Merval, o fardão e a sunga

.Por Marcelo Mattos.

“Poti voltou de perseguir o inimigo… O cão fiel o seguia de perto, lambendo ainda nos pelos do focinho a marugem do sangue tabajara, de que se fartara”. ( José de Alencar, in Iracema)

A recente matéria enfadonha do jornalista Merval Pereira, comentando a foto do ex-presidente Lula ao lado da noiva, sob o luar numa praia do Ceará, não apenas revela a sua habitual predileção em afagar as elites às lambidas, mas certa soberba intelectual e mesquinhez política.

(foto ricardo stuckert – il – div)

Como um misantropo de fardão empoeirado, deslizando pantufas pelos salões da Academia Brasileira de Letras (ABL), o colunista procura desconstruir o ensaio fotográfico através um fato revelado que se impõe pelas relações humanas e, portanto, se afirma dentro da previsibilidade política como “negócio humano”, como nos ensina Hannah Arendt, e não um simples sinal fenomenológico, deslocado e desfocado da realidade.

A vida é ativa (não contemplativa) e, amparada pelo luar, expõe a intimidade desvelada pela felicidade, cumplicidade, pele bronzeada, jovialidade e, claro, “as coxas saradas” que “transformam-se em objeto de desejo”.

Mas o que saltou aos olhos incrédulos do nosso “literato de caserna” Merval, tão amabile e frugal amante dos chá-das-cinco com sequilhos e polca? Eleito bem ao gosto da ABL em 2011, onde a mediocridade literária sobrepõe à exiguidade intelectual, através das suas obscuras relações de servilismo, influências políticas e meritocracia de gabinete, dispunha somente duas obras publicadas: uma em 1979, em parceria com André Stumpf e outra em 2010, ano anterior à sua indicação, reunindo diversos artigos atacando o ex-presidente Lula.

O que chamou mesmo a atenção foi o preconceito de classe, a sua falange ultraconservadora, o jornalismo eunuco de pince-nez, o seu queremismo às avessas reiterando o voto neofascista bolsomilitar, onde a exaltação ou frêmito pelas coxas musculares, a forma física ou o incontido desejo secreto despertaram unicamente o seu indisfarçável prurido.

Para a interpretação semiótica do acadêmico imortal Merval, do jornalista mercantil condecorado com a Ordem do Mérito Judiciário, por toda a sua bajulação explicita à criminosa Operação Lava Jato e a Medalha do Pacificador, pelo Exército Brasileiro, o citado “bilau” se ajusta uniformemente à sua linguagem casta e asséptica, soa como pudor amorfo de uma elite hipócrita e infame. Para os demais mortais, aqueles que sofrem com o genocídio cotidiano e o totalitarismo do fascismo bolsonarista, fruto do golpe parlamentar e midiático-judicial de 2016, perpetrado pelo embuste, pela glosa aética do senhor Merval Pereira e congêneres, “bilau” é o cassete, pênis, pinto, pau, rola, piroca.

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