Não misture biologia e política para defender os privilégios

(Imagem joyce hankins – upl)

.Por Ricardo Corrêa.

Existem duas maneiras de se perder: pela segregação amuralhada no particular ou pela diluição no universal.
−Aimé Césaire

A comprovação científica da inexistência de raças humanas não é novidade, diante disso, as tentativas de hierarquização, considerando que alguns indivíduos são mais evoluídos que outros, não se sustentam. Após a abolição da escravidão, em 1888, o debate no campo das ciências biológicas ganhou força; aos poucos, o racismo científico incorporava-se no pensamento social brasileiro. Intelectuais, políticos e cientistas propagavam a ideia de que os negros eram inferiores, e possuíam características que impediriam o progresso da sociedade. O médico – Raimundo Nina Rodrigues (1862-1906) −, baseando-se nas particularidades do crânio, afirmava que os negros eram dotados de reduzido desenvolvimento mental.

Inúmeros argumentos construíam o consenso da necessidade de políticas racistas que fomentassem o embranquecimento da população. O processo seria através da entrada de europeus brancos neste país, no entanto, o plano da branquitude não deu certo, atualmente os negros constituem a maioria da população brasileira. Decerto, não somos um país desenvolvido devido às classes dominantes. Elas impedem qualquer medida que pavimente a democratização do poder, utilizando o racismo como instrumento de mediação das relações sociais em todos os espaços.

Hoje, a abordagem sobre o racismo coloca a raça no sentido de construção social. Mas, a essência do racismo científico atravessou os tempos, e é modulada para se adequar aos novos contextos históricos. As pessoas negras continuam sendo consideradas com tendências negativas “é próprio da sua natureza”, nesse sentido, os racistas dizem que temos inferioridade intelectual, não somos confiáveis, aderimos facilmente ao vício do álcool e drogas, promíscuos, animalescos, preguiçosos, entre outras inverdades massificadas no imaginário social. Essas questões refletem na manutenção da discriminação e preconceito raciais, em oposição aos acessos privilegiados e tratamento digno ofertados às pessoas brancas. Portanto, ninguém mais do que os negros têm inúmeros motivos para reforçar que “somos todos humanos”.

Mas, os brancos mal-intencionados se apropriaram dessa afirmação, e dizem que é inadmissível o Estado produzir políticas que beneficiem um só grupo racial, pois, todos os indivíduos são iguais e o esforço pessoal é o suficiente para alcançar uma sobrevivência digna. Porém, nós sabemos que esse argumento não cabe numa sociedade racista, além disso, como escreveu Grada Kilomba “Quando falamos sobre o que significa ser branco, falamos de política e não de biologia”1.

Lutamos por educação, habitação e saúde de qualidade, contra o encarceramento e o genocídio, representação positiva nos campos artísticos, informação e educação, contra a precarização e exploração no mercado de trabalho; também exigimos a massificação de posições de relevância simbólica e com poder de decisão. Temos a certeza de que a plena participação dos negros, na esfera política, possibilitará o país de alcançar um status civilizatório; a inegociável reparação histórica não ficará somente no plano das ideias. Não é admissível a indiferença com as injustiças que nos afetam, enquanto o privilégio branco é ampliado.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Césaire, A. (1978). Discurso sobre o colonialismo. Trad. Noêmia de Sousa. Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora.

NUNES, S. S. Racismo no Brasil: tentativas de disfarce de uma violência explícita. Revista de Psicologia da USP, São Paulo, v. 17, n. 1, 2006.

Carta Campinas

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