A caneta e o crime

.Por Luiz Cláudio Bittencourt.

10 de setembro aproxima-se, a primavera também, a cidade padece, 20 anos de
obscurantismo político e urbanístico.

Ex-prefeito Antonio da Costa Santos (foto mis – pmc )

Dos Sertões dos Campinhos do Mato Grosso, à Vila Colonial, à Cidade Imperial
interrompida pela Febre Amarela e retomada pela Fênix Republicana do
saneamento e do plano. Campinas sacrifica seu chão exclusivamente para o
capital, sem a mitigação da cidadania. Cenário que perdurou até os movimentos
sociais de resistência dos anos oitenta, que congelou do Centro Histórico em
defesa do seu Patrimônio arquitetônico e urbanístico e urbanizou favelas nas áreas
periféricas das invasões, novidades inovadoras de uma visão diferente da cidade e
do urbano.

Fui testemunha e agente desse desenho que não confundia crescimento com
desenvolvimento. A vida cidadã, nascida ardentemente, insinua a escala
metropolitana da cidade. Foi projeto de autoria, destinado à cidadania e à cidade:
Antonio da Costa Santos arquiteto e professor doou seu tempo, inteligência,
patrimônio pessoal e a própria vida a esse projeto, sem pedir nada em troca para
espanto de seus algozes.

Como prefeito, rapidamente iluminou os caminhos tortuosos do edifício público
municipal apenas com a caneta, refez contratos e escancarou as portas dos
departamentos e autarquias. Uma gestão cristalina para todos, sem os mistérios
dos saberes secretos acolhedores das facilidades baratas.

Da revolução na gestão pública da cidade, rapidamente percebida em suas
vantagens econômicas e sociais, surgia a irresistível ideia romana de CIVITAS.
Quem perdeu e quem ganhou com esta vida interrompida que derramava amor e
beleza pelo outro, pela cidade com sua história e sua arquitetura. O sentido épico e
lírico da caminhada política de Antonio nunca foi o da ingênua ruptura capitalista,
mas da sua evolução e superação para uma cidade mais justa, inclusiva, com seu
chão acessível a todos, dentro da mediação do capital.

Vinte anos passados sem conclusão minimamente razoável deste crime,
impossível de afastar-se das suas causalidades políticas e urbanísticas. O
arquivamento deste processo será uma indignidade a todos e não escapará aos
olhos da história e dos historiadores.

Não será ironia concluir por arquivar o assassinato de um urbanista, que sempre
se colocou ao lado da justiça em suas várias ações populares contra as grandes
empreiteiras e suas irregularidades locais. Será, sim, um ato de covardia e de
cumplicidade, que produzirá a irresistível imagem da justiça ao lado do atraso.
Vinte anos são passados sem os fatos plenamente esclarecido na amplitude das
suas causalidades políticas e urbanísticas. O arquivamento desse processo
significará também, a tentativa de enterrar, no silêncio da noite, parte significativa
da história de Campinas, para evitar que seus habitantes possam conhecer a
verdade.

A peneira com que tentam tapar os fatos não resistirá à ação do tempo e aquele
que se colocou ao lado da justiça contra pequenos e grandes enganadores da
alma popular, terá certamente, ao final, o reconhecimento irresistível do “Pai
Tempo”.

Luiz Cláudio Bittencourt é arquiteto

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