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Pesquisa da Unicamp revela como a epidemia da desinformação antivacina se prolifera no Telegram

Um grupo multidisciplinar reunido pelo Laboratório de Inteligência Artificial Recod.ai, da Unicamp, mergulhou nas redes sociais e agrupou quatro milhões de postagens para traçar os caminhos da desinformação antivacina que circula pelo aplicativo de mensagens Telegram no Brasil. Com base nesses materiais, os pesquisadores criaram um banco de informações totalmente aberto, para uso sem finalidades comerciais, que está disponível no Repositório de Dados da Universidade.

Este conjunto contém publicações do Telegram coletadas em 119 canais antivacina brasileiros de destaque entre 2020, nas primeiras semanas após a Covid-19 chegar ao país, e no período pós-pandemia, até junho de 2025. O conteúdo inclui mensagens, metadados, mídias associadas, como vídeos e imagens, e classificação relacionadas a publicações sobre vacinas, permitindo que pesquisadores examinem como informações falsas ou enganosas se espalham, evoluem e influenciam o sentimento público.

“Analisamos as reais motivações das pessoas que consomem informação negacionista na área de saúde, principalmente no que diz respeito à questão vacinal, e quais são as estratégias eficientes para propagação dessa desinformação”, explica a doutoranda Michelle Diniz Lopes, integrante da equipe de pesquisa, graduada em Matemática e especialista em Estatística e Neurociências. “Identificamos diversos nichos: o da desconfiança institucional, crenças injustificadas, visão de mundo e política, preocupações religiosas e fobias”, conta.

Efeitos da infodemia

Entre as fakes news espalhadas na rede, os pesquisadores identificaram postagens negacionistas em relação à ciência, sobre efeitos colaterais graves que seriam causados pela imunização – inclusive genéticos – e informações distorcidas sobre estudos científicos e médicos. A desinformação também envolveu declarações de autoridades e sobre políticas públicas, e levantaram desconfiança ao divulgar teorias da conspiração e métodos alternativos não reconhecidos cientificamente.

A presença maciça dessas narrativas indica que a “infodemia” – termo usado para o excesso de informações, incluindo notícias falsas ou imprecisas, que se espalham rapidamente – passou a ter efeitos concretos na população, com um declínio significativo na cobertura vacinal nacional. Em 2020, o Programa Nacional de Imunizações (PNI), criado em 1973, alcançou o menor percentual de cobertura vacinal da sua história (75%), de acordo com o Instituto Butantan.

Compartilhar sem checar

A pós-doutoranda Christiane Versuti, formada em Ciências Sociais e Comunicação, colaborou como pesquisadora no projeto. Ela entrou como uma usuária comum em diversos grupos do Telegram. Nesse ambiente, percebeu que o ressentimento e a busca por pertencimento movem quem acompanha cada postagem. “A falta de letramento midiático torna tudo ainda mais hostil. As pessoas não têm o hábito de checar as fontes ou só compartilhar algo quando têm certeza do conteúdo”, diz a pesquisadora.

Para Versuti, o ambiente digital fica ainda mais turbulento quando a questão da religião aparece. “É a lógica do racional contra o emocional. Tem gente que só aceita a ciência quando a informação bate com suas crenças. O mesmo acontece em relação à imprensa: os jornalistas só são considerados sérios quando falam o que a pessoa defende”, afirma.

Estratégias de engajamento

De acordo com Leopoldo Lusquino Filho, colaborador do Recod.ai e docente da Unesp, a comunicação que ganha força e se propaga é semelhante aos mecanismos de seleção natural na natureza. “Se algum tipo de narrativa não está gerando engajamento, naturalmente as pessoas vão parar de reproduzi-la”, explica.

Entre os canais analisados, há aqueles que só disseminam desinformação, outros que a compartilham, e os que fazem as duas coisas. “Existe uma estratégia por trás disso. Eventos externos, como a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, geram um efeito dominó nessas redes. É possível perceber também que há muitas mensagens compartilhadas por robôs”, diz o pesquisador.

Ainda de acordo com Lusquino Filho, o fato de 2026 ser um ano eleitoral no Brasil tende a intensificar a circulação de conteúdos falsos ou enganosos. Isso porque as áreas de saúde e política acabam integrando disputas ideológicas que ficam mais acirradas nesse período. “Tivemos contato com outras agências de verificação de informações e elas confirmaram que nunca houve uma quantidade tão grande de desinformação política quanto neste ano”, aponta.

Próximos passos

Na tentativa de contribuir para reverter esse quadro, o Recod.ai espera que o novo banco de dados ajude as comunidades científica e de saúde a desenvolverem estratégias baseadas em evidências para combater a desinformação e a hesitação vacinal. “O entendimento dos padrões é essencial para reconstruir o diálogo e a confiança com pessoas afetadas por narrativas falsas”, reforça o material de divulgação do trabalho científico.

O pesquisador Lusquino Filho destaca que outros projetos de pesquisa já coletaram amplas bases de dados amplas, mas que esse material costuma ser vendido por valores altos. “No nosso caso, qualquer outro grupo acadêmico pode pegar as análises que a gente fez. Já disponibilizamos a base de dados do Telegram e, agora, estamos trabalhando com o Instagram, YouTube e X. Vamos disponibilizar isso ainda este ano, também de forma totalmente aberta e gratuita”, adianta.

Neste mês, representantes do Recod.ai também vão se reunir com representantes do Ministério da Saúde para oferecer a ferramenta como fonte de informação para o desenvolvimento de futuras políticas públicas no país. (Com informações de Fábio Gallacci em colaboração com Juliana Vicentini, da Recod.ai/Jornal da Unicamp)

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