
A ideia de “peso ideal” vai muito além de uma questão estética. Ela molda comportamentos, influencia escolhas de saúde e pode impactar diretamente a vida das mulheres. É o que aponta um estudo conduzido na Unicamp, que revela como o estigma associado ao corpo feminino interfere na forma como mulheres se percebem e se relacionam com o próprio bem-estar.
Desenvolvido pelo sociólogo guatemalteco Miguel Contreras, o trabalho foi realizado no Hospital da Mulher Prof. Dr. José Aristodemo Pinotti (Caism) e ganhou destaque internacional ao ser publicado na edição latino-americana da revista médica “The Lancet”. A pesquisa mostra que, mais do que os efeitos biológicos, o preconceito social em torno do peso pode ser um fator determinante para a saúde.
Segundo o estudo, a magreza ainda é amplamente associada a valores como disciplina, autocontrole e saúde, enquanto corpos fora desse padrão são frequentemente vistos como sinal de descuido ou falha moral. Essa lógica, além de reforçar estigmas, acaba sendo internalizada pelas próprias mulheres, que passam a viver sob constante vigilância do próprio corpo.
Culpa e inadequação
Realizada entre fevereiro e novembro de 2024 no Ambulatório de Planejamento Familiar do Caism, a pesquisa ouviu mulheres em entrevistas individuais e discussões em grupo. Os relatos evidenciam que atividades cotidianas — como se alimentar, escolher roupas ou até se sentar — podem se tornar fontes de ansiedade quando atravessadas pelo julgamento social.
A roupa, inclusive, aparece como um símbolo marcante dessa pressão. Quando uma peça não serve, o problema raramente é atribuído à indústria ou à padronização limitada de tamanhos, mas sim encarado como um fracasso pessoal, reforçando o ciclo de culpa e inadequação.
O estudo também faz críticas ao sistema de saúde, especialmente ao uso do Índice de Massa Corporal (IMC) como principal parâmetro para avaliar a saúde. Para o pesquisador, essa métrica simplifica uma realidade complexa e ignora fatores sociais e estruturais que influenciam o bem-estar.
Recomendações genéricas, como “mudar o estilo de vida”, também são apontadas como insuficientes diante de barreiras mais amplas, como o preconceito e a exclusão.
Salutarismo neoliberal
Outro ponto central da análise é o conceito de “salutarismo” (healthism), que ganha força a partir dos anos 1980 com o avanço de políticas neoliberais. Nessa perspectiva, a saúde passa a ser vista como responsabilidade individual, associando doença a falhas pessoais e reforçando a ideia de que o corpo magro é sinônimo de saúde.
Para Contreras, esse raciocínio desloca a responsabilidade do Estado e ignora determinantes sociais fundamentais, como acesso a serviços, condições de vida e desigualdades estruturais. O peso, nesse contexto, deixa de ser uma questão médica e passa a funcionar como marcador moral.
Embora a obesidade seja reconhecida como uma doença crônica, o estudo aponta que ela ainda é tratada socialmente como sinal de irresponsabilidade. Isso leva à patologização de corpos maiores, mesmo quando não há problemas clínicos associados.
A pesquisa defende que o peso deve ser compreendido como um determinante social da saúde, ou seja, resultado das condições em que as pessoas vivem, trabalham e se desenvolvem. Ao ignorar esse contexto, práticas clínicas e discursos sociais acabam reforçando desigualdades e afastando mulheres de cuidados essenciais.
Orientado pelas professoras Maria José Osis e Ximena Ramos Sala, o estudo foi financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e propõe uma mudança de olhar: mais do que números na balança, é preciso considerar o impacto do preconceito e das estruturas sociais na saúde feminina. (Com informações de Tote Nunes/Jornal da Unicamp)
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