Filmes de Tamar Guimarães constroem pequenas crônicas da sociedade brasileira questionando narrativas estabelecidas

Em São Paulo – Ficam em exibição até o dia 19 de junho no MASP- Museu de Arte de São Paulo, os filmes de Tamar Guimarães (Belo Horizonte, Minas Gerais, 1967) que mesclam diferentes tipos de narrativas, como o documentário, o ensaio e a ficção. Em diversos trabalhos, a artista aborda momentos cruciais da história do Brasil, construindo pequenas crônicas da sociedade brasileira que nos instigam a questionar certas narrativas mais estabelecidas. Esse é o caso de Canoas (2010) e O ensaio (2018), expostos na Sala de Vídeo.

O ensaio (2018), Tamar Guimarães

Canoas (2010) encena um coquetel na Casa das Canoas, obra emblemática de Oscar Niemeyer (1907-2012) no Rio de Janeiro, concebida como a casa do arquiteto. A escolha desse ícone do modernismo brasileiro é cenário de um cruzamento de distintos tempos, sugeridos pelos diálogos. Fragmentos de conversas revelam interações entre os convidados, interpretados por atores e não atores, incluindo figuras conhecidas da cena artística nacional. No desenrolar do filme, pode-se perceber a distância social entre convidados e empregados domésticos, algo típico da sociedade brasileira, o que também se reflete na arquitetura da casa, um modernismo que admite segregação entre os espaços sociais e de serviço.

Em outra projeção, O ensaio (2018) apresenta uma diretora de teatro que prepara uma montagem de Memórias póstumas de Brás Cubas, um clássico da literatura brasileira de autoria de Machado de Assis (1839-1908), publicado em 1881, sete anos antes da abolição da escravatura. Novamente, alguns dos cenários são ícones da arquitetura modernista: o Pavilhão da Bienal de São Paulo, obra de Niemeyer, e o auditório do MASP, de Lina Bo Bardi (1914-1992). Alguns intérpretes de Canoas reaparecem em O ensaio: a atriz Isabél Zuaa, que era uma empregada doméstica em Canoas, agora é a diretora de teatro, uma mulher negra que enfrenta dificuldades institucionais que são reflexo das relações desiguais de raça e de gênero no Brasil, ecoando o texto machadiano. Nesse sentido, em uma entrevista, Tamar Guimarães cita uma fala de Machado de Assis, ele mesmo um autor negro, que foi marcante para a escolha do livro: “Haverá aqui a abolição da escravatura, mas a estrutura básica da sociedade não mudará”.

Sala de Vídeo: Tamar Guimarães é curada por Laura Cosendey, curadora assistente, MASP

Ao longo de 2021 e de 2022, a programação da Sala de Vídeo integra o ciclo das Histórias brasileiras no MASP e, em 2022, inclui trabalhos de Letícia Parente, Tamar Guimarães, Melanie Smith, Bárbara Wagner & Benjamin de Burca e Aline Motta.

Mais informações e ingressos no SITE do MASP.

(Carta Campinas com informações de divulgação)

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