‘Negacionismo’ de Bolsonaro e da extrema-direita é bem conhecido de pesquisadores

O ataque sistemático do governo Bolsonaro (e de governos simpáticos a ele como no Rio e em São Paulo) contra as ciências humanas (especialmente sociologia, história, filosofia, educação e artes) e a negação de fatos históricos comprovados já é um fenômeno conhecido por pesquisadores das Ciências Humanas.

(foto: United States Holocaust Memorial Museum )

Holocausto, escravização dos negros e genocídio indígena são exemplos de acontecimentos cuja veracidade é questionada ou relativizada de tempos em tempos, apesar de evidências e do consenso entre os historiadores.

Recentemente, com as eleições presidenciais e a polarização do debate político no Brasil, esse fenômeno ficou em evidência mais uma vez – o presidente eleito Jair Bolsonaro chegou a estimular a comemoração do golpe de 1964, evento que deu início à ditadura militar, marcada por torturas e mortes.

O fenômeno de negar um fato histórico é conhecido como negacionismo. “Ele está presente em vários países do Ocidente e é perceptível além do campo das humanidades. Nas Ciências Biológicas, há a negação da eficácia das vacinas, nas Ciências da Terra, é reiterada a negação das mudanças climáticas e até do formato arredondado da Terra”, lembra a historiadora Mary Junqueira. 

“Pierre Vidal [historiador francês] chega a chamar os negacionistas de assassinos de memórias, termo que nasceu em função do debate sobre a recusa do Holocausto nos anos 80”, diz o também historiador Marcos Napolitano.

Além do negacionismo, existe mais um fenômeno na discussão: o revisionismo. Segundo os pesquisadores, ele não é necessariamente prejudicial, já que envolve a reinterpretação de acontecimentos históricos a partir de novos documentos, evidências e demandas da agência social, desenvolvendo outras visões sobre o passado.

O problema ocorre quando há a revisão baseada somente em um pensamento ideológico ou crença.

Atualmente, observa-se uma disputa sobre como determinados temas da História devem ser abordados. Essa disputa é política. Procura-se negar ou amenizar temas de extrema violência do nosso passado. Ao homenagear o coronel Brilhante Ustra, Bolsonaro negou a ditadura e a extrema violência que lhe foi característica. Devemos perguntar: a quem serve disseminar os negacionismos? Negar a violência do passado e do presente é um risco para a democracia”, afirma a professora Mary Junqueira.

O problema para as democracias acontece quando ela é incapaz de combater as fake news dos assassinatos de memória.

Marcos Napolitano acredita na hipótese de que o negacionismo se alimenta da volta da extrema-direita, que tenta ocupar o cenário político atual no mundo ocidental e influenciar a opinião pública. Segundo o pesquisador, é um fenômeno que começa surgir nos anos 1980 com as novas direitas, Estados Unidos e Inglaterra, e se estrutura sobretudo após a Guerra Fria e a crise da Pax Americana (hegemonia estadunidense), se consolidando no século 21.

“Retornam principalmente os setores fundamentalistas, setores de extrema-direita e setores que rejeitam a narrativa de que o Ocidente é vocacionado para a democracia, inclusão e liberdade. Existem várias falácias nisso, mas era um discurso que as elites ocidentais mantinham, mesmo que mais à direita ou esquerda, e isso está em crise, o que favorece o negacionismo”, conclui.

Até mesmo o conteúdo de livros didáticos entra em jogo. Mary explica que o conhecimento histórico passa por longo processo de análise de resultados das pesquisas e debates sobre o tema antes de sua publicação. Porém, a popularização do negacionismo na opinião pública resulta na pressão, juntamente com setores do governo, para a introdução de teses negacionistas e revisionistas ideológicas em materiais didáticos, sem embasamento argumentativo sólido. (Carta Campinas com informações de divulgação do jornal da USP/Laura Raffs)

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