Na melhor das hipóteses, Forças Armadas se negaram a proteger a Democracia. Na pior, atiçaram bandidos no 08/01

(foto joedson alves – ag brasil)

O golpe da tentativa

.Por Guilherme Scalzilli.

As investigações sobre as origens do “8 de janeiro” podem seguir duas linhas. A primeira, mais ortodoxa e confortável, reside em tratá-lo como evento único e irredutível: uma tentativa de golpe. Os indiciados seriam personagens que atuaram com o objetivo claro de interromper o governo Lula. Jair Bolsonaro e seus asseclas diretos protagonizam esse enredo.

A segunda abordagem começaria distinguindo as ilicitudes que geraram o vandalismo. De um lado, a tramoia golpista. De outro, a cumplicidade e a omissão de agentes públicos. Divididas as parcelas individuais de responsabilização, o ônus maior recairia sobre as pessoas que participaram de ambas as etapas, mantendo-as compatíveis com o resultado final da aventura.

Bolsonaro tem o perfil de quem acreditaria na sobrevivência de um governo gerado por uma sublevação militar. Seria fácil iludi-lo com essa bobagem, num teatro clandestino que explorasse as suas vaidades e seus limites cognitivos. Não surpreenderia descobrir que ele tinha de fato a ingênua esperança de que Lula viria a solicitar uma intervenção fardada.

Mas os organizadores dos ataques a Brasília não compartilhavam os planos de Bolsonaro. Sabemos disso porque Lula continuou presidente, algo que jamais ocorreria, naquele cenário, se o projeto golpista recebesse um mínimo de apoio dos comandos militares. E foi decisão tomada com antecedência, para evitar improvisos ou surtos de rebeldia das tropas.

O entorno bolsonarista seria incapaz de orientar evento de tamanha complexidade. Não me refiro apenas à mobilização de milhares de bandoleiros, mas também, principalmente, ao delicado equilíbrio imposto pelo propósito de liberar a destruição sem que ela resultasse numa tragédia ou num sequestro efetivo das instâncias governamentais.

Não culminando em ruptura, sequer efêmera ou iminente, os ataques expuseram a vigência de um controle mais amplo, necessário para antecipar e garantir a facilidade da ocupação e o recuo “pacífico” depois da baderna. Tudo isso envolve altas patentes, pois demanda centralização operacional, superioridade hierárquica e acesso privilegiado a informações.

No entanto, apesar das evidências, cozinha-se uma anistia velada para os mentores da conspiração vitoriosa, aquela que chamamos de “8 de janeiro”. Com endosso da mídia, o desfecho do caso pende para o caminho fácil, de usar bolsonaristas como bodes expiatórios. Surgem até ensaios de glorificação dos militares por terem supostamente abortado o tal golpe.

Não, as Forças Armadas não salvaram a democracia. Na melhor das hipóteses, negaram-se a protegê-la. Na pior delas, atiçaram bandidos para desestabilizar e acuar um governo legítimo. Talvez seja impossível distinguir juridicamente essas atitudes, mas com certeza quem devia obedecer obedeceu e quem podia mandar mandou. Não houve falha ou insubordinação.

A narrativa da “intentona” é uma receita de pizza. Com muita sorte, atinge Bolsonaro e meia dúzia de assistentes, livrando a poderosa estrutura militar que os manipulou. Reduz o “8 de janeiro” a um gigantesco mal-entendido, onde milhares de lunáticos teriam acreditado nas promessas, nos blefes e nas apostas furadas que, para estupefação geral, ninguém fez.

Depois de negarem os golpes que realmente ocorreram, os conciliadores se escandalizam com uma tentativa frustrada. Ela deve ser punida, claro, mas seu modelo obsoleto e inviável de ruptura não explica o sucesso dos ataques em Brasília. Tampouco reflete a verdadeira ameaça fascista que borbulha nos bastidores institucionais. Naturalizá-la é uma forma de capitulação.

Carta Campinas

Recent Posts

Flávio Bolsonaro destinou R$ 200 mil para condenado no assassinato de Marielle Franco

(foto beto barata - ag senado) O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) destinou quase R$ 200…

5 hours ago

60+ em Foco: festival chega a Campinas em sessões no Cineclube Terracota e Pavão Cultural

(foto divulgação) Campinas recebe, entre quarta e sexta feira, 23, 24 e 25 de setembro,…

13 hours ago

Músico campineiro Luccas Soares lança seu primeiro EP e clipe dedicado à relação pais e filhos

Luccas Soares com os filhos João Luccas e Rebeca (foto arquivo pessoal) A relação entre…

14 hours ago

Exposição em São Paulo faz homenagem ao Padre Júlio Lancellotti

(imagem divulgação) Muitas vezes, a relação que a sociedade estabelece com a população em situação…

14 hours ago

‘Nasci pra ser Dercy’, com Grace Gianoukas, mostra a mulher e a artista por trás da personagem

(foto divulgação) "Nasci pra ser Dercy" coloca em cena uma atriz diante de um desafio:…

14 hours ago

Série ‘Conduzindo Paulo Freire’ percorre memórias de viagens com o educador

(foto reprodução) Para marcar os 105 anos do nascimento de Paulo Freire, a Faculdade de…

16 hours ago