Violência juvenil: o desafio de enfrentar uma cultura de brutalidade e impunidade

Orelha, Rodrigo Castanheira e Rodnei Ferraz (fotos reprodução)

Episódios recentes em diferentes pontos do Brasil recolocam no centro do debate público um tema incômodo: a escalada de comportamentos violentos envolvendo adolescentes e jovens e a dificuldade das instituições em responder de forma preventiva e estruturante.

Um motivo banal — a briga por causa de um chiclete — levou à morte o estudante Rodrigo Castanheira, de 16 anos, agredido violentamente pelo ex-piloto Pedro Turra, de 19 anos, na porta de um condomínio no Distrito Federal.

Dois casos de maus-tratos a animais cometidos por adolescentes foram registrados na Praia Brava, em Florianópolis (SC): o espancamento do cachorro comunitário Orelha, que teve de ser sacrificado, e a tentativa de afogamento do cão Caramelo, que teve melhor sorte e conseguiu escapar de seus agressores.

Em Campinas, estudantes de uma escola particular são investigados após denúncia de racismo contra o ex-porteiro Rodnei Ferraz, que afirma ter sido chamado de “negro sujo”, “macaco” e “sub-raça”.

Embora distintos, esses casos não podem, e não devem, ser entendidos apenas como desvio individual, mas como parte de uma cultura que naturaliza a violência como forma de afirmação de poder e resolução de conflitos.

A banalização da agressão, a exposição constante a conteúdos violentos — que encontra terreno fértil, mas não só, nas redes sociais — e a ausência de mediação adulta eficaz contribuem para um ambiente em que insultos racistas, humilhações públicas e atos de crueldade acabem normalizados.

Encontramos nesses casos de violência, ao menos três componentes importantes. Ao mesmo tempo em que as escolas mantêm um discurso de enfrentamento ao problema, em que afirmam se dedicar a incentivar o respeito, a empatia e a socialização ética, a realidade mostra que, muitas vezes, isso não vai além de discursos, com pouco efeito prático.

As estatísticas são prova disso. Dados divulgados pelo Ministério da Educação em 2025 mostram que quatro entre dez estudantes de 13 a 17 anos afirmaram que foram provocados e humilhados por colegas ao menos uma vez nos 30 dias anteriores à pesquisa. Desses, 4,6% foram vítima de bullying pela raça ou cor, mostrando que o racismo continua presente no ambiente escolar.

No caso do cão Orelha, segundo a polícia, a família do adolescente apontado como agressor após a conclusão das investigações teria tentado ocultar provas. A Polícia Civil também pediu o indiciamento de três adultos por intimidar uma testemunha, o que amplia a discussão sobre responsabilidade e conivência.

O terceiro fator é como a violência juvenil pode refletir na vida adulta. Especialistas apontam que a crueldade contra animais, especialmente quando praticada por adolescentes, é um possível indicador de comportamentos agressivos mais amplos e aumenta a probabilidade de envolvimento em outras formas de violência interpessoal ao longo da vida. Portanto, não pode ser tratada como “coisa de adolescente” e exige uma intervenção efetiva.

Os casos recentes não são eventos isolados. Eles fazem parte de um cenário mais amplo de tensão social, desigualdade, fragilidade de mediação institucional e cultura de violência que atinge jovens tanto como vítimas quanto como autores e levantam uma questão central: como equilibrar responsabilização e prevenção?

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) prevê medidas socioeducativas para adolescentes que cometem ato infracional, incluindo a internação. No entanto, a mera aplicação de medidas punitivas, sem políticas consistentes de prevenção, acompanhamento psicológico e envolvimento familiar, tende a produzir resultados limitados.

Atos devem ter consequência, o desafio, porém, não é apenas punir os responsáveis, mas enfrentar as condições que permitem que conflitos banais resultem em morte, que a crueldade contra um animal seja naturalizada como diversão e que insultos racistas ecoem dentro de uma escola.

Sem uma abordagem abrangente, que envolva família, escola, Estado e sociedade, a sucessão de episódios chocantes tende a se repetir. E cada novo caso reforça a sensação de que estamos falhando não apenas em conter a violência, mas em formar jovens capazes de conviver com diferenças e resolver conflitos sem recorrer à brutalidade.

ENTENDA OS CASOS

Agressão e morte
O ex-piloto de Fórmula Delta e empresário Pedro Arthur Turra Basso, de 19 anos, agrediu o estudante Rodrigo Helbingen Fleury Castanheira, de 16, a socos em frente a um condomínio em Vicente Pires (DF). Rodrigo sofreu traumatismo craniano, ficou 16 dias internado em coma e morreu em decorrência das lesões. Turra foi denunciado na quarta-feira (11/2) por homicídio doloso, quando há intenção de matar, por motivo fútil. A briga teria acontecido após uma discussão banal envolvendo uma brincadeira com chiclete, porém, novos depoimentos podem identificar que Rodrigo pode ter sido vítima de um crime premeditado. Turra já teria se envolvido em outros episódios de agressão e violência, investigados pela polícia.

Maus-tratos a animais
Em Florianópolis (SC), o espancamento do cachorro comunitário Orelha, na Praia Brava, resultou na morte do animal, que teve de ser sacrificado devido a gravidade dos ferimentos. A Polícia Civil concluiu a investigação e apontou um adolescente como autor da agressão. Logo após o episódio, o adolescente viajou para a Disney, nos Estados Unidos. Segundo a polícia, familiares de um dos envolvidos teriam tentado ocultar provas, um boné e um moletom que acabaram apreendidos e ajudaram a elucidar a autoria do crime. Em outro episódio na mesma praia, quatro adolescentes tentaram afogar o cão Caramelo. Os jovens foram identificados e o caso tramita na Vara da Infância e Juventude.

Racismo
O ex-porteiro Rodnei Ferraz afirma ter sido chamado de “negro sujo”, “macaco” e “sub-raça” por estudantes do Ensino Médio do Colégio Objetivo de Barão Geraldo, em Campinas. A denúncia está sendo investigada pela Polícia Civil. Ele relata que foi demitido após levar o caso à direção da escola, e o Ministério Público do Trabalho apura as circunstâncias da dispensa.


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