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Desigualdade social extrema é incompatível com a democracia, diz Alfredo Saad Filho

Alfredo Saad Filho (imagem reprodução)

O economista Alfredo Saad Filho, professor da Universidade de Londres, em entrevista ao professor Armando Boito Jr., docente do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, fez uma análise da tensão entre democracia e neoliberalismo e também das tensões geradas durante os governo do PT.

Para ele, o PT “foi incapaz de entender essas tensões em tempo real, e incapaz de liderar a busca por soluções”. Isso possibilitou que a elite se rebelasse e o Estado brasileiro fosse tomado por uma quadrilha, que hoje comanda o país.

Para Saad Filho, que professor de Economia Política na Escola de Estudos Orientais e Africanos (SOAS), a desigualdade extrema é incompatível com a democracia.

Veja alguns trechos:

“O Brasil vive uma tragédia sem precedentes no último século. A produção por substituição de importações foi destruída pela transição neoliberal nos anos 1990, e essa transição econômica rumo ao neoliberalismo veio na esteira da transição da ditadura para a democracia. Entretanto, a transição democrática era pouco compatível com a transição neoliberal: o neoliberalismo impõe uma economia com um padrão distributivo excludente e que cresce pouco, gera empregos ruins, e que produziu um padrão de especialização perverso: o Brasil entrou na divisão internacional do trabalho abaixo da China. Isso é um absurdo, para um país que tinha construído uma base industrial razoavelmente coerente e sofisticada. Agora, estamos presos debaixo de um colosso. Será muitíssimo difícil construir uma sociedade integrada e minimamente igual com essa base produtiva extremamente limitada”.

“Enquanto isso, a democracia significa uma sociedade inclusiva, relativamente igual, composta de cidadãos, e não de uns poucos sujeitos ricos e uma grande massa empobrecida. As desigualdades sociais extremas são incompatíveis com a democracia, mas o neoliberalismo é incompatível com a igualdade.

“As tensões entre a democracia e o neoliberalismo explicam grande parte do desastre recente no Brasil: os governos do PT buscaram construir uma sociedade inclusiva numa base neoliberal, e o projeto entrou em colapso quando as condições internacionais se tornaram adversas, depois da crise global. O PT foi incapaz de entender essas tensões em tempo real, e incapaz de liderar a busca por soluções: o partido e seus governos continuaram, até o fim, a tentar improvisar alternativas temporárias, compatibilizar interesses cada vez mais distantes, e distribuir renda na margem sem mudar nada de fundo. Deu no que deu: a elite se rebelou, o Estado brasileiro foi sequestrado por uma quadrilha, um neoliberalismo turbinado está sendo imposto à força, e a sociedade está sofrendo prejuízos enormes.”

“O Brasil vive um pesadelo sem solução fora da democracia. Por isso eu sou a favor das eleições diretas já: elas abrem caminho para a sociedade fazer uma escolha de projetos, ao invés de ter que se subordinar, sem consulta alguma, ao projeto excludente de um grupo de bandidos.”

“Essa é também uma crise [mundial] do neoliberalismo, que perdeu a capacidade de gerir a economia de maneira construtiva ou estável e, depois da crise [de 2008], demonstrou grandes limitações em liderar a recuperação da economia global. Claro que o pior da crise já passou há algum tempo, pelo menos nos países do centro. Entretanto, a economia mundial está caindo no que até mesmo economistas neoclássicos reconhecem ser uma “Grande Estagnação” sem final previsto. Uma tragédia: a crise mostra que o neoliberalismo é capaz de gerar grandes lucros para poucos, mas não é capaz de dinamizar a economia, ou de construir sociedades coesas.” (Veja Entrevista integral)

Carta Campinas

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