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A militarização da corrupção

(foto ag brasil – jose cruz)

Certas coisas só são amargas se a gente as engole”. (Millôr Fernandes)

.Por Marcelo Mattos.

A recente audiência da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Covid-19 que ouviu o representante de vendas da Davati Medical Supply, Cristiano Carvalho, deixou à mostra os tentáculos das forças militares, a evidência da sua voracidade pelas vantagens escusas e as facilidades corporativas das mamatas de Estado.

Segundo a brilhante pesquisa e estudo do professor William Nozaki, “A Militarização da Administração Pública no Brasil: Projeto de Nação ou Projeto de Poder?”,  mais de 6,3 mil militares brasileiros ocupam cargos civis em diferentes áreas, certamente, a maior da história brasileira, excetuando-se o período da ditadura militar, ocupando 10 indicações de Ministros, além da presença em diversos ministérios, empresas estatais e autarquias. 

Esses agentes fardados estão em áreas onde não apresentam a menor competência e conhecimento para ocupá-las, sobretudo naquelas ligadas ao ensino superior; no Ministério da Saúde (Anvisa); no Ministério da Agricultura (Incra); no Ministério dos Direitos Humanos (Funai); no Ministério da Cidadania (Esportes), além de 250 militares espalhados estrategicamente em postos chaves de Empresas Estatais, entre outros.

Em linha geral, o que vemos é a ocupação do Estado por um grupo de militares, sem que exista propriamente algum projeto ou gestão para além da própria obtenção de regalias.

Esses militares atuam, portanto, como coexecutores, cúmplices do desastre que representa o atual desgoverno de ocupação fardada, responsáveis também pela política de descalabro, genocida, inepta no combate à pandemia de Covid-19, causando mais de 540 mil mortes, milhares de cidadão sequelados com gravidade, a miséria, fome e vulnerabilidades de milhões, o desmonte da máquina pública e a sua pilhagem, por agentes levianos e corruptos.

Ocorre neste atual governo uma permissividade, a complacência de um governo fraudatário para que um grupo de especuladores e sicários desonestos instaurasse dentro do governo uma forma de atuação que já mantinham no seu universo miliciano ou da capangagem ou pentecostalismo ou terraplanismo de Estado ou rachadinhas…

Estão todos aí: na rapinagem mais abjeta intentando comprar vacinas superfaturadas enquanto milhares morrem sem imunização, na prevaricação como dístico, marca da ingestão pública, nas invasões autorizadas das florestas e terras indígenas pelo agronegócio e garimpo bandoleiro, na corrupção ativa como na Superintendência do Ministério de Saúde no Rio de Janeiro (apenas para citar um exemplo), na venda/entrega do patrimônio público  como a Eletrobrás, Petrobrás distribuidora e demais subsidiárias, a cessão onerosa dos poços de pré-sal, etc.

Essa camada de militares tem uma compulsão ilimitada, uma voracidade aristocrática por mais gratificações, bonificações, soldos dilatados e benefícios hereditários, além de certa elitização rastaquera de realeza que os colocam como uma casta intangível, com um sistema de proteção trabalhista, social e previdenciário exclusivo que não está disponível para a maioria dos cidadãos e civis brasileiros.

Enquanto os trabalhadores tiveram os seus direitos retirados nas recentes reformas previdenciária e trabalhista, os militares de plantão tiveram os seus privilégios inatingidos, acumulando saldos e soldos, favorecidos com mais e novas benesses, mamatas do desgoverno Bolsonaro.  

Daí, se compreende a nota indigente, desqualificada, o melindre reacionário do chefe da Aeronáutica ao criticar o presidente da CPI, senador Omar Aziz, ao antever o número de militares e a quantidades de coronéis de fardas envolvidos na gatunagem, na compra fraudulenta de vacinas AstraZeneca pelo Ministério da Saúde (que tem 25 militares na sua linha de frente da pasta), ainda sob a gestão desastrosa, usurária do general Eduardo Pazuello.

Carta Campinas

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