Nova política: ‘negue a realidade que sempre tem um ser humano aberto para acreditar’

.Por Susiana Drapeau.

“A gasolina mais barata do mundo é a brasileira”. A fala de Bolsonaro mostra que ele vai continuar com a estratégia de marketing político dentro da linha dos ideólogos do olavismo, que defendia que se pode ganhar mentes e corações mesmo negando totalmente a realidade. Isso pode se dar persuadindo, mas também mentindo, fantasiando e dizendo os maiores absurdos.

(imagem bret-kavanaugh – upl)

Na lógica dessa “filosofia cínica”. sempre haverá um ser humano aberto para aceitar o que foi dito, por mais estapafúrdio que seja. Ou seja, é possível jogar qualquer coisa na cabeça do ser humano. Por isso, Bolsonaro pode negar a realidade quase o tempo todo. Na verdade, ele expressa qualquer coisa que possa beneficiar seu grupo político ou fantasiar a realidade. E isso tem funcionado. É uma estratégia político-psicológica.

Um dos testes amplamente disseminado dessa estratégia foi a divulgação algum tempo atrás da teoria de que a “Terra é plana”. Esse debate serviu para provar que é possível distrair e enganar o ser humano em um debate político, mesmo dizendo os maiores absurdos do mundo. Ou seja, a verdade é criada no discurso, não na realidade. Não importa a verdade em si, mas o discurso que cria uma realidade paralela e mítica.

O mais interessante dessa discussão é que o ser humano, mesmo a pessoa com discernimento crítico, é passível de aceitar. Na vida cotidiana, em algum momento você pode ser ludibriado. Vocês escapa de um, mas cai em outro golpe. Quantas pessoas inteligentes e astutas não caíram em golpes em algum momento da vida? A base filosófica do crime chamado estelionato é essa, essa abertura e fragilidade cognitiva do ser humano. Se o ser humano é passível de aceitar qualquer coisa que seja dito a ele, então você tem um infinito campo de fabulações para manipular. Criando um mundo fantasioso, é possível fazer com que pessoas lhe deem dinheiro voluntariamente. O voto é apenas “um dinheiro” mais fácil de retirar da população.

Um dos problemas dessa estratégia é o debate com réplica e tréplica. Isso porque ainda que tenha chance de enganar e vencer, o debate traz o grande risco de o farsante ser desmascarado. É por isso que Bolsonaro gosta de falar no “cercadinho do Planalto” e com a mídia subserviente. É por isso também que, por várias vezes, ele foi agressivo com jornalistas que fizeram perguntas que expõem contradições. Para debater dentro da “filosofia cínica”, o contra-argumento cínico pode levá-lo para campos totalmente incompreensíveis e fantasiosos. É um risco. Para evitar isso, ou abandona o debate ou recorre ao autoritarismo. A estratégia cínica precisa evitar debates diretos com oponentes dentro de regras pré-estabelecidas.

Ah, os Gregos Antigos não devem ser esquecidos. Eles pensavam por meio do diálogo e do contra-argumento. É a negação de nossas fantasias, promovida pelo debate, que emerge a verdade.

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