(foto fiocruz amazônia)
O médico infectologista da Fiocruz, Marcus Vinicius Guimarães Lacerda, que foi nomeado como o novo diretor do Programa Especial para Pesquisa e Treinamento em Doenças Tropicais (TDR) da Organização Mundial de Saúde (OMS), vivenciou o fascismo bolsonarista justamente pela qualidade e seriedade do seu trabalho. Um documentário retratou a situação de alguns cientistas brasileiros perseguidos pelo fascismo bolsonarista.
A nomeação foi feita pelo diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom, durante painel de seleção com a chancela dos membros do Conselho Coordenador Conjunto (JCB) e dos co-patrocinadores do TDR, entre os quais o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), o Banco Mundial e a OMS.
Marcus Lacerda assumirá oficialmente o programa no início de março deste ano. É a segunda vez que um brasileiro dirige o TDR. O primeiro foi o médico e biofísico Carlos Morel, ex-presidente da Fiocruz.
Muitas pessoas ainda não perceberam o horror que foi o governo de Bolsonaro. E o caso de Marcus Lacerda explica um pouco o fascismo da extrema direita bolsonarista, que provocou a morte de mais de 700 mil pessoas de Covid. Em 2020, Marcus esteve à frente de um estudo pioneiro no país sobre o uso de cloroquina em pacientes com covid-19 (o Clorocovid), ainda no início da pandemia, e precisou andar com escolta armada depois que ele e outros pesquisadores receberam ameaças de morte porque o estudo indicou que o medicamento não apenas era ineficaz como poderia apresentar riscos aos pacientes infectados pelo novo coronavírus.
Em um momento em que a ciência acelerava a busca por vacinas e fármacos, em março de 2020, a cloroquina ou hidroxicloroquina — remédio usado há décadas no tratamento de malária — ganhou repercussão no mundo todo, não exatamente por sua eficácia comprovada contra a covid-19, mas por ser recomendado pelo presidente Donald Trump, nos Estados Unidos, e Jair Bolsonaro, no Brasil.
O enredo começou quando um pequeno estudo francês, não revisado por pares, indicou que 20 pacientes haviam sido curados do coronavírus pelo uso do medicamento — fato suficiente para que o remédio fosse considerado uma espécie de “cura milagrosa” e abrisse caminho para medidas contrárias à ciência.
A rede de pesquisadores que Marcus coordena em Manaus — referência internacional nas chamadas doenças tropicais — logo foi acionada e montou o estudo pioneiro no Brasil, com participação da Fiocruz Amazônia, Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD), Universidade do Estado do Amazonas (UEAM) e Universidade de São Paulo (USP).
Quando os dados preliminares da pesquisa apontaram não apenas a ausência de eficácia, mas alguns riscos no uso da cloroquina no tratamento de covid-19, os pesquisadores de Manaus começaram a enfrentar uma onda de linchamento nas redes sociais, com ameaças e ataques pessoais. “Nunca imaginei na minha vida que alguém ia me acusar de ter matado pessoas só para desmerecer o meu estudo. Nenhum pesquisador está preparado para esse tipo de ameaça”, disse o cientista à Radis.
De um dia para o outro, a vida do pesquisador e de seus colegas virou de ponta a cabeça. O estudo havia ganhado repercussão na imprensa internacional, em meados de abril de 2020, porque chamava atenção para os potenciais riscos do uso de cloroquina em covid-19, principal tratamento defendido pelo então presidente Trump — e por Bolsonaro, no Brasil.
Em 17 de abril, o deputado federal Eduardo Bolsonaro publicou, em rede social, o rosto e o nome de alguns dos pesquisadores envolvidos na pesquisa, acusando-os de terem provocado a morte de 11 pessoas e serem “do PT”. “Foi uma avalanche de coisas na nossa vida. Toda aquela onda de ofensas e ameaças em redes sociais foi muito complicada. A gente pensou em parar por algum tempo”, conta.
A pesquisa liderada por Marcus foi o primeiro estudo com cloroquina usada no tratamento de covid-19 aprovado no Brasil, em 20 de março de 2020, pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep). Pretendia checar mais a segurança do que propriamente a eficácia do medicamento em casos do novo coronavírus. Publicada no Journal of the American Medical Association (Jama), uma das revistas científicas mais conceituadas do mundo, foi fundamental para que a cloroquina parasse de ser prescrita para covid-19 nos Estados Unidos. Contudo, para algumas crenças, nenhuma evidência científica basta. “Só aqui no Brasil que isso virou um debate, a gente foi xingado de ‘comunista’. O reconhecimento internacional, por outro lado, acaba demonstrando que a gente está certo. Infelizmente, no Brasil, a gente precisa primeiro ser reconhecido lá fora para ser valorizado aqui dentro”, avalia.
Em 5 de novembro de 2021, Jair Bolsonaro retirou a Ordem Nacional do Mérito Científico concedida um dia antes aos pesquisadores Marcus Vinícius Guimarães de Lacerda e Adele Schwartz Benkazen. A decisão foi publicada no “Diário Oficial da União”.
Em nota divulgada na época, a Academia Brasileira de Ciências condenou a decisão de Jair Bolsonaro de retirar a condecoração de Marcus Vinícius Guimarães de Lacerda e Adele Benzaken. No texto , intitulado “A Ordem Nacional do Mérito Científico não pode ser objeto de expurgos políticos”, a entidade diz que o ato é “inédito no país e típico de regimes autoritários” e “mais um ataque à ciência, à inovação e à inteligência do país”.
Pesquisador especialista em Saúde Pública da Fiocruz, Marcus Lacerda coordena atualmente o Laboratório Instituto de Pesquisas Clínicas Carlos Borborema (IPCCB), vinculado à Fiocruz Amazônia, em Manaus. Médico brasileiro com vasta experiência em pesquisas na área de Medicina Tropical, com ênfase em doenças infecciosas, Lacerda influenciou direta e profundamente as estratégias de eliminação da malária e o campo mais amplo da Saúde Global.
Nascido em Taguatinga, próximo a Brasília (DF), graduou-se em Medicina pela Universidade de Brasília (Unb), especializando-se em Infectologia pela Fundação de Medicina Tropical Dr Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD), no Amazonas, período em que começou o trabalho com comunidades remotas da Amazônia, enfrentando a malária e outras doenças tropicais. Lacerda é ex-presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT) e tornou-se um líder internacional em pesquisa sobre malária, especialmente no manejo e eliminação do Plasmodium vivax.
“Marcus Lacerda é um gigante global da saúde do século 21, que dedicou sua vida profissional a dar visibilidade aos problemas de saúde da região amazônica brasileira e além”, afirmou a diretor-geral do Instituto de Salud Global (ISGlobal) de Barcelona, Quique Bassat, em um recente perfil na publicação The Lancet. “Sua pesquisa fundamental sobre o manejo e eliminação da malária por vivax, seu trabalho incrivelmente rigoroso com a Covid-19 durante as dificuldades da pandemia e seu compromisso em destacar doenças tropicais ainda muito negligenciadas, são todos testemunhos de sua determinação e lealdade em atender às necessidades de seus pacientes e comunidades, além de oferecer soluções concretas”, enfatizou.
Marcus Lacerda tem como principais focos de pesquisa: malária, HIV, histoplasmose, arboviroses, acidentes ofídicos, Covid-19 e outras doenças emergentes. Suas contribuições mais recentes à inovação em saúde pública foram a implementação de profilaxia pré-exposição (Prep) oral e injetável para HIV, a implementação de tafenoquina em dose única para a cura radical de malária vivax, e a implementação da coleta de tecidos post mortem (MITS) para estudo de causas de morte, todos pioneiros na Amazônia brasileira.
É professor do Programa de Pós-Graduação em Medicina Tropical da Universidade do Estado do Amazonas e professor adjunto da University of Texas Medical Branch (UTMB). Ex-professor adjunto da Kent State University e da Tulane University. Tem mais de 460 publicações científicas. Presta consultoria e é parte de comitês e grupos de trabalho no Programa Global de Malária da OMS e consultor no Grupo de Desenvolvimento de Diretrizes da OMS (GDG) para Quimioterapia contra Malária. Lacerda é pesquisador 1B do CNPq na área da Medicina e editor da Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical e da Frontiers Tropical Medicine.
Como defensor da pesquisa de implementação, a OMS destaca que Marcus Lacerda colaborou com diversas instituições nacionais e internacionais para ajudar a desenvolver e implementar a tafenoquina, a primeira cura radical de dose única para a malária causada pelo Plasmodium vivax, aprovada em 40 anos, atualmente integrando as diretrizes de tratamento da Organização. Seu grupo de pesquisa em Manaus estabeleceu um dos centros de pesquisa clínica mais avançados da Amazônia, reunindo ciência laboratorial, ensaios clínicos e pesquisa de implementação para orientar políticas de saúde. Atualmente, coordena o projeto Telemal, que usa tecnologia para encurtar distâncias e garantir acesso a diagnósticos mais rápidos e tratamento eficaz contra malária para quem vive em localidades remotas no Amazonas.
Lacerda ressaltou sentir-se honrado e animado em ingressar no TDR como diretor. “Estou ansioso para avançar com a Estratégia TDR 2024-2029 e apoiar esforços para traduzir evidências em impacto, especialmente onde as necessidades são maiores. Estou ansioso para fazer parcerias com países e comunidades para fortalecer a capacidade, apoiar a liderança local e construir sistemas sustentáveis que perdurem”, salientou.
TDR
Criado em 1975, o Programa Especial para Pesquisa e Treinamento em Doenças Tropicais (TDR) da OMS é uma colaboração científica global entre parceiros como a Fiocruz, a Unicef e o Banco Mundial, para desenvolver soluções inovadoras e fortalecer a capacidade de pesquisa local, visando melhorar a Saúde Global. A iniciativa financia e apoia a pesquisa para combater doenças infecciosas que afetam os mais pobres, utilizando uma abordagem de Saúde Única (One Health), com foco em doenças negligenciadas como a doença de Chagas, a dengue, a leishmaniose, a oncocercose e a doença do sono. Também tem como objetivo fortalecer centros de pesquisa e formar cientistas em países de baixa e média renda. (Com informações da Fiocruz/ENSP e G1)
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