Cia brasileira de teatro explora possibilidades de diálogos e descobertas do ser em ‘PRETO’

Em São Paulo – As infinitas possibilidades de diálogos e descobertas do ser, através de um corpo, uma palavra ou um som, se desdobram na narrativa de “Preto”, o novo projeto da companhia brasileira de teatro que estreia em São Paulo a partir de 09 de novembro de 2017, no Sesc Campo Limpo, após uma ocupação/residência de 30 dias de criação na mesma unidade.

Dirigida por Marcio Abreu, a peça se articula a partir da fala pública de uma mulher negra, uma espécie de conferência que se desdobra em imagens, mediações da palavra, ressignificações dos corpos, ativação da escuta e reverberação dos sentidos numa sequência de tentativas de diálogos.

PRETO promove uma investigação sobre o que gera a recusa das diferenças na sociedade e como reagir artisticamente diante desta pluralidade cultural, política, étnica e racial. A experiência busca expandir através da arte as percepções sobre o outro e sobre os espaços de convivência, além da formação de sensibilidades que aparecem em três grandes momentos durante a narrativa.

Um dos questionamentos que acompanham a peça- do que você não esquece nunca do que você é? – traz o jogo visceral que se entrelaça com os caminhos dos pensamentos na filosofia, literatura, dança, música e antropologia. A dramaturgia carrega diálogos marcados pelo noticiário, sem a intenção de reproduzir a realidade, e traz cenas vivenciadas pelo artistas em seus cotidianos, proporcionando instâncias de linguagem para a peça.

A narrativa ainda proporciona reflexão sobre como a sociedade se comporta e dá poder à questão da imagem social. Imposta como verdade neste universo contemporâneo, questionamentos do tipo “como eu me vejo?” ou “como o outro me vê?” ganham força e enriquecem o espetáculo por meio da construção de um diálogo.

“Tá vendo? Eu não sei falar sobre mim. Falar sobre mim pode ser pouco. Ou não, né? Mas sei falar sobre o que me atravessa, e me atravessa aquela garota erguendo a carteira da escola no meio da rua. Aquela mulher esbravejando com o policial. Aquela palestra, quando ela falou que eles calculavam qual seria o melhor dia para fugir. O vídeo da mulher sendo arrastada. O clipe. Beyoncé fez eu me sentir com poder. A liberdade não tem nome e o nome dele é Rafael, nome de um primo meu. A série. Aquilo coloca a nossa forma de viver na linguagem de mercado. E ganharam um Oscar. Eu tenho raiva daquilo. Mas me interessa furar a tortura simbólica das imagens que não deixa a nossa imagem viver plenamente, com amor, com beleza, com dinheiro. E digo mais: para que servem nossas respostas que falam sobre nós. A quem? Quem são os corpos que ouvem isso? Essas palavras fazem agir? Amanhã o teu cabelo vai gritar alguma coisa? Teus braços, teus pés e mãos? Quem vai abrir mão para dividir? E nós? Vamos ter fôlego para plantar em cada comunidade, em cada reunião, alguma ação?”

O racismo e a investigação pela negação transposta pela sociedade atual – presente na peça – tem como referência básica no processo de construção a obra de Joaquim Nabuco, intelectual e político abolicionista brasileiro que viveu no século XIX entre o Brasil e a Europa, “A Crítica da Razão Negra”, do professor e cientista político sul-africano Achille Mbembe, os escritos de Frantz Fanon, a literatura de Ana Maria Gonçalves, e da poeta e professora Leda Maria Martins, entre outros pensadores.

Fruto do desdobramento da pesquisa de “PROJETO bRASIL”, PRETO vem se construindo desde 2015 e se deu em diversas situações de residências artísticas em períodos, cidades e países diferentes, entre eles: Belo Horizonte, São José do Rio Preto, Rio de Janeiro, São Paulo, Araraquara, Curitiba e Santos. As cidades de Dresden e Frankfurt, na Alemanha, também receberam residências artísticas (com mostras de processo, oficinas, encontros, conversas públicas), todas abertas ao público.

“Em cada uma das etapas de trabalho fomos permeados por circunstâncias e experiências específicas. Em todas elas promovemos ou participamos de encontros entre artistas e público através de apresentações de peças do nosso repertório, oficinas, mostras de processo, debates e conversas públicas, entendendo o teatro como lugar mobilizador de sensibilidades, sentido político e ativador de transformações possíveis, transformações sonhadas e as que ainda nem imaginamos”, completa o diretor Marcio Abreu sobre o processo.

A companhia brasileira de teatro é um coletivo de artistas de várias regiões do país fundado pelo dramaturgo e diretor Marcio Abreu em 2000, em Curitiba, onde mantém sua sede num prédio antigo do centro histórico.

Sua pesquisa é voltada sobretudo para novas formas de escrita e para a criação contemporânea. Entre suas principais realizações, peças com dramaturgia própria, escritas em processos colaborativos e simultâneos à criação dos espetáculos, como PROJETO bRASIL (2015); Vida (2010); O que eu gostaria de dizer (2008); Volta ao dia…(2002).

Há ainda uma série de criações a partir da obra de autores inéditos no país como Krum (2015) de Hanock Levin; Esta Criança (2012), de Joel Pommerat; Isso te interessa? (2011), a partir do texto Bon, Saint-Cloud, de Noelle Renaude e Oxigênio (2010) de Ivan Viripaev.

A companhia realiza ainda frequentes intercâmbios com outros artistas no país e no exterior. Estreou na França, em 2014, o espetáculo Nus, Ferozes e Antropófagos em pareceria com os diretores Thomas Quillardet e Pierre Pradinas e com artistas brasileiros e franceses do Coletivo Jakart e colaboradores da companhia brasileira. (Carta Campinas com informações de divulgação)

Ficha técnica:

Direção: Marcio Abreu
Elenco: Cássia Damasceno, Felipe Soares, Grace Passô, Nadja Naira, Renata Sorrah e Rodrigo Bolzan
Músico: Felipe Storino
Dramaturgia: Marcio Abreu, Grace Passô e Nadja Naira
Iluminação: Nadja Naira
Cenografia: Marcelo Alvarenga
Trilha e efeitos sonoros: Felipe Storino
Direção de Produção: José Maria | NIA Teatro
Direção de Movimento: Marcia Rubin
Vídeos: Batman Zavarese e Bruna Lessa
Figurino: Ticiana Passos
Assistência de Direção: Nadja Naira
Orientação de texto e consultoria vocal: Babaya
Consultoria Musical: Ernani Maletta
Adereços | Esculturas: Bruno Dante
Colaboração artística: Aline Villa Real e Leda Maria Martins
Assistência de Iluminação e Operador de Luz: Henrique Linhares
Assistência de Produção e Contrarregragem: Eloy Machado
Operador de Vídeo: Bruna Lessa e Bruno Carneiro
Assistência de Produção: Caroll Teixeira
Participação Artística na Residência realizada em Dresden: Danilo Grangheia, Daniel Schauf e Simon Möllendorf
Projeto Gráfico: Fabio Arruda e Rodrigo Bleque | Cubículo
Fotos: Nana Moraes
Assessoria de Imprensa: Márcia Marques, Kelly Santos e Daniele Valério | Canal Aberto
Produção: companhia brasileira de teatro
Co-produção: HELLERAU – European Center for the Arts Dresden, Künstlerhaus Mousonturm Frankfurt am Main, Théâtre de Choisy-le-Roi – Scène conventionnée pour la diversité linguistique
Realização: Sesc São Paulo
companhia brasileira de teatro
Direção de Produção: Giovana Soar
Administrativo e Financeiro: Cássia Damasceno
Assistente Administrativo: Helen Kalinski

PRETO
De 09 de novembro a 17 de dezembro de 2017
De quinta a sábado, 20h e domingos, 18h.
Não haverá apresentações nos feriados dos dias 15 e 20 de novembro.

SESC CAMPO LIMPO
R. Nossa Sra. do Bom Conselho, 120 – Santo Amaro – São Paulo – SP
Tel. (11) 5510-2700
Capacidade: 120 lugares/ Recomendação: 14 anos/ Duração: 90 minutos
Ingressos: R$ 9,00 (Credencial plena), R$ 15,00 (Aposentado, pessoas com mais de 60 anos, pessoa com deficiência, estudante e servidor da escola pública com comprovante) e R$ 30,00.

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