De degolas e jardins

No terreno baldio há um corpo abandonado. Moscas e insetos se misturam ao ser em decomposição, ritualizam a desencarnação.

Cecília observa a cena. Pavor e nojo a dilaceram, mas ela não consegue desviar o olhar ou se afastar do local.

Há tempos o terror a penetra e a paralisa.

O morto era homem. Agora é só o morto. Um traste. Uma vítima. Um culpado. Há porções de sangue podre espalhadas pelo corpo pálido e rígido.

Ele está de bruços e tem o rosto enterrado na areia seca. Fios esparsos de cabelos castanhos e lisos escondem a cabeça degolada, conservada junto ao pescoço para garantir a identidade pós-morte.

*

Cecília deseja se comunicar com o indigente. Ela não suporta o silêncio fatal. Aproxima-se um pouco mais do corpo e diz:

– Qual seu nome, moço?

O homem não se mexe e ela se aproxima mais.

– Quem é você, moço?

O mau cheiro a contamina. Ela dá um passo para trás. Mas, já é tarde para escapar à desgraça. O cheiro a impregnou. Não apenas o cheiro, mas também a inevitabilidade da história.

Ao dar mais um passo para trás, o terreno se quebra e ela afunda no marasmo sanguinário onde a alegria e a beleza dos homens se debatem, impotentes.

*

Impossibilitada de vencer a catástrofe, a menina chora. Inconformada, ela grita ao morto:

– Diga algo, se defenda, me conte a verdade.

Suas palavras caem sobre o corpo do miserável e rapidamente se espalham por todo ele, em busca de sinais vitais.

Inútil, pensa a menina, depois de algumas horas abismáticas.

*

Cecília foi retirada do local por paramédicos. Não se sabe quem poderia ter acionado o socorro, já que naquele lugar não há vestígios de salvação.

Depois de longo tratamento, ela volta para casa. Ninguém a espera. O tempo é implacável com quem se desvia do destino. E, Cecília insistiu em trilhar poesia – a sua única e mísera verdade.

Da janela do seu quartinho, ela observa um jardim colorido e perfumado que a velha tia cultiva desde tempos imemoriais.

Cores e cheiros a inebriam.  Cecília apoia a cabeça no batente da janela. Uma borboletinha amarela sobrevoa as rosas. A menina fecha os olhos e chama a autora do jardim:

– Tia, saudades.

A tia também não responde. Ela existe apenas na memória de uma garota que se perdeu no caminho para a escola.

Recent Posts

Para contrapor Flávio, Lula precisa defender desbloqueio de acesso a praias privatizadas ilegalmente

(imagem reprodução) O presidente Lula tem feito muita coisa importante para os brasileiros em todo…

7 hours ago

Documentário Não Existe Almoço Grátis acompanha lideranças da cozinha solidária

(imagem divulgação) No dia 23 de outubro (sexta-feira), às 19h, o CineADu Especial encerra a…

8 hours ago

PUPA reúne performance e artes visuais na Sala dos Toninhos

(foto ju moretz - divulgação) O corpo como território de transformação. O casulo como lugar…

11 hours ago

Entre gestos e silêncios, Grupo Dançaberta percorre os ciclos da vida feminina em ‘Maré’

(foto josé maria - divulgação) O movimento das águas, a solidão e as mudanças que…

14 hours ago

Coral Zíper na Boca apresenta ‘Os Saltimbancos’ e ‘Wimbo Wa África’ no Convivência

(foto - divulgação) O Coral Unicamp Zíper na Boca apresenta o musical “Os Saltimbancos” e…

15 hours ago

Geraldo Alckmin participa de ato pela virada em Campinas nesta quarta-feira

(foto ricardo stuckert) A cinco dias do segundo turno, o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) estará…

1 day ago