O Plácido

Plácido era um bom rapaz, do interior, calmo e tranquilo. Não poderia haver um nome melhor que Plácido pro Plácido.

Um dia, as coisas dessa vida que a gente não explica, levaram aquele rapaz tranquilo a buscar novos horizontes pra sua limitada existência e o Plácido se foi pra capital. Trocou o cheiro do mato verde pelo do CO2, o cheiro das flores pelo do lixo, o cheiro da comida da mãe, feita no fogão a lenha, pelo cheiro plástico dos fast foods, o cheiro do ribeirão, que doía na lembrança, pelo esgoto a céu aberto. Trocou o céu aberto pelo esfumaçado, a brisa do campo pela inversão térmica, o sabiá pelo buzinaço, o ronco do rio nas pedras pelo dos motores, o grito das maritacas pelos xingamentos, os “olá, bom dia…”, os acenos de mão e de cabeça, os “como vão as coisas lá?”, pelas mais diversas formas de desprezo, arrogância e indiferença.

Mas o Plácido sabia que seria difícil e que precisaria ter força para superar aquelas agruras, então passou a fazer vista grossa pra tudo que o incomodava. Ignorava as adversidades, passava por cima delas, mas, inconscientemente, o Plácido registrava tudo, acumulava todo o lixo, a poluição, o desprezo, o fast food, um festival de fast, fast all.
A capacidade de adaptação do Plácido fez com que ele, como é preciso na capital, rápida e fastmente, evoluísse e subisse importantes degraus na sua carreira. Plácido já aprendera a quem ignorar, a quem ofender, em quem desforrar tudo de ruim que guardava, pisoteando e humilhando. E o mais importante, de quem lamber as bolas…
…Muitos anos se passaram e o Plácido já não precisava mais lamber as bolas de ninguém, no máximo delegava. Enricou, viciou na vida do capital. Sentia o poder pulsando dentro do seu corpo. Sentia que havia chegado lá, e lá era sempre um pouco mais acima…
As cada vez mais raras visitas ao interior deixavam o Plácido cada vez mais aborrecido. Nada mudava por lá. Sua mãe, que envelhecia com triste saúde, continuava com as mesmas e ridículas preocupações_ “se alimente bem, meu filho, se agasalhe, venha mais…”. Amigos, Plácido não tinha mais por lá, ou se esquecia de procurá-los, ou simplesmente não os tinha. Deixou de viajar pro interior. Ele tinha vencido, não precisava mais daquele fim de mundo, queria vencer mais, sempre, com as regras sem regras que aprendera tão bem.
Mas, sem perceber, ele havia perdido algo, e isso o transformara em outra coisa. E na solidão da noite, enquanto cultivava diligente a sua úlcera, com o travesseiro no rosto, o bem sucedido Ácido, se deixava acabar num choro de saudade, de saudade do Plácido…

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