‘Medea Mina Jeje’ une o mito grego de Medeia e a escravidão no Brasil

Em São Paulo – Até o dia 18 de fevereiro, poderá ser visto no Sesc Ipiranga o espetáculo “Medea Mina Jeje”, dentro do projeto Teatro Mínimo. A peça, com dramaturgia de Rudinei Borges e direção de Juliana Monteiro, é um solo do ator Kenan Bernardes que remonta o clássico grego de Medeia, trazendo a perspectiva do genocídio de escravos nas Minas Gerais do século XVIII. A Medea negra da Mina Jeje é escrava e mãe, e ao saber que seu filho Age seria perseguido, mutilado e novamente aprisionado à boca de uma mina, decide por sacrificá-lo, numa tentativa de libertá-lo da própria sina.

O espetáculo é um poema-cênico constituído a partir da fricção entre a narrativa polissêmica da personagem Medea, escravizada na Vila Rica de Nossa Senhora de Pilar de Ouro Preto, nas Minas Gerais do Brasil século XVIII, e a leitura da tragédia de Eurípides, datada de 431 a.C..

Na tragédia grega, a Medeia de Eurípedes mata os próprios filhos em vingança pelo abandono de Jasão, por quem ela havia abandonado sua terra natal e sua família. Em Medea Mina Jeje, a escrava Medea, decide por tirar a vida de Age, seu filho, para assim livrá-lo do trabalho penoso e aterrador das minas de ouro que moveram a economia do Brasil durante séculos. O suplício materno que se desvela na peça configura uma espécie de canto, uma oração que narra, em vozeio, o sacrifício do menino.

A similaridade que permeia a obra de Eurípedes e de Rudinei Borges, segundo Trajano Vieira – Doutor em Literatura Grega pela Universidade de São Paulo e professor de Língua e Literatura Grega na Unicamp -, está na forma como a protagonista não se coloca como joguete de uma força que escapa ao seu controle e que conduz seus atos, mas em vislumbrar no próprio movimento da construção de seu intelecto e motivação emocional que se lhe entrelaça e provoca sua dor mais intensa.

A diretora Juliana Monteiro explica a influência da relação entre as obras e como ela reverberou em todos envolvidos no projeto: “A aproximação com determinados aspectos da jornada de Medeia, a jornada de uma figura que deixa sua terra, encontra-se em terra estrangeira para, depois, iniciar um caminho de regresso e afirmação de seus saberes, de sua natureza e da ambivalência que lhe é intrínseca: seu potencial de criação, de destruição e de renovação; permitiu aos artistas envolvidos com este projeto traçar uma analogia com sua própria trajetória, os valores que os formaram, os desvios realizados e o encontro com desejos de reelaborar os próprios caminhos no teatro”.

A extração de minérios fez de Minas Gerais um dos estados com maior concentração de negros no século XVIII. O ciclo do ouro motivou a migração de um grande número de pessoas para o trabalho nas minas, estimulou a criação da Estrada Real (que ligava Minas Gerais ao Rio de Janeiro) pelo governo e intensificou o tráfico de escravos.

As condições de trabalho nessa função eram precárias e provocaram a mortandade de incontáveis vidas escravas naquele período.

“Medea Mina Jeje busca, portanto, mover para a candura da cantiga do luto maternal o ardor profundo, como um mar revoltado, da resistência das negras e negros que, em muitos casos, resultaram na criação de quilombos que, mesmo distantes da África-mãe, compunham paragens de libertação e inauguração de uma vida comunal, às avessas da opressão dos arraiais, engenhos, plantações, casas grandes e minas do Brasil afora. E, ao mesmo tempo, adentra as mazelas e contradições do Brasil contemporâneo imerso numa disparada de dissimulação e enlace conservador” – relaciona o dramaturgo Rudinei Borges.

A programação do Teatro Mínimo consiste em uma série de espetáculos intimistas, preferencialmente monólogos, baseados essencialmente no trabalho de interpretação do ator, trazendo textos de autores consagrados e de novos dramaturgos, que tenham como foco o trabalho de expressividade do intérprete. (Carta Campinas com informações de divulgação)

Ficha técnica:
Dramaturgia: Rudinei Borges
Direção: Juliana Monteiro
Atuação: Kenan Bernardes

Medea Mina Jeje
Quando: de 26/01 a 18/02, sextas às 21h30, sábados às 1930 e domingos às 18h30
Local: Auditório (30 lugares)
Preço: R$6,00 / R$10 / R$20,00 (credencial plena)
Sesc Ipiranga – Rua Bom Pastor, 822

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