreender o que significa, para um Sem Terra, falar em público. Eles imaginam que o orador teria intenções ocultas, e que, ao tomar a palavra, seu verdadeiro objetivo seria ofender os outros. Por isso, tais indivíduos não teriam desenvolvido ainda a capacidade de tomar a palavra durante as discussões. São pessoas geralmente fechadas à crítica, com dificuldades de aceitar ideias contrárias às suas. Por outro lado, um militante exemplar, que tem ‘o coletivo no sangue’ seria aquele que consegue compreender o papel das trocas verbais, e não tem medo quando é levado a discordar do ponto de vista de seu vizinho” (BLEIL, 77)
É preciso entender que as reuniões de tomada de decisão é algo totalmente novo. Muitas pessoas e famílias estavam ali para trabalhar e sobreviver trazendo uma cultura de vendedores da força de trabalho ou de produção individual na agricultura familiar. No caso do trabalhador, simplesmente acordavam cedo, iam para a empresa, e ao final do dia voltavam pra casa, sem a necessidade de se envolver sobre questões administrativas do seu local de trabalho. No caso do camponês, ele decidia tudo, onde, o que, e quando plantar, de forma totalmente individualizada, não precisava falar com ninguém. Agora era a situação era completamente diferente.
Era preciso não só participar, mas se posicionar e decidir, o que já é trabalhoso e transformador, mas principalmente ouvir o contraditório, a crítica, a negação e aceitar ser derrotado na proposta que apoia. Esse é um processo de aprendizagem do indivíduo que precisa entender a separação entre o público e o privado, entre o político-administrativo das reuniões e o social e a sociabilidade do coletivo. “Toda crítica feita pessoalmente, fora do espaço de reunião, ou seja, não sendo política, pode destruir a vida no coletivo. A crítica deve existir, mas somente no espaço em que ela é feita de forma objetiva e coerente, evitando a acusação frontal, pessoal” (BLEIL, 113)
Se não há hierarquia oficial nesse processo, onde um determina e os outros se submetem, e se todos falam sobre decisões importantes, sobre dinheiro, investimento, projetos, o conflito necessariamente emerge. Dentro de grupos que convivem, a mágoa, o rancor, a ofensa etc podem ser alimentados se não houver um aprendizado do significado dessa experiência. Isso pode destruir a construção cooperativa, tende a levar a um processo de desintegração. A superação dessas tensões e no fundo o substrato da formação da Consciência de Classe Estrutural.
Alguns trabalhadores da Copavi revelaram que a formação política, que é intrínseca ao processo cooperativo, “é eficaz quando é possível verificar uma mudança na consciência a partir de uma ruptura na forma de agir do indivíduo. Entre os militantes Sem Terra, essa nova consciência é uma consciência de classe” (BLEIL, 80) Os militantes experimentaram isso e podem dizer com propriedade sobre essa nova consciência. Uma nova consciência que procuramos entender aqui e em outros textos como uma Consciência de Classe Estrutural, forjada e engendrada num processo árduo e necessário.
Se no início deste texto, imaginamos uma empresa capitalista hipotética com 100% dos funcionários com consciência de classe, na consolidação da produção cooperativa isso acontece de fato, de uma forma estrutural. Acontece porque o trabalhador não se submete a um sistema que o objetiva no trabalho isentando-o de qualquer tomada de decisão e exigindo apenas a força de trabalho. E acontece porque é exigido do trabalho um desenvolvimento intersubjetivo com autonomia partilhada numa transformação inerente ao processo cooperativo e participativo. O trabalhador é instado a participar de decisões e, com isso, a se construir como sujeito num processo coletivo.
No processo longo, os indivíduos que não concordam, não aceitam ou não se adaptam, acabam desistindo diante do enfrentamento das dificuldades, restando um grupo que foi constituído em um longo processo de transformação de consciência, que podemos definir como o processo de engendramento da Consciência de Classe Estrutural. Esse processo da produção cooperativa possibilita chegar a algo próximo de 100% de consciência de classe entre os trabalhadores. O árduo processo de construção do trabalho cooperativo foi determinante para a formação de uma nova consciência, um processo dialético e conflituoso com a superestrutura herdade de um sistema capitalista, mas que ao final estrutura novas formas do viver.
Glauco Cortez é Dr. em Ciências Sociais pela Unicamp e Mestre em Ciências da Comunicação pela USP
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