As instituições hesitam diante da tempestade que se anuncia

Instituições não estão funcionando e Bolsonaro não se cansa de desafiar o STF

Por Martonio Mont’Alverne Barreto Lima – Do Brasil de Fato

No dia 17 de abril de 2016, o então deputado federal Jair Bolsonaro homenageou a tortura e o torturador, em votação que foi transmitida ao vivo, para todo o país e para o mundo. Que ali havia inequívocas autoria e materialidade de delito, contra a Constituição e as leis, todos sabiam.

(foto marcello casal jr – ag brasil)

Até hoje, não se deu nenhuma punição contra o deputado que se elegeu presidente, por meio da mesma democracia que desrespeita quase todos os dias. Quase dois anos depois, em 3 de abril de 2018, um general ameaçou pelas redes sociais o Supremo Tribunal Federal (STF), às vésperas do julgamento de habeas corpus do ex-presidente Lula. Em fevereiro de 2021 um ministro do STF reage ao que general havia publicado. E recebe a ironia do general: quase três anos depois?

Da campanha eleitoral de 2018 até os dias atuais, o presidente Bolsonaro e seus aliados não cansam de desafiar o STF. As ameaças vão desde as jocosidades de que bastariam dois soldados de baixa patente para fechar o Tribunal, até o estímulo aberto a atores políticos e sociais contra o Tribunal.

Nos últimos dias, nova ameaça: o STF não deverá ousar invalidar ato normativo do presidente que eventualmente venha a limitar a competência de governadores e prefeitos para medidas de combate à pandemia da Covid-19.

O STF já reconheceu a competência concorrente das autoridades estaduais e municipais em decisão de controle concentrado de constitucionalidade, a qual que possui efeito vinculante contra todos os órgãos da administração pública federal, estadual e municipal.

Na hipótese de o presidente desobedecer a este entendimento derivado da Constituição e proferido por seu guardião, é a mesma Constituição quem prevê a pena a ser aplicada: impedimento do presidente.

Até o momento, com exceção de intelectuais juristas, não se viu nenhuma manifestação dos poderes constituídos contra as ameaças cotidianas do presidente. O professor Lenio Streck adverte-nos de que já não há mais rubicão a ser atravessado, de tantas travessias violadoras da Constituição e das leis que já contamos.

Há algum tempo que se insiste que as “instituições estão funcionando”. Isto não é verdade! Pararam de funcionar quando não impediram o golpe de 2016.

Se o STF entendeu que não poderia se imiscuir nas decisões políticas do Poder Legislativo, em nome de uma chamada autocontenção, estão diante de nossos olhos as intervenções do Judiciário no Legislativo e no Executivo, durante o processo de impeachment, permitindo que atores políticos a favor do governo de Dilma Rousseff fossem neutralizados, e outros, contra a presidenta, continuassem atuando, como Eduardo Cunha.

Seria positivo que o STF fortalecesse sua disposição atual de enfrentar tanto a si próprio, quanto à operação Lava Jato. Como se sabe, há significativa parte do tribunal que relativiza os desmandos desta operação, e procura preservá-la até onde puder, como se não houvesse Constituição, leis e regimentos internos do tribunal.

Como se os fatos processuais não falassem, ou não deixassem evidente que espertezas e manobras judiciais não podem prosperar no estado democrático de direito.

Esta nova disposição terá que incluir medidas a respeito das ameaças do presidente contra o STF e contra a democracia brasileira. Bolsonaro e seu apoio mostraram nos últimos dias sua disposição de violar a Constituição.

Se se aceita que as manifestações recentes, a pedirem que o STF seja fechado, não foram significativas, por outro lado não há como negar sua clara direção contra a democracia.

Incentivadas pelo presidente, revelam para todos, infelizmente, que as instituições ainda hesitam diante da tempestade que se anuncia.

Não se trata de perseguição: trata-se de aplicar o devido processo legal a quem não tem o menor respeito por qualquer garantia constitucional, antes que não haja mais Tribunal com poderes para se contrapor a um cenário nada alvissareiro. (Do Brasil de Fato)

*Martonio Mont’Alverne Barreto Lima é professor titular da Universidade de Fortaleza, procurador do Município de Fortaleza e membro da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD).

Recent Posts

Sinfônica de Campinas apresenta trilhas de filmes e desenhos animados em ‘Heróis & Lendas’

(foto firmino piton - arquivo pmc) A Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas apresenta, neste sábado,…

3 minutes ago

Cisne Negro leva cultura popular e urbana ao Teatro Sérgio Cardoso com ‘Calunga’ e ‘Que Tal o Impossível?’

(foto reginaldo azevedo - divulgação) Em São Paulo - Duas obras de momentos diferentes da…

17 hours ago

Mírian Silvestre e Matheus Dutra apresentam o espetáculo ‘Esquinas’ na Rabeca Cultural

(foto fernanda ferreira - divulgação) A cantora Mírian Silvestre e o violonista Matheus Dutra apresentam…

18 hours ago

Cinema na faixa: mais de 50 filmes para ver de graça em Campinas no mês de outubro

Cena de "A Última Sessão de Cinema", de Peter Bogdanovich (foto divulgação) Cinema clássico, produções…

19 hours ago

André Mendonça escondeu relações de Luciano Huck, Flávio Bolsonaro e Kássio Nunes com Vorcaro

(imagem reprodução) Levantamento de sigilos confirma que Mendonça escondeu elos de Vorcaro com KN, Fux,…

24 hours ago

Ataques a imagens de santos católicos se espalham pelo Brasil na véspera das eleições

(imagem ataque em 2022 - reprodução) Na tentativa de manter um candidato de família miliciana…

2 days ago