
O presidente dos EUA, Donald Trump, é uma espécie de Centrão com o exército mais poderoso do mundo nas mãos. Ele pode deixar para trás os bolsonaristas lambe-botas ou os opositores da Venezuela. Não há política nem democracia. O negócio de Trump é o negócio, com ou sem golpe, com ou sem democracia. Veja artigo:
A continuidade do chavismo sem Maduro
.Por Jeferson Miola.
Trump é um gângster que detesta a política tal como consideramos. Ele quer mesmo é fazer negócios através da política. Muitos e lucrativos negócios.
A política –sobretudo o poder de condução da política imperial no mundo– é o meio poderoso que este gângster tem em mãos para impor os interesses do establishment estadunidense com métodos truculentos, mafiosos e criminosos para concretizar negócios estratégicos.
A acusação de narcoterrorismo contra o presidente Nicolás Maduro repete o script conhecido: um pretexto sujo para criar uma fachada de legalidade à invasão da Venezuela e ao sequestro do presidente do país.
O objetivo dessa ação imperialista foi viabilizar, finalmente, a retomada do controle e do roubo da renda petroleira venezuelana depois de 27 anos de tentativas imperiais fracassadas.
Trump tem pressa em “retomar o fluxo de produção” do petróleo venezuelano, como repetiu várias vezes no pronunciamento de sábado, 3/1.
Os EUA não cogitam, pelo menos por enquanto, derrubar o regime chavista e fazer a transição para um governo ultradireitista liderado pela fascista Maria Corina Machado. Não deixa de ser uma incoerência notável para o país que foi o primeiro a declarar Edmundo González como vitorioso da eleição de julho de 2024.
Mudar o regime ou gerar um vazio de poder seria caótico e custoso demais. Além disso, traria muita confusão e atrasaria por tempo imponderável o assalto ao butim petroleiro, cujo plano de retomada divulgado pelos EUA alcança uma cifra superior a 100 bilhões de dólares em investimentos nos próximos anos.
Os EUA não cogitam nem mesmo novas eleições, como prevê a Constituição Bolivariana em caso de vacância definitiva do cargo, que na prática ocorrerá devido ao sequestro do presidente constitucional do país.
O secretário de Estado Marco Rubio disse que “é prematuro [falar de eleições na Venezuela] neste momento. Há muito trabalho pela frente. Importam-nos as eleições, importa-nos a democracia, mas o que mais nos importa, antes de tudo, é a segurança, o bem-estar e a prosperidade dos Estados Unidos”.
A opção, portanto, foi manter o chavismo no poder, porém, sem Nicolás Maduro, mas com a vice Delcy Rodríguez, que “está essencialmente disposta a fazer o que consideramos necessário para tornar a Venezuela grande novamente”, disse Trump.
Com Maduro a relação ficara insuportável. “Simplesmente não conseguíamos trabalhar com ele”, disse Rubio. “Ele nunca cumpriu nenhum dos acordos que fez. E nós lhe oferecemos, em diversas ocasiões, a oportunidade de se afastar de forma positiva. Ele optou por não fazê-lo, e agora está em Nova York”, complementou.
A “transição” com Delcy vinha sendo considerada há meses, em paralelo à intensificação dos ataques e ameaças de Trump à Venezuela. Em reportagem de 16 de outubro passado, o jornal Herald Miami noticiou a existência de diálogos entre autoridades venezuelanas e estadunidenses com a mediação do Catar, fato confirmado por fontes venezuelanas.
Após as demonstrações ostensivas de poderio bélico dos EUA no Caribe, com bombardeios de embarcações pesqueiras na região e assassinato de centenas de civis, assim como as ações diretas da CIA no terreno, tais diálogos teriam sido intensificados com a discussão de possíveis cenários de continuidade do chavismo sem Maduro.
A hipótese de que o processo na Venezuela tenha se desenrolado no contexto de acomodação de interesses das potências mundiais [EUA-América Latina, China-Taiwan e Rússia-Ucrânia] em coordenação com o chavismo ganhou fortes evidências nessas 48 horas posteriores à operação.
É chamativo que nenhuma das 150 aeronaves, entre helicópteros e drones que passearam em baixíssima altitude pelo espaço aéreo venezuelano, tenha sido abatida pela defesa venezuelana, que utiliza sofisticada tecnologia militar russa.
Também não foi contabilizada nenhuma baixa de soldado dos EUA, nem mesmo ferido, ao passo que 32 cubanos que integravam o destacado grupamento de inteligência responsável pela guarda presidencial foram “assassinados a sangue frio”, conforme as Forças Armadas Bolivarianas.
Na “Mensagem da Venezuela ao mundo e aos Estados Unidos”, publicada em espanhol e inglês nesta 2ª feira, 5/1, mesmo dia em que Maduro é levado à audiência de custódia em Nova York, Delcy declara que “consideramos prioritário avançar em um relacionamento internacional equilibrado e respeitoso entre EUA e Venezuela”.
“Estendemos um convite ao governo dos EUA para trabalharmos juntos em uma agenda de cooperação, orientada pelo desenvolvimento compartilhado, no marco da legalidade internacional que fortaleça uma coexistência comunitária duradoura”, acrescentou.
Delcy termina a mensagem com uma declaração direta a Trump – “Presidente Donald Trump: nossos povos e nossa região merecem a paz e o diálogo, não a guerra”.
Os acontecimentos deste 3 de janeiro criam um ambiente de imponderabilidade e incertezas sobre o futuro da Venezuela, da América do Sul e da geopolítica mundial.
A questão a ser considerada, realisticamente, e sobretudo em termos de capacidade militar, é se haviam outras opções nesta que se caracteriza como a batalha mais ameaçadora à sobrevivência do chavismo nesses 27 anos de resistência à guerra imperialista implacável. (Do Blog)
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