Professores da Unicamp condenam censura e ataque à produção científica feitos por Trump

Ana Frattini, Alvaro Bianchi e André Kaysel (fotos antonio scarpinetti, antoninho perri e isaac nobrega – ag br)

Assim como a extrema direita brasileira, que fez inúmeros cortes e ataques à produção científica e educacional durante o governo Bolsonaro, inclusive com divulgação de notícias falsas durante a pandemia, o que provocou a morte de mais de 700 mil pessoas por Covid-19, uma das maiores taxas do mundo, os EUA iniciam um novo governo Trump com ataques e censura à Ciência.

Da Unicamp – A ciência está sofrendo um ataque sem precedentes nos Estados Unidos, num movimento que faz parte de uma estratégia autoritária colocada em desenvolvimento pelo presidente Donald Trump. A crítica é do professor do Departamento de Ciência Política do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp André Kaysel, feita depois que pesquisadores do Centro de Controle de Doenças (CDC) foram instruídos a não publicar relatórios ou estudos científicos que contenham palavras consideradas inadequadas pela administração, como “gênero”, “transgênero”, “Diversidade”, “LGBT”, entre outras.

Nas primeiras semanas de governo – iniciado em 20 de janeiro –, Trump anunciou a saída dos EUA da Organização Mundial de Saúde (OMS) e de acordos internacionais pelo clima, além de ter cortado recursos para diversos programas, como aqueles destinados aos Institutos Nacionais de Saúde (da sigla em inglês NIH), referência internacional em regulamentação e em pesquisa científica na área da saúde.

Segundo publicações como The Lancet e editores do grupo BMJ (British Medical Journal), as medidas incluem a prática de censura – com a suspensão da publicação de relatórios e de comunicados –, a proibição de contato com a imprensa e o congelamento de recursos a programas de pesquisa. De acordo com as instituições, bancos de dados e páginas que continham orientações sobre vacinas, vírus e doenças sexualmente transmissíveis foram retiradas do ar para serem “revisadas” e garantir que não estejam em desacordo com as diretrizes da administração trumpista.


Kaysel avalia que o segundo governo Trump é mais radicalizado que o anterior (2017-2021) e tem cometido uma série de violações que restringem a atividade científica. “Trata-se do desenvolvimento de um projeto reacionário, com viés claramente obscurantista”, disse o professor.

Para Kaysel, a comunidade científica precisa reagir, mas de forma articulada. “O primeiro passo é entender com que tipo de governo ou ator político se está lidando. Existe entre nós [a comunidade científica] um viés ingenuamente iluminista de que você vai ganhar pela razoabilidade, pela racionalidade. Mas não é disso que se trata. Você não está lidando com uma direita liberal tecnocrata”, disse. “O apelo à racionalidade não vai funcionar com Trump”, advertiu.

Na visão do professor, é preciso construir uma coalizão democrática que reúna a comunidade acadêmica nacional e internacional, além de atores políticos progressistas e grupos minoritários. Essa coalização, diz ele, é quem deverá pressionar a Administração. “Ele [Trump] terá de entender que, embora tenha sido eleito, não pode fazer o que está fazendo”, argumenta.

A pró-reitora de pesquisa da Unicamp, Ana Frattini, diz que, ao restringir a atividade científica, Donald Trump quer evitar o amplo debate e, assim, desobrigar-se de implementar políticas públicas sociais, de saúde ou da pauta ambiental. “A saída dos EUA da OMS e do Acordo de Paris tem impacto negativo significativo nas pesquisas relacionadas à saúde e às mudanças climáticas globais. Um exemplo a não ser seguido,” afirmou.

“Quanto às restrições impostas ao NIH e à NSF (Fundação Nacional de Ciência), especialmente no fomento à pesquisa em áreas consideradas pelo novo governo como ‘nocivas’, o impacto é direto no desenvolvimento científico nacional e internacional”, concluiu ela.

Alvaro Bianchi, professor do Departamento de Ciência Política do IFCH, diz que as medidas adotadas pelo presidente norte-americano podem ter repercussão negativa não apenas para a ciência. “Trata-se de uma série de medidas que podem vir a ter um impacto notável não apenas na produção de conhecimento, mas também sobre a vida das pessoas”, disse.

“Muito recentemente, a própria Revista Lancet publicou um editorial dizendo que, por causa dessas medidas, mais pessoas ficarão doentes e mais pessoas morrerão”, lembrou ele. “Portanto, trata-se de um ataque muito grave, que provoca um caos no sistema de saúde, mas creio que esse impacto seja o aspecto mais visível do problema, neste momento. A impressão que tenho é que se trata de um ataque que poderá ser estendido também para outras áreas do conhecimento”, alertou o professor. (Por Tote Nunes – JU)

Carta Campinas

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