(foto adunicamp divulgação)
O fim da greve de professores da Unicamp foi decidido em Assembleia Extraordinária realizada nesta quinta-feira, 11 de junho, a partir da nova proposta de reajuste salarial, de 3,92%, definido na reunião realizada entre Cruesp e Fórum dos Seis, no dia anterior, 10 de junho. A greve foi iniciada em 18 de maio último.
O Cruesp também se comprometeu a abrir uma nova mesa de negociação no segundo semestre, caso a arrecadação do ICMS no Estado atinja os 187,1 bilhões de reais que inicialmente havia sido projetado pela Secretaria Estadual da Fazenda.
A assembleia também decidiu manter as mobilizações conjuntas com estudantes e servidores(as) técnico-administrativos(as) para avançar na pauta interna de reivindicações junto à Reitoria da Unicamp e também nos oito pontos centrais da Pauta Unificada (leia aqui) do Fórum das Seis e que não foram tratados na última reunião com o Cruesp. A assembleia decidiu ainda não aceitar qualquer possibilidade de punição a estudantes e servidores(as) que ainda se mantêm em greve.
Tanto a Diretoria da ADunicamp como integrantes do Comando de Greve e docentes que participaram da assembleia avaliaram como extremamente positiva e forte as ações conjuntas das três categorias da Universidade, coordenadas e decididas em comum pela ADunicamp, STU e DCE. “Essa união não pode ser perdida, mesmo fora das greves. Foi essa união das três categorias que forçou o Cruesp a reabrir a negociação salarial, que os reitores já haviam encerrado, e que também garantiu avanços nas negociações das pautas estudantis aqui na Unicamp”, resumiu a presidenta da ADunicamp, professora Silvia Gatti (IB).
Além da recomposição salarial, a Pauta Unificada (leia aqui) reivindica decisões e ações mais amplas das reitorias e do Governo do Estado, como melhorias nas condições de trabalho e estudo, fortalecimento das políticas de permanência estudantil e ampliação do financiamento das universidades públicas paulistas.
A REUNIÃO
Para subsidiar a decisão que foi tomada ao final pela assembleia, a professora Silvia fez um relato detalhado da última reunião entre o Fórum das Seis e o Cruesp, ocorrida em 10 de junho. Após mais de cinco horas de negociação, os reitores elevaram a proposta de reajuste salarial de 3,47% para 3,92%, resultado que, segundo ela, só foi possível graças à mobilização das categorias nas três universidades estaduais paulistas.
“Foi um momento de disputa mesmo entre o Cruesp e nós do Fórum das Seis”, afirmou. Segundo ela, a negociação começou tendo como referência a reivindicação de reposição da inflação medida pelo IPCA, já que as entidades haviam flexibilizado a proposta inicial de 7,52%, composta pelo IPCA mais 3% de recuperação das perdas acumuladas.
De acordo com a presidenta, a posição inicial dos reitores foi de absoluta resistência. “O Cruesp disse: não tem condição, vamos manter os 3,47%”, relatou. Mesmo após sucessivas rodadas de discussão e apresentações técnicas das três universidades, os reitores insistiram no argumento de que um reajuste maior comprometeria excessivamente as folhas de pagamento, especialmente da Unicamp e da Unesp.
O principal embate girou em torno das projeções para a arrecadação do ICMS. Enquanto os técnicos das reitorias trabalharam com estimativas inferiores às divulgadas pela Secretaria da Fazenda do Estado, os representantes do Fórum das Seis defenderam que os dados mais recentes apontam crescimento da arrecadação e permitem um reajuste maior.
“Há um aumento do ICMS quando comparamos este ano com o ano passado e provavelmente vamos chegar a 7%. Fazendo uma observação simples, cabe mais no nosso salário”, argumentou Silvia.
Em determinado momento da negociação, o Fórum apresentou uma nova proposta para superar o impasse: acrescentar 0,9% ao índice oferecido pelo Cruesp, exatamente a diferença entre o reajuste baseado no IPC/Fipe e a inflação medida pelo IPCA. Como alternativa, propôs dividir esse percentual em duas parcelas de 0,45%, sendo uma imediata e outra condicionada à evolução da arrecadação ao longo do segundo semestre.
Segundo Silvia, a proposta encontrou receptividade parcial entre os reitores. “Foi um momento de certa instabilidade do lado do Cruesp, e essa percepção nos fez fazer essa proposta”, explicou. O resultado foi a aceitação de apenas metade da reivindicação. O reajuste passou de 3,47% para 3,92%, incorporando os primeiros 0,45%. Nos bastidores, porém, a discussão teria sido ainda mais intensa.
Apesar de considerar o avanço insuficiente, Silvia destacou que o resultado representa uma conquista da mobilização. A proposta foi levada ao Fórum das Seis, que decidiu aceitá-la e encerrar a mesa de negociação salarial do primeiro semestre, mantendo a possibilidade de reabrir as discussões caso a arrecadação apresente desempenho superior ao projetado. “Na dependência do que acontecer com o ICMS, nós vamos de novo solicitar mesa de negociação para o segundo semestre”, explicou.
Professora Silvia destacou que houve avanços importantes na constituição de grupos de trabalho entre Fórum das Seis e Cruesp para discutir financiamento, reforma tributária, previdência e permanência estudantil. No entanto, ressaltou que vários desses temas ainda aguardam encaminhamentos efetivos.
Ao encerrar o informe, Silvia reforçou que a disputa não se encerra com o reajuste de 3,92%. Para ela, a continuidade da mobilização será fundamental para garantir avanços nas pautas estruturais que envolvem o financiamento das universidades públicas paulistas, a valorização das carreiras e as condições de permanência estudantil, entre os demais pontos da pauta unificada.
Documento de docentes expõe precarização no Curso de Dança da Unicamp
A discussão sobre a precarização das universidades públicas paulistas, tema que marcou a assembleia de docentes, ganhou um exemplo concreto com a leitura de um documento elaborado pelo Corpo Docente do Departamento de Artes Corporais da Unicamp. O texto aponta que, apesar da expansão das atividades de ensino, pesquisa e extensão nas últimas décadas, a estrutura física e o quadro de pessoal não acompanharam esse crescimento, comprometendo as condições de trabalho e a qualidade da formação oferecida.
Segundo o documento, o Curso de Dança da Unicamp, reconhecido nacionalmente pela excelência acadêmica e artística, vem sendo mantido em condições cada vez mais precárias. O documento destaca dois problemas centrais: a falta de infraestrutura adequada e a redução contínua do número de docentes.
Na área de infraestrutura, o texto lembra que os cursos de Artes da Cena ocupam, desde os anos 1980, prédios adaptados para finalidades distintas. Demandas históricas, como a conclusão do Teatro-Laboratório e a reforma do Paviartes, permanecem sem solução. Como consequência, as atividades do curso estão atualmente distribuídas em quatro edifícios diferentes do campus, obrigando estudantes e docentes a percorrer longas distâncias diariamente para cumprir suas atividades acadêmicas.
Os docentes também denunciam a ausência de espaços adequados para permanência e trabalho do corpo docente. “Desde a criação do departamento, os professores não dispõem de salas próprias para permanência no campus, preparação de aulas, atendimento de estudantes ou realização de orientações em condições apropriadas”, afirma o documento.
Outro ponto crítico é a redução do quadro de docentes. Aposentadorias não foram repostas nos últimos anos, aumentando a sobrecarga de trabalho de quem permanece na Unidade. O texto relata que um número cada vez menor de docentes precisa atender simultaneamente às demandas da graduação, pós-graduação, pesquisa, extensão, produção artística, orientação acadêmica e gestão universitária.
As consequências já afetam diretamente a estrutura curricular do curso. De acordo com o documento, disciplinas deixaram de ser oferecidas, conteúdos especializados foram reduzidos e componentes curriculares tiveram de ser reorganizados em função da falta de pessoal. Um dos exemplos citados é a retirada do Trabalho de Conclusão de Curso da Licenciatura em Dança, medida adotada para viabilizar o funcionamento do curso diante das limitações atuais.
Embora destaque que a graduação em Dança continua obtendo reconhecimento nacional e internacional, o corpo docente afirma que a manutenção dessa qualidade tem ocorrido às custas da intensificação do trabalho. “Não é razoável que a excelência seja continuamente sustentada às custas da sobrecarga de trabalho e da precarização das condições de funcionamento”, diz o texto.
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