A destruição ambiental e a boiada

.Por Marcelo Mattos.

A recente aprovação do PL 3.729/2004, pautado e tramitado em regime de urgência sem o devido debate público, acabando com o licenciamento ambiental no Brasil é mais uma política de destruição do meio ambiente e ameaça aos povos indígenas, quilombolas e comunidades caiçaras proporcionadas pelo desgoverno federal.

(foto ag brasil – ex-br – div)

A passagem da “boiada” em meio à pandemia exultada pelo ministro Ricardo Salles – aquele mesmo dos desmatamentos florestais, garimpos ilegais e contrabandos de madeiras – com o fim do licenciamento ambiental atende unicamente a interesses particulares e do agronegócio. Lembremos que, desde 2019 a família Bolsonaro alardeia um projeto pessoal buscando tornar o litoral de Angra dos Reis, Paraty, a estação ecológica e APA de Tamoios numa “Cancún brasileira”, com a instalação nas áreas de reservas ambientais de resorts, cassinos, prostíbulos de luxo, etc. numa mamata exploratória litorânea com a destruição da preservação do ambiental e exploração descontrolado pelo agronegócio e grandes empresas internacionais de negócios e turismo.

A desastrosa aprovação desse PL 3.729, na sua pior versão desde a sua tramitação em 2004, evidencia que os parlamentares que ajudaram a sua aprovação agiram unicamente por interesses próprios e da especulação empresarial.

O licenciamento que é um dos principais instrumentos de preservação e proteção do meio ambiente e das populações afetadas por empreendimentos como a construção de hidrelétricas, barragens e rodovias, foi transformado numa simples peça burocrática, sem a participação das populações impactadas e trazendo danos ambientais irreversíveis, a devastação de florestas, manguezais, matas ciliares e litorâneas, além da insegurança jurídica, econômica e ambiental sem precedentes.

Estamos diante de mais uma destruição ambiental que facilitará a dispensa para agricultura, pecuária, silvicultura e de pelo menos 13 tipos de atividades que impactará o meio ambiente, dentre elas: obras para distribuição de energia; outorga sobre uso da água e sistemas e estações de tratamento de água e de esgoto sanitário; ampliação ou obras de manutenção em estradas e hidrelétricas; cultivo de espécies agropastoris, de silvicultura e pecuária extensiva (mesmo que a propriedade tenha pendências ambientais!);
Brecha para disputa entre estados e municípios, que poderão estabelecer regras de licenciamento menos rígidas do que as de outras unidades da federação para atrair empresas e investidores facilitando a corrupção institucional;

A licença autodeclaratória (também chamada de Licença por Adesão e Compromisso), será emitida automaticamente sem qualquer análise prévia pelo órgão ambiental, passa a ser a regra do licenciamento no país. Isso aplicará em empreendimentos como barragens de rejeitos, como Brumadinho e Mariana sem controle;

Passa a restringir gravemente a participação popular no processo de licenciamento, inclusive das pessoas impactadas por empreendimentos, o que implica em violação de direitos dos povos indígenas e comunidades tradicionais, como as quilombolas;

Ameaça às Unidades de Conservação, terras indígenas não demarcadas (¼ do total) e terras quilombolas não tituladas (87% do total), porque a análise dos impactos dos empreendimentos sobre tais áreas não será mais obrigatória. Isso deixará as populações e esses territórios, ricos em biodiversidade, ainda mais reféns da destruição;

Restrição à participação de órgãos fundamentais, como ICMBio, Funai, Iphan, Ministério da Agricultura e Ministério da Saúde, o que é inconstitucional e coloca em risco direitos dos povos indígenas, tradicionais e das populações locais afetadas pelas obras;

Bancos e outras instituições que financiam os empreendimentos não terão mais nenhuma responsabilidade socioambiental (prevista na Lei nº 6.938/1981), ou seja, caso haja danos ao meio ambiente ou tragédias como a de Brumadinho, elas poderão dizer que não têm nada a ver com o problema;
Por fim, o PL 3.7929/2004 não trata de qualquer questão ligada às mudanças climáticas.

View Comments

Recent Posts

Professores da Unicamp encerram greve iniciada em 18 de maio

(foto divulgação adunicamp) O fim da greve de professores da Unicamp foi decidido em Assembleia…

12 hours ago

Investigação já considera filme um grande esquema de lavagem de dinheiro da família Bolsonaro

(imagens reprodução divulgação) A Polícia Federal (PF), que abriu inquérito para investigar se recursos milionários…

18 hours ago

Orquestra Sinfônica de Campinas abre ensaio geral do concerto ‘Noite Mágica’ ao público

(foto firmino piton - pmc) A Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas realiza nesta sexta-feira, 12…

19 hours ago

Guilherme Arantes traz a turnê ’50 Anos-Luz’ para Campinas

(foto marcia gonzales - divulgação) Guilherme Arantes desembarca em Campinas nesta sexta-feira, 12 de junho…

19 hours ago

Senadores entregam recursos de fundo de educação e saúde para mau pagador do agro

(foto carlos moura ag senado) Em mais um ataque contra os recursos da população brasileira,…

21 hours ago

MACC se transforma em passarela para encontro entre a arte e a moda autoral

Obra da exposição "Corrosão", de Laura Mallozi (foto fernanda ferreira - reprodução instagram) O Museu…

2 days ago