(foto valéria paiva - unicamp)
Maria do Socorro Sousa Braga, pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal de São Carlos (PPGPol/UFSCar), divulgou, nesta quarta-feira (7/10), durante o 50º Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs), resultados preliminares de estudo a respeito das candidaturas de mulheres nas eleições de 2026.
Braga destacou o fato de que 47% das pessoas filiadas a partidos políticos no Brasil são mulheres; contudo, entre as candidaturas, elas representam apenas 36%. É este “gap de gênero” que a pesquisadora busca compreender – não sem antes fazer uma ressalva: “Ter uma candidatura não significa ter uma campanha”, referindo-se a candidaturas “laranja”, fenômeno que ocorre quando os partidos cadastram candidaturas de mulheres apenas para cumprir com os 30% de cotas previsto em lei. Tendo isso em mente, é possível que o gap seja ainda mais amplo.
A pesquisa de Braga demonstra que a cada mil mulheres filiadas, 0,93 tornam-se candidatas; no caso dos homens, o número sobe para 1,47 candidatura para cada mil filiados. Esta diferença demonstra que mulheres têm 37% menos chance do que homens de virar candidatas. A autora do estudo frisa, ainda, que a diferença entre os gêneros se mantém mais ou menos estável independente de variáveis como partido, idade ou escolaridade.
Analisando apenas o universo das mulheres, contudo, algumas diferenças se sobressaem. Entre os principais fatores que facilitam uma eventual candidatura feminina estão escolaridade e idade: mulheres com ensino superior completo e de meia-idade (45 a 59 anos) têm probabilidade maior de se tornarem candidatas a cargos proporcionais (a análise excluiu candidaturas majoritárias, posto que se baseiam em outros critérios de seleção). Entre os partidos, os que têm menor “taxa de conversão” de mulheres filiadas a candidatas são o Democrata (0,47) e o Republicanos (0,5).
Braga reforça, por fim, não analisar a competitividade das candidatas, mas sim as relações de gênero que parecem se atravessar às possibilidades de uma candidatura efetivamente ocorrer.
Voto de mulheres evangélicas também foi objeto de análise
Junto à Maria do Socorro Sousa Braga na mesa “Mulheres e as Eleições de 2026”, Janine Targino, professora adjunta na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e professora no Programa de Pós-graduação em Sociologia Política do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro da Universidade Cândido Mendes (IUPERJ/UCAM), também apresentou algumas análises eleitorais – em seu caso, sobre os votos de mulheres evangélicas e as candidaturas de mulheres com título religioso.
Desde 2018, as mulheres rejeitam mais Bolsonaro do que os homens, e isso vale também entre os evangélicos. No Datafolha de julho de 2022, segundo tabulação divulgada pela Folha de S.Paulo, 48% das evangélicas declaravam voto em Bolsonaro no segundo turno, contra 58% dos evangélicos – diferença maior do que a margem de erro. Para Targino, uma das hipóteses para entender essa diferença é a “economia moral do cuidado”, que se refere a quem essas mulheres atribuem o cuidado que sustenta a casa, se à Igreja ou ao Estado. Um primeiro teste com dados do Estudo Eleitoral Brasileiro (ESEB) encontrou sinal de que o acesso ao Bolsa Família altera essa distância entre as evangélicas, hipótese que segue em investigação.
Em 2026, as pesquisas divulgadas até agora não permitem comparar evangélicas e evangélicos, mas os dados ainda mostram que a diferença de gênero existe no eleitorado como um todo, o que reforça a importância de não tratar o voto evangélico como um bloco homogêneo.
Entre as candidatas a deputada federal, estadual e distrital com título religioso no nome de urna (como irmã, missionária ou pastora), Targino identificou 204 em 2022 e 144 em 2026. Nenhuma foi eleita em nenhum dos dois pleitos, segundo a apuração do primeiro turno. A pesquisadora ressalva que o dado não demonstra que o título seja a causa, já que a reeleição pesa muito, e que o levantamento ainda precisa controlar o financiamento de campanha.
A mesa “Mulheres e as Eleições de 2026” foi coordenada por Mariele Troiano (UFF) e teve a participação, além de Braga e de Targino, de Beatriz Rodrigues Sanchez (UnB). O 50º Encontro Anual da ANPOCS contou com uma extensa programação de grupos de trabalho, simpósios, mesas-redondas e sessões especiais. Destacam-se debates sobre violência pública e feminicídio; crises institucionais e democracia; entre outros temas. Ao todo, foram mais de mil trabalhos submetidos ao congresso, que reuniu cerca de 2 mil pessoas ao longo dos três dias de evento presencial na Unicamp, em Campinas, além das atividades remotas entre 29 de setembro e 2 de outubro. (Com informações de divulgação)
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