Se a mídia corporativa está morrendo, quem vai produzir conteúdo jornalístico?

(imagem pbl)

As entidades de classe, organizações sociais, movimentos sociais e sindicatos de qualquer categoria têm uma grande janela aberta de oportunidade para garantir mais um século de democracia, talvez uma democracia melhor, e permitir boas condições de vida para os trabalhadores e a população em geral.

Mais que isso, para os sindicatos é importante reagir diante da crise de representatividade.

Essa janela de oportunidade está aberta com a crise da mídia corporativa (indústria da comunicação) que durante mais de um século, quando foi denominada de 4º poder, sustentou de certa forma alguns pilares da democracia representativa.

Mas o momento atual é de insegurança para essa chamada grande mídia, assim como para as democracias ocidentais. A mídia corporativa míngua ano a ano com as transformações tecnológicas da sociedade e isso não acontece só no Brasil. Veja algumas informações publicadas recentemente:

Emissoras com foco em esportes como ESPN norte-americana estão pedindo a jornalistas que abram mão de parte da remuneração. A rádio Bandeirantes, de São Paulo, suspendeu o contrato de seus comentaristas.

A Abril, que já foi um dos maiores grupos de mídia do país antes de mergulhar em crise profunda, projeta que a pandemia irá dificultar a saída do atoleiro.

As empresas de comunicação sediadas em São Paulo (as maiores do país, aí incluídos jornais como Folha, Estadão, Valor Econômico e as editoras Globo, Condé Nast e Caras) podem cortar os salários dos jornalistas em até 70%. 

“A crise das empresas de mídia não é uma novidade que chegou com a pandemia. Ela começou há quase duas décadas, após o estouro da bolha da internet, e se aprofundou à medida que Facebook e Google ganharam força”, relembra Rafael Moro Martins no texto do Brasil de Fato.

Não se deve lamentar a crise da mídia corporativa, que tantas vezes esteve ao lado de regimes violentos e autoritários. Mas alguém, com certeza, vai ocupar esse espaço deixado por ela. Ou seja, com a grande mídia enfraquecida, quem vai investigar e produzir conteúdos exclusivos na sociedade, fazer a medição social do jornalismo?

O que fica claro é que se está diante de uma grande janela histórica para entidades sociais se desvencilharem das correntes das ‘assessorias de imprensa’ e estabelecerem um novo patamar de comunicação: produtores de conteúdos da sociedade.

Essa é uma discussão dolorosa para quem viveu décadas amarrado ao jornalismo de ‘assessoria de imprensa’, que é importante, mas já não basta. Existem algumas iniciativas, importantíssimas, mas estão concentradas. São projetos que surgiram dentro da lógica da indústria midiática, por exemplo, o Brasil de Fato e a Rede Brasil Atual. E movimentos já dentro da lógica da web, como a Agência Pública, Mídia Ninja e outros.

Essas iniciativas são fundamentais, mas impedem a interiorização da produção de conteúdo, que muitas vezes fica restrito aos temas nacionais. É preciso interiorizar de forma interdependente a produção de conteúdo jornalístico. Estabelecer rigorosamente uma lógica de medicação social e produção jornalística.

A imprensa corporativa democratizou as vozes muito concentradas da sociedade do século 19. Mas e o século 21?

Parece que estamos diante de um impasse: multiplicação de vozes ou concentrações de vozes nas grandes corporações da informática como Google e Facebook.

Carta Campinas

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