(imagem michal balog - pxl)
Bolsa Família é um programa Salva Vidas. Além de reduzir a morte de mulheres durante a gravidez, o Bolsa Família também reduz o suicídio de mulheres. Mais que isso, estudos também demonstram que o programa evitou 700 mil mortes e internações.
O risco de suicídio no Brasil foi reduzido entre os beneficiários de programas de transferência de renda entre os anos 2004 e 2015. Foi o que descobriu um estudo publicado na PLOS Medicine, uma das revistas de maior impacto internacional na área de Saúde.
O artigo foi produzido por pesquisadoras e pesquisadores do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia), liderado pela pesquisadora associada Daiane Machado, que também integra o Departamento de Saúde Global e Medicina Social, da Universidade de Harvard. O estudo contou ainda com pesquisadores da London School of Hygiene and Medicine, The University of Melbourne e King’s College-London.
Com uma base de milhões de dados de beneficiárias e não beneficiários do programa Bolsa Família (76.532.158 pessoas no total), foram registrados 36.742 casos de suicídio entre pessoas com 10 anos ou mais na amostra do estudo. O grupo de pesquisa do Cidacs mensurou a correlação entre taxas de suicídio e o programa de transferência condicionada de renda.
Este foi o primeiro estudo a analisar dados individuais dos beneficiários cruzados com os dados de Sistema de Informação de Mortalidade, obtendo com isso precisão e escalas inéditas na área até então.
Em 2017, outro estudo utilizando dados municipais, processados pela equipe do Cidacs, avaliou o efeito do programa Bolsa Família na redução do suicídio nos municípios brasileiros.
Descobertas, dados e limitações do estudo
“Observamos que as pessoas beneficiárias do programa de transferência de renda apresentaram menor taxa de suicídio do que as não beneficiárias, e que essa associação foi mais forte entre as mulheres e os indivíduos com idade entre 25 e 59 anos, ou seja, os adultos”, afirma Daiane Machado, líder do estudo e pesquisadora de referência mundial em pesquisas sobre suicídio e determinantes sociais.
Apesar do estudo apresentar limitações, como um possível sub-registro de casos devido ao estigma em torno do suicídio e uma falta de variáveis de controle mensurando transtornos mentais prévios e acesso a meios de suicídio, ficou demonstrado que a taxa de suicídio entre beneficiários era metade (5,4) quando comparada a não beneficiários (10,7) durante o período do estudo. O que está possivelmente associado ao recebimento do benefício do programa Bolsa Família.
O que significam as descobertas
Os estudos que antecedem este artigo têm demonstrado uma forte associação entre fatores socioeconômicos e casos de suicídio. No entanto, evidências sobre o impacto das intervenções socioeconômicas para reduzir a taxa de suicídio são ainda limitadas, e isso foi o que motivou o grupo a realizar este estudo.
O estudo destaca ainda que os casos de suicídio devem aumentar com a recessão econômica consequente à pandemia de Covid-19 e à guerra na Ucrânia, aumentando ainda mais a importância de estudos e intervenções públicas na área. “Descobertas como essa podem ajudar a informar os formuladores de políticas e as autoridades de Saúde. Com estudos como esse podemos projetar estratégias de prevenção ao suicídio mais eficazes, incluindo programas de transferência de renda no Brasil e no mundo”, avalia Machado.
“Este estudo reforça dados anteriores do grupo e demonstra o imenso impacto que a redução da pobreza possui na saúde mental”, destacou Mauricio Barreto, coordenador do Cidacs e último autor do paper.
O achado que identificou a associação entre uma intervenção socioeconômica e redução nas taxas de suicídio a nível individual só foi possível devido ao uso de uma grande base de dados organizada pelo Cidacs, com mais da metade da população brasileira, a Coorte de 100 Milhões de Brasileiros.
O Bolsa Família, considerado o maior programa de transferência de renda do mundo, esteve direcionado a reduzir a pobreza de milhões de pessoas em todo Brasil até ser descontinuado pelo governo federal em outubro de 2021. (Por Antonio Laranjeira – Fiocruz)
Pesquisador(es): Daiane Machado, Mauricio Barreto, Maria Yury Ichihara, Luís Fernando Araújo, Flávia Jôse Alves, Julia Pescarini, Laura Rodrigues.
DOI: https://doi.org/10.1371/journal.pmed.1004000
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