Depoimento sobre amamentação: cesárea e pesquisa acadêmica

Por Juliana Morais Belo

A imagem de uma mulher tranquila amamentando sempre povoou meu imaginário. Seja nas novelas, nos filmes ou nas campanhas de amamentação, há sempre a ideia de que tudo é muito simples e que ocorre de maneira mágica: ao dar de mamar, a mãe dá uma prova de amor.

O que jamais me ocorreu é que o processo não é tão rápido e que algumas vezes, há dor e muita preocupação. Lembro-me de ter ouvido no hospital, no dia que a Ísis nasceu que meu seio tinha o bico invertido e que amamentar seria muito difícil. E foi nesse mesmo dia que a enfermeira-chefe afirmou que ao escolher um parto cesáreo, eu teria feito uma péssima escolha.

O curioso é que a profissional da saúde não julgou a postura do médico que em todas as consultas me falava que a cesariana seria mais fácil e tranquila e que assim, poderia contar com ele em todos os momentos – ao contrário de um parto normal.

A ideia de amamentação ligada ao ato de amor me fez pensar que talvez o meu “instinto materno” não fosse suficiente ou que não ter pesquisado de forma adequada sobre os possíveis riscos da cesariana me tornavam uma mãe menos amorosa. É interessante notar que o que está em jogo é a figura materna e feminina, obviamente.

Nunca se julga paternidade, conduta ética do profissional de saúde ou toda uma vivência em sociedade que não nos julga, nos condena. E o conflito não foi nada fácil e estava apenas começando: após as primeiras duas semanas de vida, conforme esperado, minha filha perdeu um pouco de peso, mas o que é um fato normal tornou-se espaço de muita crítica e julgamento: fui acusada de ter dado mamadeira, de não saber amamentar e que ao não oferecer a fórmula, estaria colocando a vida do bebê em risco.

Tudo isso aconteceu num hospital, quando minha filha teve que ficar internada por uma icterícia. Entre choro, frustração e muita tensão, ganhei apoio na experiência da minha mãe, na cumplicidade da minha irmã e nas instruções do pediatra da minha filha.

As dores passaram, as rachaduras foram embora e o leite materno foi o alimento do meu bebê. Todos aqueles comentários e julgamentos das profissionais da saúde perderam espaço para o aprendizado diário e muita troca de afeto.

Naquele momento, entendi que o mais importante era fornecer o melhor alimento para ela e eu me senti confortável para fazer uma das mudanças mais importantes de nossas vidas, a ida à Campinas, para que eu pudesse iniciar o mestrado e poucas vezes me senti tão julgada por escolher dar continuidade à carreira acadêmica.

Entre olhares, sorrisos amarelos e muita desconfiança, amamentei nos espaços coletivos da Universidade de Campinas e em todos os lugares que eu frequentava, pois nunca usei o paninho, nem cobri o seio para deixar as pessoas mais tranquilas.

O fato é que toda a sociedade contribui para que o ato de amamentar seja difícil, complicado e cheio de culpa: o tamanho da criança, o tempo que ela mama, se mama para dormir ou para apenas se sentir mais segura e parar de chorar.

Nunca passei produtos nos seios e o tal do bico invertido não me impediu de amamentar por dois anos e seis meses. Dentre falas como a de que o leite já estava ralo e que não servia como alimento; que estaria transformando uma criança num ser mimado; que era feio ver alguém tão grande agarrada no seio da mãe, decidimos que nossos momentos importavam bem mais. E que seriam bem aproveitados.

O momento de parar foi algo tranquilo e envolveu uma conversa bem sossegada com a minha filha. E outras formas de carinho e de alimentação foram exploradas. E vivenciadas com muita compreensão.

Veja mais depoimentos da Semana da Amamentação.

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