Cocaína na comitiva de Bolsonaro é mais grave do que todas acusações contra Maduro

(fotos polícia espanha e reprodução)

Os EUA divulgaram a peça (confira e leia aqui) das acusações contra o líder da Venezuela Nicolás Maduro. Os EUA acusam Nicolás Maduro principalmente de narcotráfico e terrorismo, mas até agora não há “provas materiais”, apenas documentos de investigação, testemunhos de informantes e registros de inteligência sobre o suposto envolvimento com tráfico de drogas.

Veja mais abaixo as principais acusações contra Maduro pelos EUA. No entanto, nenhuma delas chega perto da gravidade da apreensão de 30kg de cocaína na comitiva do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que está preso em Brasília por tentativa de golpe de Estado. Veja que os 30 kg de cocaína não foram apreendidos por autoridades dos EUA, mas da Espanha. Diferente de todas as acusações contra Maduro que foram produzidas pelos EUA. Imagina se na comitiva de Nicolás Maduro na Espanha fossem apreendidos 39 kg de cocaína.

No dia 25 de junho de 2019, primeiro ano do governo Bolsonaro, em uma terça-feira, o sargento Manoel Silva Rodrigues, da Força Aérea Brasileira (FAB), foi detido no aeroporto de Sevilha, na Espanha, após autoridades locais encontrarem 39 quilos de cocaína em sua bagagem. O oficial fazia parte da comitiva do presidente Jair Bolsonaro em sua viagem à cúpula do G20, no Japão. Ao fazer uma escala na Espanha, os entorpecentes foram encontrados e Manoel foi preso acusado de tráfico de drogas. 

Segundo a lógica dos EUA, essa seria uma prova cabal da relação de Bolsonaro com o tráfico de drogas. Dois elementos chamaram a atenção de brasileiros e autoridades ao redor do mundo: a grande quantidade de drogas e o fato de estarem em um avião oficial da presidência. Os principais jornais dos Estados Unidos e Europa deram a notícia na manhã de quarta-feira, 26 de junho. Já no Brasil, a informação ganhou destaque no dia 27, sendo manchete na primeira página do Diário de Pernambuco, O Dia e de um dos maiores jornais do país, a Folha de São Paulo. Os outros dois maiores, O Globo e O Estado de São Paulo, não deram manchete para o acontecimento.

As circunstâncias nas quais a droga foi localizada —sem estar oculta— levantam a suspeita dos policiais espanhóis de que o sargento brasileiro acreditava que não seria submetido a nenhum tipo de controle alfandegário por fazer parte da comitiva do presidente brasileiro em viagem oficial. A primeira estimativa da Policia Civil, sem a realização de análises químicas para determinar com exatidão o grau de pureza do entorpecente, consideraram em 1,3 milhão de euros o valor da cocaína.

A situação é bem diferente para Nicolás Maduro, visto que nunca foram encontrados qualquer prova material ou mesmo qualquer droga em comitivas durante a presidência do venezuelano.

Veja as principais acusações contra Maduro:

Diplomatic Passports (2006–2008)
Maduro, como chanceler, “teria vendido” passaportes diplomáticos a traficantes para movimentar dinheiro e drogas com cobertura oficial. (uma suposição sem provas)

Apreensão de 5,5 toneladas de cocaína (2006, México)
Um avião DC-9 partiu do hangar presidencial no Aeroporto de Maiquetía, Venezuela, carregado com cocaína. Foi apreendido no México. Testemunhas afirmam que Maduro e Diosdado Cabello estavam envolvidos na operação. (outra suposição)

Apreensão de 1,3 toneladas de cocaína (2013, França)
Poucos meses após Maduro assumir a presidência, autoridades francesas apreenderam cocaína em voo comercial vindo de Caracas. O documento relata possível reunião de Maduro com Cabello e Hugo Carvajal para discutir o erro de usar o aeroporto oficial. Essa afirmação não vem de uma prova física direta (como gravações ou fotos da reunião), mas sim do Superseding Indictment do Departamento de Justiça dos EUA (DOJ), apresentado em março de 2020 no Tribunal do Distrito Sul de Nova York. O que acontece nesse documento: ele não apresenta evidência material pública (como áudio ou vídeo da reunião).

O que há são alegações baseadas em testemunhos de informantes, registros de inteligência e investigações da DEA. (Ou seja, a prova é o próprio acusador)

Gravações de familiares (2015)
Dois sobrinhos de Maduro (Efraín Campo Flores e Franqui Flores de Freitas) foram gravados em reuniões com agentes infiltrados da DEA, planejando enviar centenas de quilos de cocaína. Eles mencionaram Maduro como “pai” e falaram em arrecadar US$ 20 milhões para financiar campanha política. Foram condenados em Nova York.

Ao que tudo indica, essa é a situação mais próxima de Maduro. Esse episódio dos sobrinhos de Maduro é frequentemente citado como “prova indireta” contra ele, mas juridicamente a ligação é bem mais frágil do que parece. Efraín Campo Flores e Franqui Flores de Freitas, sobrinhos de Cilia Flores (esposa de Maduro), foram presos em 2015 no Haiti em operação da DEA.

Eles foram gravados negociando o envio de 800 kg de cocaína para os EUA. Nas gravações, os EUA entenderam que Maduro seria a referência à palavra “pai” e disseram que o dinheiro seria usado para financiar a campanha política da família. Foram condenados em Nova York em 2017 a 18 anos de prisão. Eles não chegaram a realizar o tráfico, como aconteceu com a comitiva de Bolsonaro que teve a droga apreendida na Espanha. Para os bolsonaristas, planejar não é crime. Mas os dois venezuelanos foram condenados.

Testemunhos de cooperação com FARC e ELN (2008–2019)
O documento cita encontros de Maduro com líderes das FARC e do ELN, inclusive em Miraflores, para coordenar proteção e rotas de tráfico. Essa também são acusações sem provas, mas a partir de operações do próprio acusador.

Diferente do caso dos 30 kg de cocaínas com a comitiva de Bolsonaro, não há, até o momento, divulgação pública de evidências físicas diretas como apreensões ligadas pessoalmente a Maduro — o caso se apoia em relatórios, interceptações e testemunhos usados pelo Departamento de Justiça.


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