
A Câmara Municipal de Campinas aprovou o relatório final da Comissão Processante (CP) e decidiu pelo arquivamento das denúncias contra o vereador Otto Alejandro (PL), acusado de violência doméstica, ameaça de feminicídio e outros crimes. A decisão, tomada mesmo após a abertura unânime da CP no ano passado, ocorre paralelamente à aprovação da suspensão temporária do mandato do parlamentar por 45 dias, considerada insuficiente por vereadoras e vereadores da oposição diante da gravidade das acusações.
O arquivamento da Comissão Processante, que poderia levar à cassação do mandato do vereador, foi aprovado por 25 votos a 5 e encerra as investigações políticas sobre a denúncia apresentada por Adriano Vieira Novo. O pedido relatava acusações registradas em boletim de ocorrência na 1ª Delegacia de Defesa da Mulher de Campinas, envolvendo violência doméstica, ameaça de morte, injúria e dano, além de um episódio em que o vereador teria danificado o vidro traseiro de um ônibus. Com o fim da CP, critica a oposição, testemunhas deixaram de ser ouvidas e novas provas não poderão mais ser produzidas.
A decisão provocou forte reação de parlamentares que votaram contra a decisão. Para a vereadora Mariana Conti (PSOL), o desfecho reforça um cenário de impunidade. “É inaceitável e revoltante que um agressor de mulheres siga impune, apenas afastado por alguns dias para depois voltar a exercer seu mandato parlamentar, como se nada tivesse acontecido”, afirmou.
A presidente da Comissão Processante, vereadora Fernanda Souto (PSOL), também criticou duramente o resultado. Segundo ela, o arquivamento representa “um golpe contra as mulheres de Campinas”, ao interromper um processo que poderia aprofundar a apuração das denúncias. No mesmo sentido, as vereadoras e os parlamentares Guida Calixto (PT), Wagner Romão (PT), Gustavo Petta (PCdoB) e Paolla Miguel (PT) destacaram que o encerramento da CP impediu a oitiva de testemunhas e a coleta de provas relevantes.
Guida Calixto classificou a decisão como mais um exemplo de tolerância institucional com a violência de gênero. “Nem os vídeos nem as provas são suficientes para que esse bando de machistas deixe de passar pano. Os vereadores de direita da Casa não estão nem aí para os direitos das mulheres”, declarou.
Punição branda
As críticas também se estenderam ao processo conduzido pela Corregedoria da Câmara. Embora o plenário tenha aprovado, por 31 votos a 1, o Projeto de Resolução nº 1/2026, que suspende Otto Alejandro do exercício do mandato por 45 dias, parlamentares consideraram a punição branda. As vereadoras da Casa chegaram a apresentar uma emenda para ampliar o afastamento para 90 dias, mas a proposta foi rejeitada por 24 votos a 7.
A vereadora Paolla Miguel afirmou que a Câmara vive uma crise profunda. “A Câmara de Campinas se afunda em uma crise moral e política que não se via há anos: escândalos, investigação de denúncias gravíssimas, abuso de autoridade, ameaça, agressão. Tem vereador da direita na Câmara Municipal que gabaritou a lista de malfeitos”, declarou. Paolla também apresentou proposta, rejeitada, para alterar a ordem das votações, defendendo que a decisão da Corregedoria fosse apreciada depois da deliberação sobre a Comissão Processante.
No processo da Corregedoria, o relatório final, assinado pelo corregedor Carlinhos Camelô (PSB), reconheceu a existência de infração ética de elevada gravidade por parte de Otto Alejandro, com violação ao decoro parlamentar, à urbanidade, à boa-fé e ao respeito à dignidade da função pública. Ainda assim, a penalidade aplicada limitou-se à suspensão temporária do mandato.
Mais denúncias sem investigação
Além do caso de Otto Alejandro, o plenário também decidiu arquivar outros três pedidos de instauração de Comissões Processantes, envolvendo os vereadores Vini Oliveira (Cidadania), o próprio Otto Alejandro (PL) e Permínio Monteiro (PSB), todos relacionados a denúncias de condutas consideradas incompatíveis com o exercício do mandato.
O pedido de investigação de Vini Oliveira, feito por Maurilio Sakzenian de Souza, relatava publicação de vídeos com ofensas verbais, intimidação e ameaça a funcionários do Hospital Mário Gatti, e constrangimento e uso de tom agressivo contra flanelinhas.
O segundo documento, assinado por Adriano Novo, pedia a apuração da conduta de Otto Alejandro por discussão com agentes da Guarda Civil Municipal em um um estabelecimento comercial, por ameaças e intimidação a um motorista de ônibus e por ameaça e constrangimento a uma trabalhadora na portaria de um prédio.
O terceiro pedido, também de Adriano Novo, solicitava a instauração de CP contra Permínio Monteiro devido a decisões judiciais que envolvem suspeita de prática de “rachadinha”. Por esse caso, o vereador foi condenado pela 3ª Vara da Fazenda Pública de Campinas (SP) por improbidade administrativa, acatando denúncia do Ministério Público. O esquema envolvia a transferência de salários de funcionários do gabinete na Câmara e comissionados da Prefeitura para o vereador e familiares. A decisão da Justiça, em primeira instância, implica na perda do mandato e a suspensão de seus direitos políticos por 10 anos. A defesa do parlamentar afirmou que vai recorrer da sentença.
VEJA COMO VOTARAM OS VEREADORES
Continuidade das investigações de Otto Alejandro pela Comissão Processante

Resolução da Corregedoria para suspensão de Otto Alejandro por 45 dias

Emenda que ampliava a suspensão de Otto Alejandro para 90 dias

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