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O que o DNA conta sobre a história, as cicatrizes e a saúde do povo brasileiro?

(foto ryoji iwata – unsplash)

É impossível falar da singularidade do Brasil sem mencionar sua complexa tapeçaria genética — e é justamente aí que o projeto “DNA do Brasil”, da Universidade de São Paulo (USP), ganha destaque. Estudo publicado recentemente na revista Science traz ao mundo um olhar inédito sobre a identidade biológica dos brasileiros — e os impactos dessa diversidade na saúde pública.

Analisando 2.723 genomas, pesquisadores detectaram quase 9 milhões de variantes genéticas inéditas — mutações presentes entre brasileiros e que até então não estavam descritas em outros bancos de dados, já que a maioria das pesquisas genéticas feitas mundialmente são realizadas na Europa. O estudo indica que o Brasil é o país com a maior miscigenação do mundo, com o pico nos séculos XVIII e XIX, a partir da chegada de negros escravizados da África e as ondas de imigração de europeus.

O projeto revela “cicatrizes biológicas”, como define a coordenadora da pesquisa, Lygia Pereira, professora titular e chefe do Laboratório Nacional de Células-Tronco Embrionárias (LaNCE), do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva, da USP. Nossos genes contam a história da escravidão, genocídio indígena e outras faces da colonização — situações que moldaram nosso DNA.

As linhagens maternas (mitocondriais), mostra o estudo, revelam ancestralidade indígena e africana predominante, enquanto o cromossomo Y (herança paternal) é majoritariamente europeu, um indício genético da dinâmica desigual da colonização portuguesa.

“Isso provavelmente se deve a episódios de vários tipos de violência, por exemplo, o estupro. Medicamente não é possível dizer de fato a motivação, mas quando ligamos com esse histórico, pode-se chegar a essa conclusão”, afirma Renan Barbosa Lemes, do Instituto de Biociências (IB) da USP, um dos primeiros autores da pesquisa.

Em geral, os brasileiros analisados apresentaram em torno de 60% de ancestralidade europeia, 27% africana e 13% indígena nativa, além de contribuições em menor grau também de asiáticos. A pesquisa mostra maior ancestralidade africana no Nordeste. No Sul e no Sudeste, predomina a europeia, e na região Norte, a indígena.

“A gente até brinca que existem vários Brasis, porque, por exemplo, se você olhar a Bahia, ela tem um background genético totalmente diferente do que você vai encontrar no Rio Grande do Sul e do que você vai encontrar no Amazonas”, diz Leme.

Miscigenação, saúde e medicina

As variantes genéticas estudadas não contam apenas sobre o passado histórico e a formação do povo brasileiro, mas contribuem para melhorar a saúde da população no futuro, abrindo portas para prevenção de riscos, diagnósticos mais precisos e tratamentos inovadores.

Dentre elas, 36.637 foram consideradas como possivelmente deletérias, ou seja, podem indicar uma pré-disposição direta ou estão relacionadas indiretamente a doenças cardíacas, obesidade, hipertensão, câncer, doenças infecciosas como malária, hepatite, gripe, tuberculose, salmonelose e leishmaniose.

O estudo publicado faz parte do Programa Genomas Brasil e é fruto de uma parceria entre o Ministério da Saúde e a USP. Seus resultados formam uma base importante e estratégica para a elaboração de políticas públicas baseadas em evidências científicas.

Nesta fase inicial, o projeto recebeu cerca de R$ 8 milhões do governo federal e a segunda etapa do projeto, um investimento suplementar de R$ 17 milhões para sequenciar mais 6 mil genomas brasileiros, que ainda estão em estudo. (Com informações da Agência Universitária de Notícias da USP – AUN, Jornal da USP e Ministério da Saúde)

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