EUA e Europa já mataram 43 milhões de pessoas desde 1971 com sanções e guerras

(imagem rs via fotos públicas)

As políticas de dominação dos EUA e da Europa provocaram a morte de pelo menos 43 milhões de pessoas em vários países do mundo entre 1971 e 2021. Os dados são a soma das mortes provocadas por sanções e guerras diretas e indiretas com outros países em todos os continentes do mundo.

No caso das sanções, o estudo ‘Effects of international sanctions on age-specific mortality: a cross-national panel data analysis’, publicado pela revista científica Lancet, constatou que EUA e Europa mataram 38 milhões de pessoas com sanções a diversos países. Na América Latina, alguns dos mais afetados foram Chile, Cuba e Venezuela. O estudo foi realizado pelos pesquisadores Francisco Rodriguez, Silvio Rendón e Mark Weisbrot.

No caso das guerras, a estimativa é de cerca de 100 mil mortes por ano, chegando a 300 mil/anuais entre os anos 70 e 80. Os EUA e a Europa estiveram envolvidos direta ou indiretamente em praticamente todas as guerras do mundo nos últimos 100 anos. Os dados da própria biblioteca do Congresso norte-americano informa que no período de 1971 a 2021, os Estados Unidos mobilizaram forças armadas em praticamente todos os anos. Os Estados Unidos tem entre 750 e 800 instalações militares no exterior, atuando militarmente em todo o planeta.

A União Europeia esteve envolvida em vários conflitos dentro e fora da Europa. Países europeus individuais (como Reino Unido e França) estiveram envolvidos em intervenções constantes durante todo o período, de acordo com  Declassified UK, uma organização britânica de jornalismo investigativo, fundada em 2019 por Matt Kennard e Mark Curtis, focada em revelar o papel da política externa, militar e de inteligência do Reino Unido no mundo.

Entre 1971 e 2021, a estimativa de mortes anuais por conflitos armados variou significativamente, com um pico nas décadas de 1970/1980, um declínio no final da Guerra Fria e um aumento recente. Embora os números exatos sejam difíceis de contabilizar, dados baseados no Uppsala Conflict Data Program e pesquisas no Our World in Data fornecem uma estimativa.

Na década de 1970 a1980, as mortes por conflitos aumentaram novamente após um declínio depois da Segunda Guerra Mundial, chegando a picos de aproximadamente 300 mil anuais. Na década de 1990 a 2010, as mortes caíram para níveis mais baixos após o fim da Guerra Fria (1989), mantendo-se abaixo dos picos anteriores. Entre 2011 e 2021, a violência tendeu a aumentar novamente, com conflitos na Síria, Iêmen e outros locais impulsionando os números. Em 2021, o total de mortes relacionadas a conflitos foi estimado em 164.721, segundo o Our world in data.

Considerando uma média de 100 mil mortes/ano, em guerras provocadas, financiadas ou incentivas por EUA e Europa, os números passam de 43 milhões de mortes entre sanções nas últimas 5 décadas. As sanções econômicas mataram quase 10 vezes mais do que as guerras.

Vale a pena o artigo dos pesquisadores Jason Hickel, Dylan Sullivan e Omer Tayyab.

As sanções impostas pelos EUA e pela UE mataram 38 milhões de pessoas desde 1970

Os Estados Unidos e a Europa há muito utilizam sanções unilaterais como instrumento de poder imperial, para disciplinar e até mesmo destruir governos do Sul Global que buscam se libertar da dominação ocidental, trilhar um caminho independente e estabelecer qualquer tipo de soberania significativa.

Durante a década de 1970, havia, em média, cerca de 15 países sob sanções unilaterais ocidentais em qualquer ano. Em muitos casos, essas sanções visavam estrangular o acesso ao financiamento e ao comércio internacional, desestabilizar indústrias e inflamar crises para provocar o colapso do Estado.

Por exemplo, quando o popular socialista Salvador Allende foi eleito para o poder no Chile em 1970, o governo dos EUA impôs sanções brutais ao país. Em uma reunião na Casa Branca em setembro de 1970, o presidente dos EUA, Richard Nixon, explicou que o objetivo era “fazer a economia [do Chile] gritar”. O historiador Peter Kornbluh descreve as sanções como um “bloqueio invisível” que isolou o Chile do financiamento internacional, gerou agitação social e abriu caminho para o golpe apoiado pelos EUA que instalou a brutal ditadura de direita de Augusto Pinochet.

Desde então, os EUA e a Europa aumentaram drasticamente o uso de sanções. Durante as décadas de 1990 e 2000, uma média de 30 países estavam sujeitos a sanções unilaterais ocidentais em qualquer ano. E agora, na década de 2020, esse número ultrapassa 60 – uma proporção surpreendentemente alta de países do Sul Global.

As sanções frequentemente têm um enorme custo humano. Acadêmicos demonstraram isso em diversos casos notórios, como as sanções dos EUA contra o Iraque na década de 1990, que levaram à desnutrição generalizada, à falta de água potável e à escassez de medicamentos e eletricidade. Mais recentemente, a guerra econômica dos EUA contra a Venezuela resultou em uma grave crise econômica, com um estudo estimando que as sanções causaram 40.000 mortes adicionais em apenas um ano, de 2017 a 2018.

Até agora, os pesquisadores buscavam compreender o impacto humano das sanções caso a caso. Esse é um trabalho árduo e que sempre nos fornece apenas uma visão parcial. Mas isso mudou com  uma nova pesquisa  publicada este ano no periódico The Lancet Global Health, que nos oferece, pela primeira vez, uma perspectiva global. Liderado pelo economista Francisco Rodriguez, da Universidade de Denver, o estudo calcula o número total de mortes em excesso associadas a sanções internacionais entre 1970 e 2021.

Os resultados são impressionantes. Em sua estimativa central, os autores constataram que as sanções unilaterais impostas pelos EUA e pela UE desde 1970 estão associadas a  38 milhões de mortes . Em alguns anos, durante a década de 1990, mais de um milhão de pessoas foram mortas. Em 2021, o ano mais recente com dados disponíveis, as sanções causaram mais de 800 mil mortes.

De acordo com esses resultados, o número de pessoas mortas anualmente em decorrência de sanções é várias vezes maior do que o número de vítimas diretas da guerra (em média, cerca de 100 mil pessoas por ano). Mais da metade das vítimas são crianças e idosos, os grupos mais vulneráveis ​​à desnutrição. O estudo constata que, somente desde 2012, as sanções causaram a morte de mais de um milhão de crianças.

A fome e a privação não são um subproduto acidental das sanções ocidentais; são um objetivo fundamental. Isso fica claro em um memorando do Departamento de Estado, datado de abril de 1960, que explica o propósito das sanções americanas contra Cuba. O memorando observava que Fidel Castro – e a revolução em geral – gozavam de ampla popularidade em Cuba. Argumentava que “todos os meios possíveis deveriam ser prontamente empregados para enfraquecer a vida econômica de Cuba”, “negando dinheiro e suprimentos a Cuba, diminuindo os salários reais e monetários, provocando fome, desespero e a derrubada do governo”.

O poder das sanções ocidentais reside no controle que exercem sobre as moedas de reserva mundiais (o dólar americano e o euro), sobre os sistemas de pagamento internacionais (SWIFT) e sobre o monopólio de tecnologias essenciais (como satélites, computação em nuvem e software). Se os países do Sul Global desejam trilhar um caminho mais independente rumo a um mundo multipolar, precisarão tomar medidas para limitar sua dependência nesses aspectos e, assim, se proteger de possíveis represálias. A experiência recente da Rússia demonstra que essa abordagem pode ser bem-sucedida.

Os governos podem alcançar maior independência construindo linhas de comércio e swap Sul-Sul fora das moedas centrais, utilizando o planejamento regional para desenvolver as tecnologias necessárias e estabelecendo novos sistemas de pagamento fora do controle ocidental. De fato, vários países já estão tomando medidas nessa direção. É importante ressaltar que os novos sistemas desenvolvidos na China (por exemplo, o CIPS para pagamentos internacionais, o BeiDou para satélites, a Huawei para telecomunicações) agora oferecem a outros países do Sul global opções alternativas que podem se tornar um caminho para sair da dependência ocidental e da rede de sanções.

Essas medidas são necessárias para os países que desejam alcançar o desenvolvimento soberano, mas também representam um imperativo moral. Não podemos aceitar um mundo onde meio milhão de pessoas sejam mortas a cada ano para sustentar a hegemonia ocidental. Uma ordem internacional que se baseia nesse tipo de violência deve ser desmantelada e substituída. (original em Inglês)


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