
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) destinou quase R$ 200 mil em emenda parlamentar a um projeto esportivo na zona oeste do Rio de Janeiro após uma solicitação de Robson Calixto Fonseca, conhecido como Peixe, condenado por integrar a organização criminosa dos irmãos Domingos e Chiquinho Brazão. As informações são da revista piauí, em reportagem assinada pelo jornalista Breno Pires, publicada nesta segunda-feira (21).
Segundo a apuração, a Polícia Federal (PF) encontrou mensagens trocadas entre Peixe e Maria de Fátima Bezerra Castro, assessora parlamentar do gabinete de Flávio Bolsonaro em Brasília. Nas conversas, que se estenderam por cinco meses, o condenado solicita recursos para uma organização não governamental (ONG) que desenvolvia um projeto de futebol infantil na Taquara, bairro da zona sudoeste do Rio.
Em uma das mensagens, enviada em 24 de outubro de 2023, Peixe escreveu: “Amiga vê com o nosso Senador se consegue nos ajudar”. Quatro minutos depois, a assessora respondeu que ele deveria encaminhar a solicitação por e-mail ou ofício.
Dois dias depois, a funcionária perguntou se Peixe ainda estava com o então deputado federal Chiquinho Brazão. Ao receber uma resposta afirmativa, orientou que ele comparecesse a uma cerimônia do gabinete de Flávio no Rio e reforçasse pessoalmente o pedido ao senador, levando Brazão.
De acordo com a piauí, o relatório da investigação da PF destaca a sequência de mensagens e a orientação para que Peixe aproveitasse o evento para tratar da destinação dos recursos.
Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes foram assassinados em março de 2018, no centro do Rio de Janeiro. Em julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF), em 2026, os irmãos Domingos Brazão e Chiquinho Brazão foram condenados como mandantes do crime. Ronnie Lessa, autor dos disparos, afirmou em delação premiada que Peixe foi o responsável por apresentá-lo aos irmãos e por providenciar a arma utilizada no atentado.
Emenda destinou R$ 199,9 mil a projeto esportivo
Em 6 de novembro de 2023, Peixe voltou a cobrar a assessora sobre o pedido de recursos para o Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (Ifop), responsável pelo projeto esportivo Jogadores do Futuro.
“Bom dia, amiga não esquece do Ifop não, vê se o Senador consegue nos agraciar, para não terminar o nosso projeto”, escreveu. A resposta foi: “Pode deixar”.
No dia 29 de novembro daquele ano, o instituto recebeu R$ 199.999,79 por meio da Emenda Parlamentar nº 92190012-2023, de autoria de Flávio Bolsonaro. O valor fazia parte de uma emenda de R$ 599.128, dos quais R$ 399.128 foram destinados ao município de Barra do Piraí.
A parcela encaminhada ao Ifop passou pelo Ministério do Esporte e deu origem a um termo de fomento para financiar o projeto Jogadores do Futuro.
TCU apontou irregularidades na aplicação dos recursos
A reportagem também revela que o Tribunal de Contas da União (TCU) identificou irregularidades na utilização do dinheiro destinado ao instituto.
Entre os problemas apontados está a contratação de um escritório de advocacia para coordenar o projeto esportivo. O responsável pela empresa, José Rômulo Oliveira Alves, era também presidente do Ifop e assinou o contrato em nome das duas partes.
O TCU apontou possível conflito de interesses, uma vez que o dirigente da entidade atuava simultaneamente na gestão dos recursos públicos e como beneficiário indireto da contratação.
Os técnicos do tribunal também identificaram problemas nas cotações de preços, como ausência de concorrência e participação exclusiva de empresa sem relação com o serviço contratado.
Procurado pela piauí, o Ifop afirmou que a contratação de pessoal próprio é permitida pelo marco regulatório das Organizações da Sociedade Civil e que contestará as conclusões do TCU.
Peixe foi condenado por atuação no grupo dos Brazão
Robson Calixto Fonseca é apontado como uma figura central na investigação sobre o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes, em março de 2018.
Segundo a colaboração premiada de Ronnie Lessa, autor dos disparos, Peixe teria sido responsável por apresentá-lo aos irmãos Brazão, apontados como mandantes do crime, e providenciado a submetralhadora utilizada no assassinato. Peixe negou as acusações.
Em fevereiro de 2026, ele foi condenado a nove anos de prisão por atuar como braço operacional da organização criminosa armada dos Brazão, ao lado de Edmilson da Silva Oliveira, conhecido como Macalé. Também perdeu o cargo de policial militar reformado.
Segundo a denúncia do Ministério Público do Rio de Janeiro, Peixe atuava como intermediário entre os irmãos Brazão e milicianos da região de Jacarepaguá.
A reportagem da piauí também aponta que a destinação ao Ifop não teria sido um caso isolado. Conforme apuração da Polícia Federal divulgada anteriormente pelo jornal O Globo, Peixe intermediava a obtenção de emendas parlamentares para uma rede de organizações não governamentais ligadas ao grupo dos Brazão.
Procurados pela piauí, Flávio Bolsonaro, Robson Calixto Fonseca e Maria de Fátima Bezerra Castro não responderam. O Ifop afirmou que nunca manteve contato direto com o senador e que sua assessoria especializada apresentou projetos a diferentes gabinetes parlamentares. (Da TVTNews)
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