As mortes negras e o Estado racista

.Por Marcelo Mattos.

“Árvores do sul produzem uma fruta estranha, Sangue nas folhas e sangue nas raízes, Corpos negros balançando na brisa do sul,  Frutas estranhas penduradas nos álamos”.  (Strange Fruit, na voz de Billie Holiday)

A socos e pontapés. Às vésperas das comemorações do Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, João Alberto Freitas, um homem negro de 40 anos é violentamente espancado até à morte por seguranças do Supermercado Carrefour, na zona norte de Porto Alegre. A socos e pontapés, com balas de fuzil ou revolver, nos terrenos baldios ou nos estacionamentos dos shoppings os negros são expostos nas estatísticas de carne e sangue, executados pela brutalidade insana e o ódio racista mais abjeto.

(foto romerito pontes – ccl)

Não estamos diante de fatos isolados, mas de um cruel e criminoso cotidiano, de uma política de Estado racial e fascista estruturada no desmonte das inúmeras políticas públicas e que, diariamente, criminalizam indígenas, mulheres, negros, nordestinos, homossexuais; não apenas criminalizam, matam.

Segundo relatório da Rede de Observatórios da Segurança, analisando os estudos sobre a violência nos cinco maiores estados brasileiros, demonstra que os negros (pretos e pardos) são 75% dos mortos por policiais. Entre as vítimas de feminicídios, 61% são negras. Enquanto a taxa geral de homicídios no Brasil é de 28 pessoas a cada 100 mil habitantes, entre os homens negros de 19 a 24 anos esse número sobe para mais de 200. Segundo o Atlas da Violência 2020, a taxa de homicídios de negros no Brasil entre 2008 a 2018 aumento 11,5%.

A ocupação da presidência da Fundação Palmares por Sérgio Camargo, um militante governamental declaradamente racista, se notabiliza pela vileza dos ataques às lideranças históricas do movimento negro (a começar por Zumbi de Palmares) e a dezenas de atores, intelectuais, políticos, sambistas, qualquer cidadão negro que tenha se destacado na promoção e preservação dos valores culturais, sociais e econômicos, influenciando a formação da sociedade brasileira. 

João Alberto Freitas está morto pelo ódio racista. João Pedro, 14 anos, negro, atingido dentro de casa com mais de 70 tiros, em São Gonçalo/RJ, está morto. Morto também Evaldo Rosa, músico, negro, teve o seu carro perfurado por mais de 250 tiros de fuzil por militares do exército, em Guadalupe/RJ. Nossas orações, as mesmas, sufocadas e repetidas, contra o racismo abjeto e covarde, à perseguição e massacre pelo ódio nos crimes de gêneros, raça, opção sexual, credos… Estas histórias se repetem e nelas pulsamos para que não esqueçamos do pesar, a inclemência e resistência, como um hino, onde um dia “a terra se dissolverá como neve”, sem haver paz.       

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