Situação calamitosa dos negros no Brasil mostra que libertação dos escravos está incompleta

13 de maio: o sofrimento negro não acabou

.Por Ricardo Corrêa.

Ser negro é enfrentar uma história de quase quinhentos anos de resistência à dor, ao sofrimento físico e moral, à sensação de não existir, a prática de ainda não pertencer a uma sociedade na qual consagrou tudo o que possuía, oferecendo ainda hoje o resto de si mesmo.” (BeatrizNascimento)

Se olharmos com honestidade para a vida da maioria da população negra não encontraremos elementos que motive a comemoração da abolição da escravidão no dia 13 de maio. Os defensores dessa data, normalmente aqueles que chamam as dores dos negros de vitimismo, que repudiam Zumbi dos Palmares e repetem em qualquer discussão “somos todos humanos” — uma espécie de mantra da branquitude — alegam que a libertação dos escravos aconteceu porque a Princesa Isabel (oh, sinhá salvadora!) estava acometida por um sentimento de benevolência. E acrescentam que a calamidade que vitimou os negros por séculos se encerrou naquela data.

(pintura de manuel victor – reprodução)

Mas, os negros sabem que nada disso é verdade. Esse discurso nada mais é que o falseamento da história, servindo ao racismo e fortalecendo a narrativa de brancos salvadores. Na realidade, não tardaria muito para que acontecesse a abolição da escravidão, por algumas razões como pressões políticas externas, movimentos abolicionistas, e o mais determinante: revoltas e insurreições conduzidas pelos escravos que se rebelavam retardando a produção, assassinando feitores, e depois que incendiavam as fazendas, se refugiavam nos quilombos.

Na pior das hipóteses suicidavam, demonstrando que a busca pela liberdade não tinha limites. Estavam conscientes de que não adiantava esperar pela compaixão das mãos brancas que lhes violentavam. No entanto, em que pese o desprezo que sentimos pela narrativa que engrandece a Princesa Isabel, aproveitamos a retomada do debate para denunciarmos que a libertação dos escravos foi incompleta e está relacionada diretamente com a situação calamitosa que nos encontramos.

Existe o pensamento na sociedade de que os negros são senhores do próprio destino, responsáveis pela superação de qualquer obstáculo presente em suas vidas, como se o período escravagista não tivesse influência na situação atual.

Oras, não precisa de muito esforço para compreender que a sobrevivência humana depende de meios materiais, e que a Lei Áurea não ofereceu nenhum suporte aos libertos, portanto, são gerações de negros que são afetados.

(foto ims – pd)

Não podemos assumir a narrativa da branquitude, compactuando com a hipocrisia cuja finalidade está em desenhar um Brasil como paraíso racial como se todos os negros partissem da mesma condição social. Aliás, este discurso foi construído pelo sociólogo Gilberto Freyre que abordava a escravidão como relações entre “senhores” e escravos na mais perfeita harmonia.

O intelectual Abdias do Nascimento (2011) chegou a denunciar que a “Lei Áurea não passava de uma mentira cívica” e “sua comemoração todo ano fazia parte do coro de autoelogio que a elite escravocrata fazia em louvor a si mesma no intuito de convencer a si mesma e à população negra desse esbulho conhecido como democracia racial.”

No dia 13 de maio, e não somente, é fundamental “refrescarmos” a memória daqueles que querem desconstruir e ignorar a história de sofrimento dos povos africanos e afro-brasileiros. Lembrá-los dos quatro séculos de exploração, torturas, estupros, e mostrar que mesmo depois de toda violação humana, os escravizados foram entregues aos infortúnios da sociedade e sem amparo para reconstrução da dignidade. E que o estatuto do racismo vem operando na manutenção dos privilégios de uma minoria branca, mantendo os descendentes dos escravizados aprisionados na marginalidade e dificultando o avanço na conquista de cidadania.

Devemos exigir a intervenção do Estado para a garantia de direitos e subsídios que corrijam as distorções econômicas e políticas que nos atingem. Não podemos continuar vivendo com medo e assustados, desesperançados. O volume de assassinatos de negros está aumentando.

Assassinam de “Marielles a Moas do Katendes”, encarceram desde “Babiys a Rafaéis Bragas” e produzem uma massa de negros famintos sem qualquer intervenção radical do Estado para eliminar essa situação. Juliana Borges (2018) expõe “abolida a escravidão no país, como prática legalizada de hierarquização racial e social, outros foram os mecanismos e aparatos que se constituíram e se reorganizaram […] como forma de garantir controle social, tendo como foco os grupos subalternizados estruturalmente.”, portanto, não adianta falarmos em democracia racial com essas lamentáveis constatações.

Não aceitaremos o cinismo dos privilegiados e nem a desconstrução da verdadeira história da escravidão. Precisamos de reparação histórica que coloque um fim no sofrimento humano. Um sofrimento que tem a cor negra.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BORGES, Juliana. O que é: encarceramento em massa? Belo Horizonte: Letramento/Justificando, 2018.

PORTAL BRASIL DE FATO. Entrevista Abdias do Nascimento. 2011. Acesso em: <https://www.brasildefato.com.br/node/5078/> . Acesso em: 10 mai. 2019.

RATTS, Alecsandro (Alex) J. P. . Eu sou Atlântica: Sobre a Trajetória de Vida de Beatriz Nacimento. 1. ed. São Paulo: Imprensa Oficial / instituto Kuanza, 2007. v. 1. 136p .

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