Eis suas roupas, calmas,
como gatas ao sol, de tarde,
suas roupas amarrotadas
sem sonhos, como por acaso.
Elas têm seu cheiro, fraco,
quase se parecem com você.
Transmitem a sua sujeira,
seus maus hábitos,
os vestígios de seus cotovelos.
Parecem feitas de tempo, não respiram,
sobram, moles, cheias de botões,
de características e manchas.
Nas mãos de um policial,
de uma costureira, de um arqueólogo,
revelariam costuras,
segredos fúteis.
Mas, onde você está, se está sofrendo,
o que sempre quis me dizer
e nunca disse,
se vai voltar, se aquilo
que aconteceu, aconteceu por amor
ou necessidade ou esquecimento,
e por que tudo isto
ocorreu,
como ocorreu,
quando a vida estava em jogo,
se você morreu ou se
está só lavando os cabelos:
isto não dizem.
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