Minha adorável terapeuta I.

Por Cida Sepúlveda

Desde muito jovem eu precisei de uma terapeuta. Eu sofria muito nas relações afetivas, sentia amor e raiva por aquelas pessoas que eram essenciais à minha sobrevivência, pais e irmãos, principalmente. Mas, não pude ter uma. Eu era muito pobre.

 A prática de uma religião me ajudou muito na busca de alívio espiritual, mas quando vi que a igreja que pregava a purificação da alma também abrigava a hipocrisia, a mentira, o preconceito, me afastei. Aí eu já andava pelos meus catorze anos.

 Herdo do meu passado o lirismo, o amor à natureza e ao silêncio, o prazer de contemplar o mundo em suas belezas e feiuras, o valor do espiritual. Herdo também feridas provocadas na luta, por vezes insana, pela sobrevivência individual e social.

 Pequenina eu chorava com muita facilidade. Minha mãe me chamava de manteiga derretida. O passar dos anos e a maturidade não modificaram essa característica da minha personalidade.  

 Amigos me diziam: não deve chorar diante do inimigo, é demonstração de fraqueza. Inimigos se aproveitaram para jogar na minha cara: frescura, fingimento, doença.

 Como isso me incomodava. Eu queria ser normal, sufocar o choro, ser dura na queda. Muitas vezes fugi de lugares porque não aguentava encarar o estigma “ela é fraca”.

 Justificava meu caso pensando em meu pai que também é um chorão, se emociona com muita facilidade. Sempre o vi chorar, aos 40, aos 50, 60 e agora, 93 anos.

 Chorão, mas inteligente, trabalhador, carismático. Eu sou meu pai, penso às vezes. É ele em mim, o que fazer? Amá-lo, oras. É isso que minha terapeuta tem me ensinado, com muita perseverança, porque eu sou teimosa, quando encasqueto, não me dobro fácil.

 Minha adorável I. tem me ensinado a me aceitar como sou. Diversas vezes me disse: você tem um olhar de artista! Não é um olhar comum que não se detém no outro, você busca conhecer o outro, criar afetividade. E, isso é maravilhoso, mas também pode gerar conflitos. Frequentemente, as pessoas não estão abertas à afetividade de fato.

 É, nós estamos anos-luz de distância do amor entre pessoas. Talvez por isso eu seja apaixonada pelo que faço: trabalhar com jovens. Eles são sentimentais, verdadeiros. Eles choram.

 Minha doce I, eu sou menina ainda. Que você abraça e encanta. Encantada, redescubro no meu baú de bugigangas, a força para saltar obstáculos e alçar voo em direção ao que interessa: a juventude da alma.

Cida Sepulveda

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