Categories: CulturaVisuais

Feridas abertas: ‘Ayrson Heráclito: Yorùbáiano’ reúne 63 obras entre instalações, fotografias e vídeos

Em São Paulo – Poderá ser vista até o dia 22 de agosto na Pinacoteca de São Paulo a exposição individual “Ayrson Heráclito: Yorùbáiano”, do artista Ayrson Heráclito. Originalmente concebida para o MAR – Museu de Arte do Rio em 2021, a versão paulistana de “Yorùbáiano” ocupa o quarto andar da Pinacoteca Estação e tem curadoria de Amanda Bonan, Ana Maria Maia e Marcelo Campos. 

Ayrson Heráclito. Barrueco Colar. Série Sangue Vegetal. 2005. Fotografia. 106 x 160 cm. Divulgação

Ayrson Heráclito traz à Pina Estação a força de mitologias africanas que aportaram no Brasil a partir da diáspora, do sequestro e da escravidão de diversos povos africanos, sobretudo a partir do século XIX. Na seleção de obras, o artista baiano articula culturas diversas, abarcando os mitos yorubanos ou nagôs e jejes, a um amálgama cultural único de saberes ancestrais, ensinamentos, lendas, ritos e visões de mundo distintos que fazem parte das matrizes religiosas e culturais do candomblé. Por intermédio dos trabalhos, o público pode conhecer as lendas, “ìtàns” e “orikis”, narrativas tradicionais que seguem presentes nas ruas, procissões, romances e enredos de escolas de samba brasileiras, tomando contato com um mundo sem pecado onde a natureza dos seres e dos bichos se complementa.

Ayrson Heráclito. Osún com Abebê e Ofá. 2020. Fotografia. 122 x 122 cm. Divulgação

Dividida em três salas, a curadoria de ”Yorùbàiano” articula três materiais orgânicos que, segundo o artista, compõem histórica e simbolicamente o “corpo cultural diaspórico”. O açúcar rememora a ganância da monocultura canavieira escravocrata, evocando ao mesmo tempo a divindade ou orixá Exú, a quem é ritualmente oferecida a cachaça. Ayrson também se vale da polissemia do azeite de dendê, ora simbolizando os fluidos vitais do corpo humano, quais sejam, o sangue, o sêmen e a saliva.

Em uma das salas, a instalação “Regresso à pintura baiana” (2002) envolve o tingimento de uma maquete da Igreja do Rosário dos Pretos, bem como uma parede da Estação com o dendê, saindo do campo da representação da pintura matérica, característica dos anos 1980, para a instalação, valendo-se do precioso óleo e sua coloração amarelo-terrosa. A videoinstalação “O pintor e a paisagem” (2011), a instalação “Barrueco” (2003), além da série fotográfica “Sangue vegetal” (2005), entre outras instalações e fotografias completam a sala.

Ayrson Heráclito. Regresso à pintura baiana – Maquete da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. 2002-2022. (Foto: Jaime Acioli)

A carne curtida no sal ou charque, por sua vez, alude às violências sofridas pelo povo negro escravizado ao mesmo tempo que remete ao orixá Ogum, a quem é oferecido o sal nos rituais do Candomblé. Nesse espaço são exibidas a instalação “Segredos Internos” (1994-2010), documentação da performance “Transmutação da carne” (2000), além do registro da performance ritualística “Sacudimento” (2022), realizada pelo artista ao redor do edifício da Estação Pinacoteca, onde funcionou o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), órgão responsável pela detenção de dissidentes políticos pelo regime civil-militar nos anos 1960 e 70.

Ayrson Heráclito. Barrueco Colar. Série Sangue Vegetal. 2005. Fotografia. 106 x 160 cm. Divulgação

A terceira sala expositiva encerra a visita com a grande instalação fotográfica “Borí” (2008-2011), cuja performance foi adquirida pelo Programa de Patronos da Arte para o acervo da Pinacoteca, com doze grandes fotografias do ritual de fazer a cabeça ou “borí”, representando cada um dos 12 orixás do xirê.

Ayrson Heráclito. Ogum – da série Oferenda à cabeça, 2008-2011. Divulgação

No dia 11 de agosto, o espaço Octógono, no edifício da Pinacoteca Luz, será palco do ritual sagrado, com duração de cerca de duas horas, conduzido pelo artista, com a presença de músicos e 12 iniciados da religião africana.

Ayrson Heráclito (Macaúbas, Bahia, 1968) é professor universitário, historiador da arte, curador e ogã de Candomblé de matriz Jejê-Mahi. Sua trajetória artística inicia-se nos anos 1980 na Bahia. O artista se consolida, em seus cerca de 35 anos de trajetória, como um dos mais significativos nomes no Brasil a construir uma obra dedicada a elaborar ritos de cura, negociando outras relações com um passado nefasto, constantemente sacudido e ritualisticamente eliminado em banhos de ervas (“ìwáẹ̀ orí”) com águas frescas (“omi odò tó ń sàn”) ou no alimento oferecido às cabeças (“borí”), para que se mantenha o equilíbrio do corpo e do espírito.

Exposição: “Ayrson Heráclito: Yorùbáiano”
Curadoria: Amanda Bonan, Ana Maria Maia e Marcelo Campos
Período expositivo: 02 de abril a 22 de agosto de 2022

Local:  Pinacoteca Estação
Endereço: Largo General Osório, 66 – Luz – São Paulo – SP
Horários de funcionamento: 10 às 18 horas, de segunda a sábado
Telefone: (11) 3335 4990
Entrada gratuita

(Carta Campinas com informações de divulgação)

Cultura Carta

Recent Posts

Assembleia em Barão Geraldo debate impactos da instalação de mega data center em Campinas

(foto divulgação) Movimentos sociais, pesquisadores, representantes políticos e organizações da sociedade civil participam, neste sábado…

39 minutes ago

Reajuste do Bolsa Família pelo governo Lula recupera inflação de três anos

(foto paulo pinto - ag brasil) O benefício pago pelo programa Bolsa Família será reajustado…

2 hours ago

Minuto Escola abre inscrições para curso gratuito de audiovisual para educadores da rede municipal

Cena de 'Minha Sala Minha Aula', da professora Rosiane Maria da Silva (foto divulgação) Usar…

3 hours ago

‘Hereditária’ reflete sobre como somos determinados pelo que herdamos e o que podemos escolher

(foto felipe rodrigues - divulgação) A partir da experiência pessoal da atriz Moira Braga, a…

18 hours ago

Pesquisadores de universidade pública iniciam teste clínico com a substância polilaminina

(imagens reprodução divulgação) A primeira fase dos estudos clínicos com a polilaminina será iniciada no…

21 hours ago

Ciranda de Filmes chega a Campinas pela primeira vez com programação voltada à infância

(foto divulgação) O que acontece quando a infância deixa de ser apenas personagem e passa…

22 hours ago