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A psiquê do patriarcado ramificada de forma estrutural

(Psiquê – por Erik Johan Lofgren)

A ‘psiquê do patriarcado’ não está somente no homem branco detentor bens e patrimônios. Ela se ramificou e contamina muitas das relações sociais. Ela pode estar na mulher branca, na feminista, no homem negro, nos diversos gêneros e papéis sociais. Ninguém escapa.

A psiquê do patriarcado exige, pela convivência interpessoal ou por manter algum tipo de relação, que o outro tenha obrigações inatas. Assim, o patriarca quer a retribuição e os favores como um direito nas relações matrimoniais, pessoais, laborais etc. Esposa, filhos, amigos e empregados devem favores a partir de sua legitimidade patriarcal. Mas, na contemporaneidade, essa psiquê não está restrita a este personagem, ela se ramificou pela sociedade.

Imagine que uma pessoa do seu círculo, uma mulher feminista, uma homem negro ou branco, lhe peça o favor de levá-la de carro em algum evento específico por algum motivo pessoal dela e que você mudará sua rotina para atendê-la, pegá-la em casa e levar até aquele lugar. Ou ainda, que um conhecido lhe peça um favor de fazer um trabalho para ele que é o da sua profissão e que você tenha, por exemplo, de usar o serviço de alguém para concluir esse trabalho gratuito, ‘pro bono’. Se corre tudo bem, a pessoa diz obrigado. Mas às vezes não é suficiente.

Imagine que você faça alguma observação para que a pessoa facilite o seu ‘favor pro bono’. Algo como: “então fique pronta tal horário ou adiante esse questão para me facilitar”. Na psiquê do patriarcado, isso soa como uma ofensa. Má vontade. A pessoa pede o favor justamente porque não quer ter qualquer trabalho. O outro tem que se virar para resolver o favor e sem incomodá-la.

Na psiquê do patriarcado, é como se a pessoa fosse obrigada a fazer o favor por causa dos laços interpessoais e ainda não reclamar ou exigir qualquer contribuição para realizar o favor. Ao final, essa psiquê patriarcal diz obrigado para resolver tudo, como se isso fosse a coisa mais maravilhosa da sua humildade existencial.

O patriarca talvez não diga obrigado cotidianamente, mas a psiquê do patriarcado acredita que um ‘obrigado’ é tudo. É como se dizer “obrigado” fosse um favor maior do que os favores reivindicados por causa das relações pessoais. Por isso, como dizia um bom e velho capixaba: ‘tem coisas que não se agradece, se retribui’.

Carta Campinas

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