Em busca do tempo perdido


.Por Marcelo Sguassábia.

– Essa sua matemática é muito esquisita. Muito, muito estranha.
– Esquisita nada. Pensa comigo: quando começa o horário de verão, você é surrupiado em uma hora, e ela não vai voltar nunca mais.
– Mas quando o horário acaba, a hora retorna pra você, pois os relógios são atrasados em uma hora e tudo volta a ser como antes.
– É isso o que você não está entendendo! Como é que eu vou explicar?… Quando adiantaram o relógio, no começo dessa porcaria que não economiza energia elétrica nenhuma, somos tungados em uma hora. Até aí tudo bem?
– Sim, lógico.
– Então, e lá em fevereiro, quando essa hora é devolvida, não é que você “ganha” uma hora. As coisas simplesmente retornam aos eixos. O certo, para que houvesse justiça, seria atrasar duas horas. Uma para tudo voltar ao normal – e até aí, zero a zero – e outra pela hora que te roubaram em outubro, meu velho!!! Será que é tão difícil assim perceber a diferença? A cada ano, te subtraem uma hora de vida, que vai ficar eternamente na saudade. Simples e aritmético. Conta de mais e de menos.
– Certo, e aonde você tá querendo chegar?
– Ao Governo Federal, com uma ação na justiça. Só minha ou coletiva, depende de quantos entenderem o raciocínio e comprarem a ideia.
– Ah, vai ser difícil você explicar esse negócio aí…
– Olha, nem eu sei direito quantos horários de verão já foram enfiados goela abaixo da população. Vamos supor que tenham sido 20 até hoje. Então haveria um banco de horas. Para cada horário de verão que entrar em vigor, o cidadão teria direito a uma hora de crédito. Livre, sem trabalhar, pra ele usufruir como quiser. E que ele pode gozar a cada ano ou ir acumulando para tirar um monte delas de uma vez só. Compreendeu? Sempre deixando claro que essa hora adicional é além daquela oficial, que já retorna de qualquer jeito quando acaba a brincadeira.
– Espera aí, espera aí… para, para tudo, tá dando um nó na cabeça.
– Não tem nó nenhum, é simplesmente óbvio, as pessoas é que ainda não perceberam!
– Tá errado, cara. Quando começa, você fica com um dia de 23 horas. Mas quando acaba, você tem direito a um de 25. Justiça total, tudo certo.
– Ledo engano! Quando acaba, você só volta a ter um de 24, que é o que cabe a todos nós desde que o mundo é mundo. Aqueles 60 minutos que sequestraram não serão resgatados.
– Jesus amado, eu não vou ficar discutindo com você. Daqui a pouco é uma hora perdida – e, nesse caso, perdida mesmo – com uma discussão que não leva a nada. Precisa estar bem desocupado pra ficar pensando nessas coisas…
– Errou de novo, queridão. Sou ocupado até demais. Pode reparar, todo mundo reclama da falta de tempo. Aí chega um cidadão e decreta que, de outubro a fevereiro, você tem menos tempo ainda. É arbitrário e injusto.
– Então não acerta o seu relógio. Pronto, encerra o assunto.
– Mas aí serei só eu o errado. Fico descompassado do rebanhão. Agora, se todo mundo desacatar, vamos ganhar essa parada. Podemos tomar de novo o poder do tempo! Ou, pelo menos, exigir a implantação do BHV – Banco de Horas de Verão… Se bem que, neste ano, não adianta mais. E, para entrar em vigor no ano que vem, a proposta do banco tem que ser votada até o fim de novembro.
– É, mas estamos no horário de verão. Brasília esvazia mais cedo, os deputados não são de ferro e também querem curtir sua praia e sua piscina. E olha, se for correr abaixo-assinado na rua, não esquece do protetor solar. Fator 50, no mínimo.

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