(foto marina ramos - câmara dos deputados)
A direita está consorciada com o crime organizado?
Por Gerson Almeida*, em A Terra é Redonda
1.
A mobilização do medo é um instrumento político potente, usado para emparedar as instituições democráticas e impor à sociedade maior tolerância com ações feitas à margem da legalidade. A direita tem sido historicamente hábil em acirrar o medo e usá-lo como ativo político, mantendo acesa a percepção social de que estamos sempre à beira do caos.
O roteiro é quase sempre o mesmo: inicia com a acusação de que as garantias individuais e o respeito ao processo legal limitam a eficácia do combate ao crime e, logo depois, exige autonomia para que setores do Estado sejam autorizados a atuar sem as “amarras” dos mecanismos de controle social e do sistema de justiça.
O resultado desejado é obter uma autorização tácita para atuar acima da lei e com as câmeras corporais desligadas. Para potencializar a percepção de medo e arregimentar apoio social, é sempre útil construir um “inimigo poderoso” e fazer dele a causa de todos os males. Esse inimigo pode mudar de acordo com os interesses do momento, mas há um grupo clássico de bodes expiatórios: comunistas, judeus, imigrantes, muçulmanos, gays, traficantes etc.
A recente chacina, comandada pelo governador do Rio de Janeiro, deve ser compreendida como uma reação feita para proteger a verdadeira cadeia de comando dos grupos organizados, dos seus financiadores e da sua rede de colaboração, que investigações recentes começaram a desvendar.
O espetáculo macabro decidido pelo governador Cláudio de Castro, foi realizado no dia 28/10, três meses após a “Operação Carbono Oculto” (28/08) e um mês depois da “Operação Spare” (25/10), comandadas pelos órgãos federais (Ministério da Justiça, Polícia Federal, Receita Federal etc.), em parceria com estados e o Ministério Público.
A operação “Spare” foi desdobramento da operação “Carbono Oculto”, ambas voltadas para desbaratar o “andar de cima” do sofisticado esquema de lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio originado do tráfico de drogas e outras atividades criminosas. Todas com ampla ramificação em diversos estados brasileiros.
Essas organizações criminosas contam com uma complexa e diversificada rede que atua na lavagem do dinheiro e a ocultação da sua origem. Além disso, contam com a colaboração de agentes públicos que trabalham para diminuir normas e outros mecanismos de controle e fiscalização, cujo resultado prático é abrir caminho para facilitar a atuação desses grupos criminosos.
2.
O trabalho de desregulamentação de várias atividades econômicas tem aberto novas oportunidades para a ação dessas organizações.
O governo de Jair Bolsonaro foi pródigo em desmantelar os órgãos de fiscalização e controle ambiental, permitindo aceleração do desmatamento e muita ampliação do crime organizado (mineração, grilagem, tráfico) na Amazônia.
A desregulamentação do controle de armas e munições facilitou o abastecimento de armamento e munições para as organizações criminosas, tanto que o registro de armas saltou de 59 mil, em 2018, para 431 mil, em 2022, último ano do mandato de Jair Bolsonaro.
A relação de causa e efeito é tão grande que a Polícia Federal e o MP de São Paulo investigaram CAC’s que treinaram integrantes do PCC, para que “aprendessem a manusear e atirar com armas de fogo com alto poder de destruição” (G1,11/09/2024).
Mais recentemente, o escandaloso roubo dos aposentados do INSS, desbaratado pelo governo Lula, não teria sido possível sem que o executivo e o legislativo agissem de forma combinada no afrouxamento e/ou remoção dos mecanismos de controle existentes, abrindo caminho para a livre movimentação de todo o tipo de abuso e roubo descarado, inclusive de beneficiários do BPC e dos pensionistas.
Esses exemplos são suficientes para demonstrar o quanto é conveniente para a direita transformar os operadores do tráfico nas favelas como os únicos responsáveis por todos os males e torná-los o “inimigo poderoso” do momento.
As operações “Carbono Oculto” e “Spare” foram golpes muito eficientes contra a estrutura dessas organizações e nenhum agente público pode alegar desconhecimento de que a repetição de modelos fracassados, como o de Cláudio Castro, não passa de uma cortina de fumaça para esconder a falta de disposição para desmantelar os centros de poder e financiamento dessas organizações, que só excepcionalmente usam chinelos de dedo e moram em barracos.
A direita sempre foi hábil em usar o medo como ativo político, mas o contínuo avanço das investigações no “andar de cima” parece estar tirando seus líderes da sua zona de conforto e levando-os a cometer erros.
O famigerado projeto de lei da impunidade — que blindava parlamentares e até presidentes de partidos de investigação — e a apressada reunião dos governadores bolsonaristas para saudar a chacina no Rio de Janeiro — e evitar qualquer tipo de colaboração com o Ministério da Justiça –, mostram uma estranha falta de vontade de atuar na desestruturação dessas organizações.
A confirmação disso veio com a indicação do secretário de segurança pública de São Paulo, Guilherme Derrite, como relator do projeto de lei enviado pelo governo Lula, contra as facções criminosas.
A determinação dele em pedir licença do cargo de secretário de segurança de São Paulo e assumir a relatoria do projeto ficou clara. Ele quer retirar a autonomia da Polícia Federal no combate ao crime organizado e, ainda, abrir brechas para a ingerência americana no Brasil.
De forma espantosa, estamos assistindo uma explícita movimentação de setores da direita brasileira para colocar impedimentos na ação do Estado brasileiro contra o crime organizado.
O discurso da direita era “bandido bom, é bandido morto”, mas mudou quando começaram a ser condenados os líderes da tentativa de golpe de Estado.
Agora, a direita brasileira quer impedir a PF de investigar, pois ela está chegando na rede de comando. Não demora, estão pedindo anistia e blindagem para todos os chefes de quadrilhas.
*Gerson Almeida é sociólogo, ex-vereador, ex-secretário do Meio Ambiente de Porto Alegre e ex-secretário nacional de Articulação Social no governo Lula 2. (Do Viomundo)
Professora e intérprete de Libras Michelle Gonçalves Dinamarco, vencedora do concurso em 2025 (imagem divulgação)…
(imagem divulgação) Coletivo de fortalecimento feminino através da literatura marca presença no Flipoços 2026 com…
Bosque dos Jequitibás (foto rogério capela - arquivo pmc) Um Projeto de Lei Ordinária (PLO)…
(foto pedro frança - senado federal) O Bolsonarinho 01 (PL) , o filho mais velho…
(foto nina pires - divulgação) A Casa do Sol, em Campinas, se transforma novamente em…
(foto divulgação) A diretora Lina Nonato e a professora Denise Tibiriçá, da FAAP (SP), coordenam…