(imagens batata - autor)
Pétalas e Estrelas, Vermelhas
.Por Batata.
Exposição ‘Pétalas e Estrelas’, sobre o arquiteto campineiro Fábio Penteado, com curadoria do arquiteto Guilherme Wisnik, apresenta a dimensão da obra do autor do projeto do Centro de Convivência Cultural (Teatro de Arena), retirando Fábio das sombras a que a cidade de Campinas costuma relegar seus artistas reconhecidos nacional e internacionalmente, rompendo a bipolaridade em que a cultura local se alterna no cultivo a Carlos Gomes e Guilherme de Almeida.
Aliás, Carlos Gomes está lá grudado na obra de Fábio, quer pelo nome dado ao Centro de Convivência, quer pelos adereços do Teatro demolido afixados em suas paredes.
Qual seria o motivo dessa postura de apontar para um novo ícone?
Fábio Penteado, apesar de ser descendente de uma das vertentes da família Penteado, longeva em sua presença nas tramas econômicas, políticas e culturais da cidade, sempre teve uma relação tensa com os grupos culturais e políticos instituídos na cidade, por conta das opções políticas e ideológicas que Fábio fez, nas quais a família não o acompanhava, e que a Exposição deixa pistas mas não aborda.
Fábio Penteado teve um conjunto de obras realizadas na região de Campinas, além do Centro de Convivência, do Teatro de Piracicaba, citados na Exposição. Algumas residências particulares e o Hospital Municipal de Paulínia (onde ele trabalha a concepção que desenvolvera no Hospital da Santa Casa de São Paulo) não foram referenciadas.
O processo de construção do Centro de Convivência foi uma demonstração do estranhamento que a cidade nutria com a obra de Fábio Penteado.
Após demolir, por motivos obscuros, o único Teatro que a cidade possuía – o Teatro Carlos Gomes – na gestão Rui Novaes, a Prefeitura realizou um concurso público para construção de um novo Teatro, e a proposição de Fábio Penteado foi vencedora, com o projeto do Centro de Convivência. A obra, iniciada em 1967/68, ainda na gestão Ruy Novaes, foi interrompida pelo prefeito Orestes Quércia, depois de ter assumido a gestão da cidade em março de 1969. A administração municipal preferiu adaptar um cinema, transformando-o no Teatro Castro Mendes em 1970 (o teatro foi vitimado por um incêndio alguns meses depois de inaugurado), ao invés de dar continuidade à obra do novo teatro.
Fábio Penteado, em uma palestra no Centro de Ciências Artes e Letras (CCLA), nos idos de 1974/75, apresentou toda a trama jurídica que foi necessária para que a obra tivesse continuidade: uma Ação Popular foi impetrada contra a administração municipal para fazer valer as determinações do concurso público que havia ganho, obrigando a administração a retomar as obras, pois por conta do concurso, o orçamento da construção já estava empenhado, e devia ser executado. Nessa palestra, Fábio apresentou o viés congregador do projeto, onde o aparato cultural se comporia como uma praça e uma área de circulação pública, tanto em sua parte externa quanto na interna, onde as práticas artísticas e culturais pudessem ser apreciadas pelos transeuntes e por aqueles que ali se concentrassem para produção e fruição cultural.
O projeto era o avesso das concepções culturais que as elites locais nutriam, onde a cultura era confinada em conservatórios e academias de baixa permeabilidade com as participações mais inclusivas. O setor cultural da administração municipal, da cidade carente de teatros, era confinado na Secretaria de Educação e se ocupava de contratar conjuntos de câmara internacionais para dar concertos em pequenos auditórios, com divulgação restrita ao circuito do setor, e se ocupava a censurar peças de teatro a pedido da Liga das Senhoras Católicas¹. O projeto pensava a cultura como um bem de acesso de massa, acompanhando o processo cultural que se instalava no país, popularizando a produção cultural pelos meios de comunicação de massa e pela presença da cultura em espaços de grande afluência de público. E um detalhe a mais: estávamos em plena Ditadura Militar, em seu período mais truculento, onde a cultura era tratada como caso de polícia, crivada pela censura.
Em final de 1972, é inaugurada a praça externa com a arena teatral, e as obras internas continuaram paralisadas. As instalações elétricas e hidráulicas não foram realizadas e as atividades que vieram a ser desenvolvidas naquele espaço dependiam da instalação de ‘gatos’ de energia com mais de cem metros de extensão. Além da apresentação da tragédia grega ‘Hipólito’, realizada pelo Teatro Estudantil de Campinas (TEC), que foi iluminada por archotes, apenas um outro evento – um espetáculo musical de estudantes da Unicamp (Musicampus III – nov/73) – utilizou as dependências da Arena, até sua inauguração em Junho/1976.
Nos idos de 1974/75, a cidade, então administrada por Lauro Péricles Gonçalves, viu os investimentos culturais se multiplicarem. Após o restauro do Teatro Castro Mendes (1974), foi anunciada a retomada das obras do Centro de Convivência. Fábio Penteado, preocupado com a falta de transparência do processo de retomada das obras, em sua palestra no CCLA, conclamou a comunidade cultural de Campinas a fiscalizar e registrar o processo da retomada das obras.
As distorções do projeto, que o adaptavam à pompa cultural das elites locais com lustres e carpetes e máscaras de gesso do Teatro demolido – retirando dele o perfil de área de circulação pública em seus espaços internos e de sua arquitetura modernista – fizeram com que Fábio Penteado não participasse da inauguração do mesmo e ficasse anos sem comparecer ao Centro de Convivência.
Ao longo de mais de três décadas, a praça pode realizar as potências previstas no projeto. O espaço público da Arena foi lugar de apoteoses culturais, muitas delas conduzidas pelo Maestro Benito Juarez, que pensava a cultura com as mesmas perspectivas de Fábio Panteado, e pelas grandes manifestações políticas que ali aconteceram, como a presença de Teotônio Villela durante a campanha das Diretas Já em 1984. A realização dessas potências colocava o equipamento e seu uso em conflito com as demandas do setor imobiliário da cidade, que foi criando sólidos interesses nos entornos da praça cultural, com muitos andares sobrepostos, e que não viam as manifestações que ali ocorriam como algo aceitável.
No governo Hélio Oliveira Santos, duas intervenções mutilaram mais ainda o projeto: a primeira, uma reforma no bloco que faz frente para a Rua Conceição, que fechou a possibilidade do trânsito de pedestres pelo interior do Centro de Convivência, transformando o bloco em uma sala para pequenos concertos, fechadas com paredes e portas de frigorífico, retirando toda a visibilidade externa; e ainda, instalando um palco ridículo, onde os músicos não podiam ficar em pé na parte traseira do palco, pois corriam o risco de bater a cabeça no teto. Para essa intervenção, Fábio sequer foi comunicado. Na segunda intervenção, uma avaliação apressada de estresse estrutural da obra, que levou ao seu fechamento e a uma onerosa análise das estruturas de concreto de todos os ambientes, para enfim confirmar a integridade da construção e identificar o problema no forro do bloco de entrada do Centro de Convivência. Por conta deste processo, o equipamento ficou fechado por 15 anos, reabrindo parcialmente em 2025, sem ter um corpo de funcionários que dê conta de seu funcionamento pleno.
Para a sua reabertura a mostra da obra de Fábio Penteado. Uma mostra que apresenta a monumentalidade dos trabalhos do arquiteto, que coloca à disposição do público a possibilidade de conversar com um ‘Fábio Penteado’ virtual, gerado por programas que se pretendem inteligentes, mas que se perdem no próprio artifício. A modernidade pasteurizante.
O que será que o Fábio de carne e osso teria a dizer do seu clone?
A Exposição também apresenta dois vídeos documentais: ‘Fábio Penteado, Pétalas e Estrelas’, com roteiro do curador G. Wisnik, onde as obras de Fábio Penteado são tratadas no campo da arquitetura modernista, e ‘Fábio Penteado, na Escala da Multidão’, dirigido pelo jornalista Paulo Markun (que também biografou Fábio). No documentário ‘Fábio Penteado, na Escala da Multidão’, ele é apresentado como um arquiteto humanista, com preocupações sociais, mas sem adesão a ideologias (onde o conceito de ideologia mais parece com discursos interesseiros de políticos em campanha, e não como matriz de interpretação do mundo).
Para quem olha a Exposição e assiste aos documentários, algumas questões parecem mal explicadas. A obra de Fábio faz interlocução com a arquitetura de países socialistas: um monumento à resistência à invasão americana à Baía dos Porcos em Cuba; premiações nas Bienais de Arquitetura de Praga (Tchecoslováquia), inclusive do projeto que abriga a Exposição; presença em eventos na União Soviética, na Polônia, concentração de projetos com grande impacto social, apontando para uma ordem social que incorporasse os excluídos nos processos urbanos, culturais e sanitários. A obra de Fábio cria ágoras, espaços de estar, de manifestar, de lutar pelos direitos de expressão e de inclusão.
E mesmo assim devemos acreditar que ele não tinha opções ideológicas?
Consideremos então alguns aspectos de sua história de vida com dados dos documentários sobre a vida dele: Fábio é demitido do cargo de professor de arquitetura da Universidade Mackenzie, em Abril/1964 (o que aconteceu no nosso País em 1º/Abril/1964?); Fábio, em seguida se torna Presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), e sai combatendo as prisões arbitrárias da Ditadura contra arquitetos vinculados ao IAB, denunciando publicamente e cobrando explicações dos próceres da Ditadura.
Quem seria objeto dileto para ser vitimado pela caça às ‘bruxas’ dos primeiros momentos pós golpe de 1964? Quem faria esse tipo de cobrança em um regime de exceção, sem ter respaldo político e segurança ideológica? Quem se elege para uma entidade nacional de representação profissional sem vínculos políticos e galga posições em organizações internacionais de arquitetura?
Querem nos convencer que a ovelha vermelha da família Penteado não tinha ligação com organizações políticas que sobreviviam na clandestinidade durante a Ditadura?
O aval de um velho ‘camarada’ de partido, o jornalista Paulo Markun, que foi preso junto com Vladimir Herzog, e sofreu na carne as agruras do assassinato do colega de trabalho, seria o suficiente?
Seria necessário trazer Fábio Penteado de volta a Campinas, despido de seu perfil de militante comunista?
Além disso, seria necessário não revelar as críticas que ele teve à realização do projeto?
As novas alterações adicionadas ao projeto de reforma do Centro de Convivência careciam de uma manifestação que não as pusesse em dúvida. O cercamento da Arena e da entrada dos blocos, estrangulando as saídas da arena e protegendo as áreas cobertas da entrada dos blocos de possíveis invasores.
Quem seriam esses invasores? As vítimas da ausência de políticas sociais para a população em situação de rua?
O bloco que dá frente para a Rua Conceição ainda permanece em obras. Que surpresas nos aguardam quando vierem a reabri-lo?
Alguns ganhos a longa reforma apresentou, reaproximando a obra de sua proposição original:
o lustre do saguão de entrada foi removido, assim como os carpetes da galeria de acesso ao teatro interno.
Não importa se o projeto original era de propor para a cidade uma praça cultural?
Será que o clone virtual do Fábio Penteado conseguirá dar conta dessas querelas?
Exposição “Fábio Penteado: Pétalas e Estrelas”
Local: Centro de Convivência Cultural de Campinas “Carlos Gomes”
Endereço: Praça Imprensa Fluminense – Cambuí, Campinas
Visitação: até 21 de março de 2026 – de quarta a sábado, das 14h às 19h
Entrada gratuita
Batata – cientista social e servidor público municipal da área de Cultural ¹ em 1970, o dramaturgo e ator Plínio Marcos, solicitou um auditório municipal para apresentar sua peça ‘Quando as Máquinas Param’, que tinha alvará da Censura Federal; a petição, a princípio atendida foi revista e negada pelo Secretário Municipal de Educação, por motivo de uma manifestação em contrário da Liga das Senhoras Católicas de Campinas. Plínio Marcos relatou essa história em sua coluna no Jornal ‘Última Hora’.
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