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Muito além do Ipiranga: ‘A Independência abriu uma caixa de Pandora difícil de imaginar’

(foto rodrigo argenton – wikimedia commons – ciência ufpr)

Com 4,15 metros de altura por 7,6 metros de largura, “Independência ou Morte” (1888), de Pedro Américo, é uma das telas mais emblemáticas da história nacional. Difundida aos montes durante o século 20, a pintura transformou a Independência brasileira em uma cena monumental, com D. Pedro I no centro, cercado por soldados, cavalos empinados e espadas erguidas. Mas será que a história foi assim? E como era o Brasil que acabava de nascer como país independente? 

Em 7 de setembro de 1822, o Brasil já não era uma colônia, e integrava o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, criado em 1815, após a transferência da Coroa portuguesa para o Rio de Janeiro, em 1808. Príncipe regente (autoridade que governa em nome do monarca), D. Pedro I voltava de Santos para São Paulo quando recebeu um maço de cartas.

Algumas traziam ordens das Cortes portuguesas exigindo seu retorno a Portugal e o fim da autonomia brasileira. Outras, como as de sua esposa, Maria Leopoldina, e a do ministro José Bonifácio, o aconselhavam a romper de vez com o país de origem.

E agora, padre Belchior?

O relato mais antigo dessa cena é atribuído a seu conselheiro, padre Belchior Pinheiro de Oliveira, que acompanhava a comitiva. Segundo o vigário, o príncipe teria perguntado o que fazer diante do impasse. “E eu respondi prontamente: ‘Se V. Alteza não se faz rei do Brasil, será prisioneiro das Cortes e, talvez, deserdado por elas. Não há outro caminho senão a independência e a separação’”, escreveu.

E foi em meio a essas tensões políticas, que se estendiam há meses, que D. Pedro escolheu romper com Portugal ali mesmo. A decisão entrou para a história como o nascimento de uma nação às margens do rio Ipiranga. A proclamação oficial da Independência aconteceria no dia seguinte, com um discurso destinado aos paulistanos, mas, em algumas províncias, a separação só seria consolidada mediante conflitos armados. Na Bahia, por exemplo, a expulsão definitiva das tropas de Lisboa só ocorreu em 2 de julho de 1823; no Maranhão, a adesão ao Império do Brasil veio no dia 28 de julho do mesmo ano. 

A frase “Independência ou Morte”, registrada depois no depoimento de Manuel Marcondes de Oliveira e Mello, futuro barão de Pindamonhangaba, que também presenciou a decisão de Dom Pedro, foi incorporada à narrativa do 7 de setembro, e ganhou uma imagem definitiva na tela de Pedro Américo, posteriormente reproduzida em livros didáticos, jornais e cartões-postais. 

O Brasil de 1822

Mas como era o Brasil daquela época? Em primeiro lugar, subpovoado, diz o professor Carlos Alberto Medeiros Lima, do Departamento de História da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Éramos em torno de 4 milhões de pessoas e o atual Paraná, então parte de São Paulo, tinha menos de 0,5 habitante por km². A título de comparação, em 2022, a densidade era 57,4 hab/km2, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A maioria da população era livre e pobre, mas havia muitos escravizados. “Para se ter uma idéia, Salvador tinha aproximadamente 30 mil, e o Rio de Janeiro já era o maior porto importador de escravizados da história da humanidade: eram quase 60 mil em 1821”, diz Lima.

A diferenciação entre cidade e campo não era muito demarcada e, mesmo cidades maiores, como Rio de Janeiro e Salvador, tinham amplos territórios rurais e as áreas então chamadas de subúrbios, zonas de transição entre o rural e o urbano com a presença de chácaras. 

Um dos fatores que contribuíram para o preenchimento desses vazios foi a circulação de rebanhos. “Muitos dos animais consumidos no atual Sudeste eram criados no Sul, em fazendas agropastoris, que tiveram seu auge na época da Independência. Mulas e novilhos caminhavam essa distância toda e eram alimentados no caminho, para não chegarem magros ao destino”, diz o professor.  

A consolidação dessas rotas tornou necessário o povoamento dos trechos entre as cidades e deu origem a novas profissões, meios de vida e formas de ocupação. Para além do trabalho no campo, que era intenso, cresciam os trabalhadores urbanos. “Artesãos bem demandados no Rio de Janeiro pouco antes da Independência, como carpinteiros, pedreiros e sapateiros, deviam trabalhar uns 270 dias por ano, o que significava uma semana de seis dias de trabalho com muitíssimos dias santos”.

Como viviam e o que comiam?

O abastecimento de água era um desafio. “Aqueles Arcos da Lapa que a gente vê nas imagens do Rio de Janeiro eram, desde sua construção no século 18, um aqueduto que desembocava em um pequeno conjunto de bicas às quais as pessoas se dirigiam para encher vasilhas de água. Isso dá uma ideia da precariedade do abastecimento hídrico nas maiores cidades”, diz o professor. 

A alimentação era baseada em farinhas, segundo Lima. Na planície litorânea, predominava a mandioca. No planalto, o milho. Acrescentava-se alguma proteína a isso, normalmente em pequenas quantidades. Em comunidades caiçaras, o peixe era um complemento importante. No Rio de Janeiro e ao redor do Recife, a comida era complementada com laranjas e bananas. 

As doenças que mais matavam eram aquelas causadas por vírus, bactérias, protozoários e vermes. “O século 19, por causa da maior conexão entre os mercados pelo mundo, criou várias pandemias, sendo as mais conhecidas as da febre amarela e a do cólera. Mas, como o Brasil era subpovoado, essas pandemias demoraram a chegar aqui”, explica.

A assistência hospitalar estava ligada às Santas Casas de Misericórdia, irmandades de origem portuguesa que faziam parte de uma tradição europeia de assistência e caridade cristã. Mas, no início do século 19, as poucas unidades espalhadas pelo país atendiam majoritariamente homens adultos. Segundo o professor, essa predominância pode estar relacionada à tradição de assistência aos navegadores, uma das heranças da sociedade portuguesa que atravessou o Atlântico.

Depois do ‘grito’

Uma das transformações mais marcantes do período da Independência foi a intensificação do tráfico transatlântico de africanos escravizados. No Rio de Janeiro, o número de desembarques passou de quase 30 mil em 1822 para cerca de 50 mil em 1829.

Também mudaram as formas de acesso à terra. Em julho de 1822, pouco antes da separação de Portugal, foi suspensa a concessão de sesmarias, grandes extensões de terra concedidas pela Coroa portuguesa para estimular seu cultivo e ocupação. Isso abriu um longo período sem um marco geral para a distribuição de terras públicas.

Nesse contexto, a posse ganhou importância como forma de ocupação e apropriação da terra, favorecendo a expansão de fronteiras agrícolas, como a região cafeeira. Esse processo esteve associado à expulsão, à expropriação e à violência contra populações indígenas e contribuiu para o avanço da ocupação de áreas do interior.

Além disso, o país recém-independente enfrentou grande instabilidade política e disputas pelo poder entre as elites regionais em torno da construção do novo Estado. Esse processo fazia parte dos desafios enfrentados por sociedades recém-saídas do domínio colonial na definição de suas novas estruturas.

Por fim, mesmo com a separação da Coroa portuguesa, o número de imigrantes vindos de Portugal aumentou devido às crises políticas que também atingiam o território Portugal. “Tanto no Rio de Janeiro quanto na Bahia, verificou-se uma autêntica explosão da desigualdade, que já era grande. A Independência abriu uma caixa de Pandora difícil de imaginar”, finaliza o docente.  (Livia Inacio/Ciência UFPR)

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